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Não por acaso

Em sua estréia nos longas-metragens, o diretor Philippe Barcinski surpreende

Marcelo Hessel
06.06.2007
15h00
Atualizada em
21.09.2014
13h25
Atualizada em 21.09.2014 às 13h25

Vai muito além da metragem a diferença entre curtas e longas. É preciso, antes de mais nada, entender de ritmo para contar em uma hora e meia uma história que antes se limitava a 20 minutos. Se não fosse desafio suficiente, o diretor Philippe Barcinski arruma para si um enrosco na hora de trocar o sucesso no curta-metragismo (Palíndromo, Janela aberta) pela vidraça dos longas.

O enrosco, o cinema de simbolismo, é como uma viela - há pouco espaço para manobrar quando se atrelam imagens a significados. Em Não por acaso, Pedro (Rodrigo Santoro) fabrica mesas de sinuca; sua vida amorosa é levada como uma jogada estudada com antecedência. Já Ênio (Leonardo Medeiros, de Cabra-Cega), vigilante dos semáforos da companhia de engenharia de tráfego paulistana, opera sob disciplina semelhante - qualquer evento estranho na sua vida pessoal, como uma filha que ele não conhecia, é tratado como um engavetamento. Pedro e Ênio são, em suma, e em sintonia com o lugar onde moram, dois metódicos.

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Cinema de simbolismo é isso: os dois mal se dão conta de que suas vidas são tão regidas pelo método quanto seus trabalhos, mas o filme deixa isso claro para o espectador desde o começo. E o simbolismo é uma encrenca, na maioria das vezes, porque não é fácil oxigenar um roteiro que embica para esse lado; o esquematismo é quase inevitável. Uma hora o acaso pegará os dois personagens e a eles será exigido que executem um movimento fora das suas rotinas. O desfecho fica evidente com pouco mais de meia hora transcorrida de filme.

O caso é que Não por acaso surpreende.

O diretor não só contorna o desgaste das simbologias com novas imagens impregnadas de significado, como também guarda para o fim surpresas no comportamento dos personagens. Quando você acha que a premissa não rende mais, como uma comédia de uma piada só, o diretor saca um signo novo.

Como todo bom cineasta, Barcinski resolve sua obra na imagem, então é preciso atentar não apenas para o texto se o espectador quiser capturar tudo o que o filme tem a oferecer. São pequenas sacadas poéticas que burlam a cronometragem do dia-a-dia, como a inundação em um apartamento que encobre a geometria dos tacos no chão, como a paisagem arborizada vista de uma quadrada sala fria, como o caos sadio das bicicletas no fim de semana fechado para carros do Minhocão.

O carioca Barcinski vive há dez anos em São Paulo, e mantém, no cinema, o olhar não-contaminado das pessoas que ainda reparam na cidade sem indiferença. A maravilha de um lugar previsível como a capital paulista é conseguir enxergar essa beleza que há nos acasos. Ênio e Pedro são uma síntese de São Paulo, e o que o filme reserva para sacudir as suas vidas são aquelas coisas que, por imprevistas, mantêm a cidade viva.