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Entrevista

Quais musicais clássicos inspiraram O Beijo da Mulher Aranha? Entenda

Omelete conversa com o montador do filme, Brian A. Kates, sobre as influências

Omelete
7 min de leitura
15.01.2026, às 06H00.
Jennifer Lopez em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)

Créditos da imagem: Jennifer Lopez em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)

Que O Beijo da Mulher Aranha, novo filme estrelado por Jennifer Lopez, é uma adaptação do premiado musical da Broadway de 1992, não é novidade – mas assistir ao longa é entender que o diretor Bill Condon (Dreamgirls: Em Busca de um Sonho, A Bela e a Fera) fez do filme uma homenagem imponente a todo o histórico do gênero em Hollywood.

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Natural, até porque a história se presta a isso. A saber: em O Beijo da Mulher Aranha, o ativista Valentin (Diego Luna) e o vitrinista Molina (Tonatiuh) dividem cela em uma prisão clandestina na Argentina, comandada pelo regime militar que governou o país entre os anos 1970 e 1980. Para tentar lidar com a brutalidade de sua situação, os dois conversam sobre Ingrid Luna (Lopez), uma estrela de cinema, e escapam para os mundos de fantasia dos filmes protagonizados por ela.

Nessas cenas de fantasia, explode em tela o estilo dos grandes musicais hollywoodianos dos anos 1940 e 1950 – e, segundo o montador Brian A. Kates, especialmente aqueles estrelados por Gene Kelly. A seguir, confira a conversa completa do editor com o Omelete, listando as influências de Mulher Aranha, os paralelos entre o filme e a versão de 1985, dirigida por Hector Babenco, e muito mais.

OMELETE: Olá, Brian! Devo te dizer que gostei muito de O Beijo da Mulher Aranha desde que o vi em Sundance, no ano passado. Parabéns pelo trabalho!

KATES: Que bom, fico feliz! Aquela noite de estreia foi uma noite divertida.

OMELETE: Conversamos um pouco lá em Sundance sobre como foi editar um musical, mas eu ainda não tinha visto o filme – não sabia que era uma homenagem tão grande aos musicais clássicos da MGM, muito focados em dança. O quanto você e Bill conversaram sobre emular esse estilo antigo, e o que foi necessário para alcançar isso?

KATES: Conversamos muito sobre isso. Nossas influências foram filmes como Meias de Seda, Les Girls, Sinfonia de Paris – basicamente, muitos musicais do Gene Kelly. Também há cenas no filme que são homenagens completas a Cinderela em Paris. Obviamente, "Gimme Love" é uma homenagem a Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras, que veio um pouco depois. Então, nossas influências vão do final dos anos 40 aos 50. 

Mas é realmente um estilo específico, em que a câmera deixa os dançarinos dançarem, muitas vezes em quadro cheio, ininterruptamente, sem cortes. Há muitos cortes no filme, é claro, mas menos durante as sequências de dança, porque eu realmente queria mostrar que a coreografia estava acontecendo na realidade. Esse é o estilo. Filmamos com apenas uma câmera para todas as cenas do "filme dentro do filme", porque elas teriam sido filmadas com apenas uma câmera naquela época. Quando você filma com duas câmeras, sempre tem a oportunidade de cortar entre elas, porque mantém uma continuidade perfeita – quando tem uma câmera só, precisa sincronizar as coisas manualmente.

No cinema dramático, cada plano é uma composição única por si só, para seus próprios propósitos narrativos e de design. A coreografia funcionou do mesmo jeito para nós, foi muito especificamente coreografada e filmada. Tobias A. Schliessler, o diretor de fotografia, e Brandon Bieber, um dos coreógrafos do filme, foram pessoas com quem trabalhei na sala de edição para garantir que eu estava cortando os passos de dança com fidelidade. Eles foram maravilhosos. Os outros coreógrafos, é claro, foram Sergio Trujillo e Chris Scott

Também tentamos ser muito fiéis em termos de cor, composição, todo o senso de artifício dos musicais antigos. Os cenários de fundo nessas cenas foram feitos para parecerem pintados, como seriam em um estúdio. Em alguns casos, não são realmente; são telas azuis, mas substituímos a tela azul por um fundo pintado em vez de um fundo com aparência 3D. Isso foi um artifício para termos controle sobre o design na pós-produção, e foi muito divertido trabalhar com isso também.

Diego Luna e Tonatiuh em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)
Diego Luna e Tonatiuh em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)

OMELETE: Ao mesmo tempo, há o outro lado do filme, que é muito sóbrio: a cela da prisão e tudo o que acontece entre os dois personagens principais. É onde sinto muito a influência do original O Beijo da Mulher Aranha, que foi feito aqui no meu país, no Brasil. Você estudou muito esse filme? Ele te inspirou?

KATES: Eu o assisti nos anos 80, e o vi novamente antes de começar a trabalhar neste filme. Não queria ser influenciado demais por ele, porque são adaptações muito diferentes, mas a atuação de Raul Julia é absolutamente espetacular naquele filme. Acho que ele traz para Valentin um carisma que Diego Luna igualou. Ambos parecem, para mim, extremamente fortes e suaves ao mesmo tempo – o que é muito importante, porque você poderia ir além e estender isso à quebra do binarismo de gênero. Há um machismo e uma ternura que ambos os personagens têm às vezes, e eles se completam. 

Nossa visão, ou a visão do Bill sobre o nosso filme, é mais focada na história de amor do que o original… e isso, acredito, está mais no espírito do livro. Quando eles se beijam, eles têm relações sexuais, não precisa ser algo transacional. No livro original, é complicado. Existe a necessidade de Valentin passar informações para Molina, e Molina está apaixonado por Valentin. Molina também está tentando obter informações de Valentin para que possa ser libertado. Então, existe um enquadramento transacional de todo o relacionamento deles, mas também existe o tipo de amor mais belo e completo. Eles aprendem a ser pessoas completas apenas naquela cela, apenas um com o outro. 

Então, sinto que nos aprofundamos mais nisso em nossa adaptação, mas tenho um grande respeito pelo filme original e pelo que Hector Babenco fez. O livro foi muito importante para nós durante a produção, assim como o libreto do musical da Broadway de Terrence McNally. Essas são as duas grandes influências.

OMELETE: Você ganhou um Emmy pela edição do piloto de A Maravilhosa Sra. Maisel, que é uma série muito amada aqui no Brasil. Qual foi o desafio de editar para a Amy Sherman-Palladino? O trabalho dela tem um ritmo muito característico.

OMELETE: Eu adorei trabalhar com ela, porque gosto muito desse ritmo. Gosto do desafio de ter que remover todo o "ar" de uma cena, acho isso desafiador quase de uma forma matemática, como se meu trabalho fosse comprimir, pensando apenas na musicalidade e no ritmo. Claro que você não pode pensar apenas nisso, mas acho que é muito revigorante receber esse tipo de tarefa. Gosto do fato de que, uma vez que você tira todo o ar de uma cena, os lugares onde você coloca o ar de volta tornam-se pontos de virada na cena, pontos onde a história ou as emoções mudam. A Amy é realmente muito divertida de se trabalhar, e adorei muito aquele material. Ela escreve com uma musicalidade. Ela e Dan Palladino, que foram co-showrunners em Sra. Maisel, escrevem muita música nos roteiros, mas também encontram muita música na sala de edição e dirigem cenas com musicalidade. Então, é como editar um musical, de certa forma.

Diego Luna e Jennifer Lopez em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)
Diego Luna e Jennifer Lopez em O Beijo da Mulher Aranha (Reprodução)

OMELETE: Finalmente, quero falar com você sobre Succession também. Você editou um dos episódios favoritos dos fãs série, que é "The Disruption". Como você trabalhou com Cathy Yan para criar esse episódio e, especialmente, aquela cena com a música do Nirvana?

KATES: [Risos] Adorei trabalhar com a Cathy Yan, tanto que estou trabalhando com ela novamente agora em um longa-metragem. Acho que aquela cena é tão boa quanto é porque Cathy realmente entendeu que ligar e desligar a música no set chocaria os atores. Então, ela ligava a música às vezes em momentos surpreendentes para criar reações genuínas, e isso realmente tornou a cena divertida. Era imprevisível como e quando as pessoas reagiriam. Também foi divertido por causa do desafio de mostrar que havia dois alto-falantes diferentes colocados na varanda daquele espaço, um na esquerda e outro na direita. É um desafio técnico de edição, de apenas mostrar que há música, ninguém sabe de onde vem – e então você revela que poderia estar vindo dali ou de lá. Foi divertido brincar com a direcionalidade, com as reações, com a surpresa e tudo mais. 

Cathy também desenhou as outras cenas naquele episódio de forma muito bonita, como a cena em que Logan e Shiv têm uma conversa silenciosa após aquele evento. O Sol está se pondo e a cena é filmada em um plano aberto com um reflexo – um plano muito pictórico. O que eu amo em Succession é que você tem esses momentos que são muito realistas, fundamentados e quase brutais, e depois você tem essas pequenas passagens que têm uma poesia sutil, e a Cathy capturou isso extremamente bem. Acho que é por isso que a série é tão boa, porque tem essas diferentes texturas.

OMELETE: Bom, isso é tudo o que tenho por hoje. Muito obrigado, Brian!

KATES: Obrigado, foi muito divertido conversar!

*O Beijo da Mulher Aranha já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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