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Nunca aos domingos

Um inteligente clássico da comédia grega

MH
15.05.2003, às 00H00.
Atualizada em 19.11.2016, ÀS 10H05


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Nunca aos domingos
Pote tin Kyriaki
Grécia, 1960
Comédia - 91 min.



Direção: Jules Dassin
Roteiro: Jules Dassin

Elenco: Melina Mercouri, Jules Dassin, George Foundas, Titos Vandis, Mitsos Liguisos, Despo Diamantidou, Dimos Starenios, Dimitris Papamichael, Alexis Solomos


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Esta deve ser a segunda ou terceira vez que Nunca aos domingos (Pote tin Kyriaki), filme de 1960 dirigido por Jules Dassin, reestréia no Brasil. E a oportunidade de (re)vê-lo é imperdível por dois motivos. Primeiro, para que as novas audiências conheçam uma das raras obras do cinema que divertem sem menosprezar a inteligência do espectador. E, segundo, porque a crítica feita aos missionários dos bons costumes se encaixa perfeitamente ao momento político que o mundo atravessa hoje.

Norte-americano de Connecticut, nascido em 1911 e criado no Bronx nova-iorquino, Jules Dassin entrou pela porta da frente em Hollywood. Depois de trabalhar no teatro de Nova York, foi convidado, em 1940, a servir de assistente de direção a Alfred Hitchcock (1899-1980). Pouco tempo depois, já assinava contrato com a MGM e realizava alguns filmes de qualidade. 

Ele apenas não contava com o advento do Macarthismo, a caça aos comunistas liderada pelo Senador Joseph Raymond MacCarthy (1909-1957) no pós-guerra. Dedurado pelo também diretor Edward Dmytryk (1908-1999), Dassin precisou buscar exílio na França. Nada bobo, caiu também na Grécia, terra fértil em cinema político, pátria de cineastas engajados como Michael Cacoyannis (Zorba, o Grego) e Costa-Gavras (Z, Estado de Sítio).

A combinação dos elementos daria ao cinema de Dassin uma inspiração extremamente ideológica, certo? Sim e não... O filme mostra como o cineasta absorveu a enérgica cultura grega e soube juntá-la à política num filme engraçadíssimo, repleto de personagens carismáticos - e que faz pensar.

Final à beira-mar

Passada na cidade portuária de Pireu e na vizinha Atenas, a trama apresenta Ilia (Melina Mercouri, 1925-1994), a prostituta mais querida do Mediterrâneo. Animada, bonachona, receptiva e dançante como qualquer conterrâneo que se preze, Ilia ainda faz caridade: os clientes com quem ela simpatiza, não tem de pagar nada. Uma mulher independente, tem como única exigência nunca ter de ouvir a "voz de domingo", aquele papo casamenteiro de todo pretendente apaixonado.

As coisas mudam quando desembarca na região o norte-americano Homero (o próprio Dassin), metido a filósofo, cujo nome foi dado pelo pai em homenagem ao lendário escritor heleno. Encantado com a tradição grega pré-Cristianismo - que considera a civilização mais avançada de toda a História - Homero chega decidido a entender o declínio dos homens. Em outras palavras, quer saber por que o povo de Sócrates e Aristóteles se transformou num bando de farristas.

Quando conhece Ilia, o norte-americano percebe ali a personificação de todo esse mundo. E não tem dúvida: deve livrar a mulher da vida fácil, da perdição carnal, e mostrar a ela a felicidade do conhecimento. Desse contraste vive o filme. Homero chega defendendo Aristóteles, o inventor da Lógica. Ilia não gosta do filósofo, pois este desprezava o valor das mulheres. Homero vibra ao saber que Ilia gosta de Teatro grego, de tragédias. Mas a prostituta não acredita no final sinistro das peças - e sempre inventa, na sua cabeça, um desfecho em que todos terminam à beira-mar.

Cara de bobo

Apesar de já ter alcançado uma certa notoriedade com Rififi (Du rififi chez les hommes, 1955), até hoje um modelo para os filmes-de-assalto, Dassin não teve um grande orçamento para filmar Nunca aos domingos. Assim, como não podia bancar um ator norte-americano, assumiu o protagonista. O remendo não poderia ser mais acertado. O Homero de Dassin é um homenzinho baixo, com cara de bobo, jeitos inocentes e más-intenções escondidas - bem ao estilo de um George W. Bush catequizante. Todas as suas aparições são deliciosas, assim como a sua química com Melina Mercouri, a diva grega daquele momento - e esposa do diretor.

Para espanto de Dassin, o filme foi um sucesso internacional. Melina levou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. Indicado ao Oscar de Diretor, Roteiro, Figurino e Atriz, o filme ganhou o merecidíssimo troféu de Melhor Canção. Assim, o cineasta se vinga dos seus perseguidores com um filme leve, mas que sabe alfinetar doutrinas como poucas produções. 

Num tempo em que a democratização norte-americana do Iraque não sabe seguir as heranças mesopotâmicas e as tradições do povo nativo, Nunca aos domingos prova que a sua lição é mais do que longeva - é urgente. O que vale é o respeito! Dizer que o filme é meramente marxista seria diminuí-lo. Estão ali, sim, a exaltação das classes baixas e do instinto coletivo (Ilia serve de exemplo às outras putas, exploradas) - mas está também a bela defesa de uma atitude libertária, de uma vida epicurista, no melhor estilo beber, comer e amar.

É uma pena que Dassin tenha interrompido a sua atividade como diretor em 1980, com o obscuro Circle of two. Desde então ele passou a se dedicar ao teatro em Atenas. Hoje, mora na rua que leva o nome da falecida esposa e administra a Fundação Melina Mercouri - uma homenagem devida à mulher que, intensa ativista, foi exilada entre 1967 e 1974, voltou ao país para ser eleita ao parlamento em 1977 e escolhida para o Ministério da Cultura em 1981. Vale conhecer um pouco do legado desses dois gigantes.

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