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Nação Fast Food

Richard Linklater e a indústria da comida processada

Érico Borgo
27.09.2007
16h00
Atualizada em
21.09.2014
13h29
Atualizada em 21.09.2014 às 13h29

Toda hora chegam às telonas os chamados "feel-good movies", aqueles filmes que fazem com que você se sinta bem, feliz da vida, na saída. Bem mais raros são os longas que ocupam do outro lado do espectro, os "feel-bad movies", que fazem o público olhar seu umbigo e pensar a respeito. Nação Fast Food (Fast Food Nation, 2006) é definitivamente um exemplo do segundo tipo.

O drama do sempre competente e versátil Richard Linklater - de filmes tão bons quanto díspares como Antes do pôr-do-sol, O Homem Duplo e Escola de Rock - se baseia no best-seller de não-ficção de Eric Schlosser, publicado em 2001, sobre a indústria da comida industrializada. O tema é basicamente o mesmo de Super size me - A dieta do palhaço, mas, diferente do documentário de Morgan Spurlock, mira mais alto que o mero valor nutricional dos alimentos servidos nas redes de restaurantes.

Fast Food Nation

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Através de várias histórias paralelas, Linklater tenta abraçar toda a, com o perdão do trocadilho, "cadeia alimentar" de uma corporação desse mercado. Mostra o desenvolvimento de um produto, o hamburguer "Grandão", desde o processamento da carne até o marketing para comercializá-lo. Nesse meio conhecemos imigrantes ilegais, empresários, supervisores, balconistas, chapeiros... pequenas engrenagens de uma máquina cujo único objetivo é o maior lucro possível.

O foco é, obviamente, o popularíssimo McDonald´s, com um nome alterado para Mickey´s (nos EUA o apelido da rede é "Mickey D") e a trama começa quando o presidente da companhia destaca Don Anderson (Greg Kinnear), um diretor de marketing de sucesso, para investigar um achado em um dos hamburgueres congelados da empresa... estrume. Ele parte então para Cody, no Colorado, onde toda a carne do "Grandão" é processada.

Linklater critica muito além da indústria alimentícia. Para ele, "fast food" é toda sorte de atendimento/processo que emprega pessoas como robôs. É o balconista de hotel incapaz de ouvir, repetindo exaustivamente as mesmas frases prontas; é a caixa da lanchonete que oferece sempre as mesmas ofertas; mas poderiam ser também as operadoras de telemarketing incapazes de resolver um problema que não esteja listado em sua frente; ou o suporte técnico que te olha como louco quando seu problema real inexiste nas FAQs... mas todas essas pessoas, fora do expediente, são... enfim... pessoas. E Linklater também faz questão de mostrar isso, como um brilhante contraponto às suas identidades corporativas. O diretor preocupa-se em desenvolver cada um de seus protagonistas, dando a eles uma alma, que é devorada dia-a-dia no cotidiano mecânico desses processos, sem recorrer jamais ao melodrama ou buscando polêmicas forçadas.

E o cineasta sequer está preocupado em apontar dedos. Não busca culpados dentro de sua estrutura. Todos são culpados e vítimas, mesmo os que estão no mais alto escalão. Afinal, não foi o presidente da empresa que pediu a investigação? O imigrante ilegal não cruzou a fronteira por livre e espontânea vontade? Não somos nós que consumimos os produtos dessas empresas?

"Feel bad", "feel very bad"...