Noite dos Mortos Vivos, de George Romero

Créditos da imagem: Noite dos Mortos-Vivos (1968)

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Noite dos Mortos-Vivos | Como um erro burocrático popularizou os filmes de zumbi

Clássico de George Romero foi acidentalmente lançado em domínio público

Arthur Eloi
13.09.2019
19h47
Atualizada em
16.09.2019
18h37
Atualizada em 16.09.2019 às 18h37

É praticamente impossível imaginar um mundo sem filmes de zumbi. O subgênero já foi tão explorado - até fora do terror - que muita gente vê saturação em histórias do tipo. Há mais de 50 anos, em 1968, não era bem assim, e se não fosse por um erro burocrático envolvendo A Noite dos Mortos-Vivos, é bem possível que toda essa popularidade atual nunca existisse.

Por si só a obra de George Romero merece todo o crédito: o filme é um marco do cinema de baixo orçamento, que não só estabelece a ameaça da horda de mortos-vivos como também entrega tensão e ação combinados com uma boa camada de comentário social, colocando um herói negro que desafia estereótipos da época - e uma traiçoeira conclusão com impacto atemporal. O longa também não economiza na violência, algo que pegou de surpresa o público dos anos 60, especialmente considerando que não havia um sistema de classificação etária para garantir quem assistiria nos cinemas: “O filme deixa de ser deliciosamente assustador na metade e se torna inesperadamente aterrorizante”, descreve Roger Ebert, crítico do Chicago Sun-Times. “Havia uma garotinha na fileira ao lado, que talvez tinha uns nove anos de idade, que estava imobilizada em seu assento, chorando.

Mas o que alavancou Noite dos Mortos-Vivos de um ótimo filme para um verdadeiro fenômeno cultural não tem só a ver com o conteúdo, mas também com a distribuição. Acontece que o filme originalmente era chamado de Night of the Flesh Eaters (ou A Noite dos Devoradores de Carne em tradução livre) mas, como o nome era muito parecido com o da produção de The Flesh Eaters (1964), a distribuidora Walter Reade Organization pediu que o título fosse alterado para Night of the Living Dead. A mudança repentina veio com um deslize: para garantir os direitos autorais de uma obra audiovisual na época, era preciso sinalizar o símbolo de copyright (©) junto com a abertura do filme. Quando o título foi alterado, a produção esqueceu de sinalizar a propriedade intelectual. Um pequeno errinho, certo?

Na verdade, a ausência do símbolo garantiu que Noite dos Mortos-Vivos fosse lançado diretamente como domínio público, ou seja, qualquer um poderia simplesmente obter uma cópia e exibi-lá em público quantas vezes quiser, até mesmo cobrando ingressos. Enquanto isso pode ter pesado no bolso da distribuidora original, que não estava embolsando o valor das bilheterias, o acidente permitiu que o longa fosse amplamente exibido em eventos menores, cinemas de pequeno porte, drive-ins e todo tipo de estabelecimento que quisesse passar o tão-falado terror indie.

Além disso, domínio público também permite que diversos autores contribuam com os personagens e conceitos da obra em questão. Basicamente qualquer cineasta agora podia usar os zumbis de Romero em seus projetos - e foi exatamente isso o que aconteceu, com uma verdadeira infestação de filmes com os caminhantes. O melhor exemplo disso talvez venha da Itália, prolífera indústria cinematográfica de baixo orçamento, que lançou cineastas de peso a partir de imitações e reinterpretações do filme americano, como Zumbi 2 - A Volta dos Mortos-Vivos (1979), uma sequência não-oficial de Noite dos Mortos-Vivos pelo mestre do horror Lucio Fulci.

O filme permanece em domínio público até os dias de hoje, estando disponível no Internet Archive e até mesmo no Youtube, na íntegra. A obra também não foi tão afetada pelo ocorrido, tendo retorno de US$30 milhões em um orçamento minúsculo de US$110 mil. O filme também foi pontapé para a prolífera carreira de Romero, que comandou uma franquia de peso com O Despertar dos Mortos (1978), Creepshow (1982) e muitos outros. O cineasta infelizmente faleceu em 2017 e, ironicamente, a confusão que o consagrou como um mestre do horror teve conclusão logo em seguida: em 2018, a Criterion Collection anunciou uma versão 4K do clássico, a primeira remasterização licenciada do clássico. Essa, por sua vez, tem seus direitos autorais preenchidos.