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O ano em que meus pais saíram de férias

O ano em que meus pais saíram de férias

Marcelo Hessel
01.11.2006
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h20
Atualizada em 21.09.2014 às 13h20

O ano em que meus pais saíram de férias (2006) não teria esse título se não fosse um humor de mercado. Convenceram o diretor Cao Hamburger (Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme) de que Vida de Goleiro, o nome original, afastaria o público feminino. A mudança faz sentido, mas o anterior era melhor. Mesmo porque a metáfora futebolística aqui é preciosa.

Com doze anos de idade, Mauro (Michel Joelsas) já sabe que a profissão de arqueiro é a mais solitária dentro de campo. A responsabilidade é tremenda. Transcorre 1970, ano de Copa, e os pais de Mauro saem de férias. Esse é o eufemismo para dizer que a ditadura forçou o casal a se esconder. O garoto é deixado em São Paulo com o avô. O que os pais não esperavam é que o velho falecesse de repente. Mauro está prestes a experimentar um pouco da responsabilidade - e da solidão - de ser um goleiro nesse jogo da tenebrosa e incerta época da repressão.

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O bairro é o Bom Retiro, centro de comércio têxtil paulistano de grande concentração judaica. Mauro acaba no apartamento de Shlomo (Germano Haiut) e o primeiro contato dos dois não é dos melhores - mesmo porque o garoto é um gói, um não-judeu. Ao choque cultural se soma o de gerações. E Mauro não está interessado em interagir. Passa os dias ao lado do telefone, aguardando um telefonema. Seu pai prometeu voltar a tempo do começo da Copa, e Mauro guarda aí a sua esperança.

A melancolia que se segue é comum aos filmes nacionais que tratam do período do regime, mas nenhum adere, como Hamburger, ao ponto-de-vista de uma criança. A referência mais evidente é o cinema argentino: Kamchatka (2002), em particular, também enxerga dilemas de adulto por olhos inocentes. Justiça seja feita, no material de imprensa do filme a inspiração portenha é admitida. Spielberg e Leone também são citados no release. Do primeiro Hamburger herda o bom trato com elenco-mirim, contato esse depurado pelos anos de direção do seriado Rá-Tim-Bum. Do segundo, tira menção a Era uma vez na América, as ótimas sequências da espiadela pelo buraco da parede.

O ano... não é feito só de colagens. Muita coisa saiu da própria vida dos realizadores. Hamburger viu o pai judeu e a mãe católica serem presos pela ditadura. E também atuou como goleiro no time da infância. Essas memórias afetivas respondem pelos melhores momentos do filme. São aqueles instantes de sensibilidade, de percepção do mundo, que só uma criança consegue ter - seja o jeito diferente com que olha a moça bonita do bairro, a curiosidade com que veste as luvas de couro do avô ou a alegria de completar o álbum de figurinhas.

A essa porção mais leve, de descoberta, se sobrepõe a mais grave, de contexto político. Há genialidade espontânea nas cenas que relembram o espectador do clima civil de insegurança, sem que isso seja verbalizado. Uma é quando Mauro sai à rua pela primeira vez com seus novos amigos, e é surpreendido pelo avanço do cachorro. Outra é quando ele comemora sozinho um gol - a câmera enfoca-o do lado de fora do apartamento, e com as janelas fechadas vemos Mauro gritar, mas não ouvimos nada.

Triste pra caramba. E faz mulher, homem, fã ou não de futebol, se comover.

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