Novos Mutantes | Visitamos o set do filme teen de horror dos X-Men

Créditos da imagem: Disney/Divulgação

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Novos Mutantes | Visitamos o set do filme teen de horror dos X-Men

Antes do coronavírus e da venda da Fox, produção almejava misturar 13 Reasons Why e O Iluminado

Marcelo Hessel
28.08.2020
11h42

No seu período de maior movimento, o Medfield State Hospital, o primeiro hospital psiquiátrico do Estado de Massachusetts, nos EUA, abrigou cerca de 2 mil pacientes. Fica a 45 minutos do Centro de Boston, região que abriga algumas das mais famosas faculdades americanas, e talvez por isso o projeto do hospital, aberto em 1892, remeta a um campus de universidade, com seus prédios de dois andares separados por alamedas. O Medfield State foi fechado em 2003 e é lá que Martin Scorsese rodou parte de Ilha do Medo em 2008.

O hospital, com a maioria dos seus 50 edifícios ainda em condições de visitação, mas com o gramado das alamedas já um pouco negligenciado, é também o cenário de Novos Mutantes, cuja produção ocupou o espaço entre julho e setembro de 2017 - mais especificamente cinco edifícios do complexo, que no filme são um só. Na trama, Sam Guthrie, Illyana Rasputin, Roberto da Costa, Rahne Sinclair e a recém-chegada Dani Moonstar são pacientes de um hospital para mutantes que não conseguem controlar seus poderes, e o filme só sai desse cenários nos flashbacks delirantes que mostram de onde vieram os personagens.

Não se especifica, no filme, onde fica localizado o hospital, nem quando. "O filme é contemporâneo e tem seu próprio presente. Ele nasce dos outros X-filmes mas é único, assim como Deadpool é único e os filmes dos X-Men são únicos", diz a produtora Karen Rosenfelt durante a visita que o Omelete fez ao set. Em 2017, Novos Mutantes ainda estava a meses de passar por sua jornada de adiamentos, marcada pela compra da Fox pela Disney, mas naquela época já se sabia que seria uma história isolada da mitologia pré-estabelecida na franquia. "No futuro podemos até integrar [os Novos Mutantes à franquia], mas fazer isso aqui seria bizarro  como tentar encaixar os X-Men em Deadpool", diz o diretor Josh Boone.

O que diferencia Novos Mutantes de Deadpool, Logan e outros X-filmes é a pegada de horror, inspirada na saga do Urso Místico publicada na HQ New Mutants em 1984, escrita por Chris Claremont e desenhada por Bill Sienkiewicz. "Josh descreveu para mim como um filme de horror dos X-Men, com um pé no real", diz o diretor de fotografia Peter Deming, que havia acabado de trabalhar na terceira temporada de Twin Peaks. "É um alívio saber para onde tudo está indo", brinca Deming, na comparação com a brisada série de TV. "E eu cheguei a trabalhar por uma semana em um filme da Marvel, lá é tudo controlado rigidamente. Na Fox eles deixaram a gente seguir a estética que escolhemos."

Deming se refere aos tons do filme, cuja paleta de cores puxa para o amarelo e o verde desbotados, e para o azul, para criar uma sensação de desconforto dentro do hospital. "De dia, quando você entra num ambiente, ele é amarelo-mórbido, e de noite se torna mais branco. O verde misturado com o azul gera um desconforto. 'Banhar' todo o elenco de verde não passa necessariamente um senso de perigo mas de deslocamento. Teve uma cena em que usamos isso bem, e é um jeito de fazer o filme no mundo real mas parecer irreal. O horror vem dos personagens e da história, então não buscamos uma 'luz do horror'. No começo inclusive é bem naturalista e aos poucos vai mudando", explica.

Alguns exteriores do complexo foram remodelados e aproveitados, como a torre do relógio e o antigo cemitério, hoje desativado, cujas lápides numeradas do filme lembram as reais. Durante a visita ao set, entramos em dois ambientes do hospital repaginados para o filme: o refeitório e a sala onde fica a lavanderia. O teto foi repintado, e os azulejos, recolocados. Na estrutura do hospital há ambientes que se prestam facilmente ao horror, como os túneis subterrâneos que serviam de transporte de pacientes e objetos. Esses túneis, porém, não foram aproveitados no filme. Como Deming sugere, a ideia é que o horror venha dos personagens e da história, e o hospital em si parece mais desagradável do que especialmente assustador.

"O lugar todo aqui parece saído de O Iluminado, aquela estranheza de virada de século para os 1900", diz a desenhista de produção Molly Hughes. "No filme inclusive se menciona que o lugar é um ex-hospital psiquiátrico. Parece mesmo um lugar abandonado. É um mundo mais orgânico e sombrio do que nos outros X-filmes. Josh é obcecado por Bill Sienkiewicz e quis ser fiel aos personagens, mas tomamos algumas liberdades com o passado de alguns deles. O filme lida com a resposta dos personagens ao hospital, eles tentam descobrir o que é isso aqui."

Disney/Divulgação

Segundo Hughes, a cena do refeitório, quando alguns dos protagonistas interagem pela primeira vez, é um momento do filme em que tudo se abre, porque o cenário em si é mais amplo. "Você tem uma ideia do tamanho do lugar. De resto são corredores apertados e salas pequenas. Como é um filme de horror, investimos mais nos pontos de vista de personagens, então, sim, é menor que os outros X-filmes, é mais subjetivo."

E quem são esses personagens? Coincidentemente, na visita ao set, um brasileiro se destacou. Na cena do refeitório, Roberto da Costa, o Mancha Solar, ou “Bobby” para os americanos, interpretado pelo brasiliense Henry Zaga, tenta contar vantagem para a recém-chegada Dani. Diz que ela pode ficar com ele, e escuta como resposta que não faz o tipo de Dani - a primeira sugestão da orientação sexual da personagem, que será explorada mais tarde no filme. "Eu sou o tipo de todo mundo. Somos em cinco aqui, não dá pra ficar escolhendo muito", xaveca o brasileiro. Quando ele pergunta se pode se sentar ao lado dela no café, Dani diz que o lugar está ocupado por seu amigo imaginário. "Não se pode brincar com isso aqui, alguns têm mesmo", emenda Bobby.

Pela primeira vez, Mancha Solar é vivido no cinema por um ator brasileiro, embora a pele clara de Zaga tenha gerado controvérsia nos EUA pelo fato de Bobby ser de cor mulata nos quadrinhos. O diálogo encenado no refeitório dá um pouco mais do seu passado; ele diz que chegou há cinco meses no hospital, foi parar lá porque "os mais ricos do Brasil não conseguiram lidar com o fato de terem um mutante como filho deles", mas também por causa "de umas brigas, coisa de playboy", diz o mutante milionário.

De camisa pólo preta e gola levantada, o próprio Mancha Solar dá para Dani o perfil dos demais: "Nós somos os únicos sãos aqui. Rahne é uma freak religiosa, Sam parece que vai se matar a qualquer momento". Como é o momento da refeição, todos se alinham diante do bandejão, onde a comida parece tão verde-piscina quanto a tinta na parede. Magia, interpretada por Anya Taylor-Joy, faz o perfil blasé misteriosa, com seu All-Star e seu colete jeans preto. "Lembre-se do que eu te falei sobre privacidade", alerta para Dani a personagem de Alice Braga, a doutora Cecilia Reyes, ao ouvir a conversa com Bobby. Nas cenas vistas no set, Reyes parece verdadeiramente preocupada com a saúde mental de seus jovens pacientes.

Para a produtora Karen Rosenfelt, o filme não é sobre o tratamento mutante, mas sobre os personagens. "Lidamos com o fim da infância, o trauma de perder a família, a pegada é mais censura 13 anos mas não deixa de ser um horror psicológico", diz. Na ausência de Simon Kinberg, produtor principal da franquia, na época ocupado com a produção de Fênix Negra, é Rosenfelt quem supervisiona tudo em Boston. "A base é quadrinhos de super-herói, mas Josh cria camadas em cima disso. Ele é estudioso de HQs, de Stephen King, consegue dar um chão para os personagens."

Antes de assumir Novos Mutantes, Rosenfelt era conhecida por produzir os filmes da série Crepúsculo, e o nicho pré-adolescente e adolescente não escapa à sua atenção. Ela cita como exemplo o seriado 13 Reasons Why, de onde inclusive vem o próprio Henry Zaga. "Você assiste a 13 Reasons e sabe que essas obras atingem o núcleo psicológico do que é ser jovem, com as redes sociais de hoje. E os personagens têm que soar reais, falar como jovens de verdade, porque esse público consegue sentir o cheiro de algo falso."

A visita do Omelete ao set continua semana que vem com mais entrevistas! Novos Mutantes está estreando hoje em alguns países da Europa e da Ásia, além de Estados Unidos e Canadá. No Brasil, o lançamento é estimado para 17 de setembro.