Tributo a Milton Gonçalves: "Você não pode ser aquilo o que não pode ver"

Créditos da imagem: Canal Viva/Reprodução

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Tributo a Milton Gonçalves: "Você não pode ser aquilo o que não pode ver"

Um artista negro que não aceitou o lugar que a sociedade tentou lhe impor

Omelete
5 min de leitura
Alê Garcia
31.05.2022, às 09H14

O ano é 1992. Imagine que você é um menino negro de 13 anos de idade. E imagine que todas as pessoas mais parecidas com você na televisão interpretam os seguintes personagens: ladrão, assassino, faxineiro, lixeiro, desempregado e alcóolatra. 

Imagine que você é este menino negro, vendo TV no domingo, e os atores e humoristas negros mais conhecidos naquele momento interpretam vadios e beberrões. Estes são Mussum e Tião Macalé e, sob risadas condizentes com o pensamento predominante naquele momento, eram os comediantes responsáveis pela perpetuação dos estereótipos negros na emissora de maior audiência nacional, e os responsáveis por fazerem com que toda criança negra, naquele momento, fosse chamada por outras crianças exatamente por estes apelidos: Mussum e Tião Macalé.

A ativista norte-americana pelos direitos civis e da infância, Marian Wright Edelman, é autora da frase que dá título a este texto. E esta frase é resumo  — até para mau entendedores — da necessidade fundamental que qualquer pessoa tem de se sentir representada. Esta frase é o argumento definitivo de por que era importante que aquele menino negro de 13 anos pudesse ver uma pessoa negra na maior máquina de representação existente então, a televisão, em uma posição que não fosse servil ou desonrosa.

Aquele menino de treze anos era eu. E foi este menino que um dia viu, boquiaberto, um homem negro de toga na TV decidindo o destino de um criminoso no tribunal. Quando a minissérie As noivas de Copacabana foi ao ar, não era somente o desempenho sensacional de Miguel Falabella que me colava em frente à tela de 14 polegadas da nossa TV Sanyo. Era a perspectiva de ver aquele homem gigante, dono de argumentos inquestionáveis, bradando pela lei e pela correção aos autos, instigando o juri a se atentar aos crimes de Donato, aquele psicopata assassino de diversas mulheres ao longo da trama. Este homem de toga, Doutor Fernando, era interpretado por Milton Gonçalves. E foi a primeira vez que vi uma pessoa negra em papel a que aos negros não eram destinados. E, sim, aquilo fez toda a diferença para mim.

No livro A Cultura da Mídia, de Douglas Kellner, há uma passagem do autor que diz: “a cultura veiculada pela mídia, cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais, e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade”Ou seja, a identidade de uma nação também é forjada pelas mídias, plataformas de conteúdo e representações imagéticas capazes de fornecer os modelos daquilo o que significa ser uma pessoa negra. É através desta cultura de mídia que também é construído nosso senso de classe, etnia, justiça e igualdade.

Não é preciso ser um gênio para entender como a TV, o cinema e o teatro, nos quais Milton Gonçalves foi mestre, são fundamentais para isso.

Nós vivemos em país tão errado que, apesar de constituído por mais de 56% de pessoas negras, temos que nos felicitar por cada bom conteúdo, cada peça de mídia, cada personagem que nos represente da maneira correta. Por que nossa presença e nossa normalização nestas peças representativas são fundamentais para desejarmos ser aquilo o que nem sabíamos que era possível.

Nesta segunda, 30 de maio de 2022, Milton Gonçalves nos deixou aos 88 anos. Ator, diretor, dublador, dramaturgo, foram mais de 60 anos de uma carreira na TV, teatro e no cinema. Parte do primeiro elenco de atores da TV Globo, Milton foi um artista que sempre lutou pelo reconhecimento do trabalho dos negros. Certamente, é uma das figuras mais importantes das artes brasileiras, sempre buscando personagens desafiadores. Em plena ditadura, interpretou Rainha Diaba,  fora da lei, negro e homossexual. Multipremiado, clamou e conseguiu personagens de terno e gravata: uma representação fundamental para aspirarmos ser mais. 

A história do Milton Gonçalves foi um grande discurso social. É a história de um artista negro que não aceitou o lugar que a sociedade tentou lhe impor, porque buscou ativamente pela mudança.  Nesta busca, continuou segurando bravamente o bastão entregue por outros mestres, como Ruth de Souza. E é importante demais entender porque não estou, neste texto, detalhando cada papel e cada fenomenal atuação que Milton Gonçalves exerceu. Porque sabemos o quão fenomenal ele foi. Ele foi o maior astro negro da história do cinema brasileiro. Só seu papel-título em A Rainha Diaba somou, num só ano, os quatro prêmios cinematográficos mais prestigidos do país: o Troféu Candango, do Festival de Brasília; o Air France, a Coruja de Ouro e o Governador do Estado. Isto em 1975. E se prêmios, além da aclamação popular, são os indicativos desta qualidade, ele tem indicativos de sobra. 

Neste texto, me interessa deixar claro a você a importância artística e social de Milton Gonçalves. Porque a arte precisa transcender, precisa transformar. Artistas são agentes de mudança. Mudam suas próprias vidas — como Milton, nascido em família pobre, na pequena cidade mineira de Monte Santo —, para mudarem as nossas. 

Eles mudam sendo questionadores, instigantes, contestadores, empoderadores, inspiradores. Mudam ao fazer com que, a cada geração, sonhos de meninos e meninas negras sejam acalentados. E que eles não precisem passar pela mesma pressuposição de lugar que quiseram impor à Ruth de Souza, a quem acabei de me referir. Porque um dia, ela disse:

“Eu descobri que criança e adolescente negro sofrem duas vezes mais, porque têm os mesmos sonhos, os mesmos desejos que os demais, mas não tem tudo o que querem. Quando eu dizia, por exemplo, que queria aprender a tocar piano, respondiam: ‘Que absurdo! Como a filha da lavadeira quer aprender piano?’. Eu gostava de música, também adorava cinema e queria ser artista. Então, diziam: ‘Imagine, querer ser artista. Não tem artista preto’.”

Nós sabemos que tem artista preto. Não há por que não haver. Mas para que houvesse, e nos papeis que merecem, foi preciso existir Ruth de Souza e Milton Gonçalves.  Milton, este grande artista, que ao fazer escolhas muito conscientes, escolhas que diziam respeito não apenas a si, mas a uma comunidade gigantesca, usou o seu poder para sanar uma dor e deixar um legado que ficará marcado para sempre nas pessoas negras do Brasil inteiro.

E esta frase sua talvez seja resumo de sua decisão de nunca baixar a cabeça e ser sempre agente ativo da ascensão artística negra. Ele dizia: não sou do movimento negro, eu sou um negro em movimento.

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