Novo filme do He-Man usa nostalgia para falar de aceitação do nerd
Adaptação de Travis Knight usa Adam e He-Man para discutir aceitação e pertencimento sem abandonar a fantasia que tornou o personagem um ícone
Existe uma armadilha muito óbvia esperando Mestres do Universo. Em 2026, um filme sobre He-Man poderia facilmente virar uma celebração vazia da nostalgia ou uma crítica batida aos adultos que continuam cercando suas vidas de quadrinhos, videogames, bonecos e fantasias escapistas. O curioso é que Travis Knight não cai em nenhuma das duas.
O diretor entende que existe algo mais interessante nesse universo do que simplesmente trazer um personagem dos anos 1980 de volta para as telas. Seu filme usa Adam para falar sobre pertencimento, aceitação e identidade, mas sem abandonar aquilo que fez He-Man existir em primeiro lugar: a fantasia. É justamente porque leva essa fantasia a sério, ao mesmo tempo em que ri dela constantemente, que Mestres do Universo encontra uma personalidade própria.
Desde os primeiros minutos, fica claro que a história não está interessada apenas no herói. Está interessada em quem ainda se vê nele. Adam surge como alguém preso entre duas versões de si mesmo: a imagem do campeão destinado à grandeza e a realidade de um sujeito comum tentando encontrar seu lugar no mundo. É uma leitura curiosa para um personagem criado para vender brinquedos, mas que acaba servindo como um retrato bastante preciso de uma geração que transformou a cultura pop em parte da própria identidade.
Knight reforça essa ideia ao colocar o próprio Adam conduzindo parte da narrativa e convidando o espectador para dentro da história. É um recurso simples, mas que deixa evidente que a jornada não será apenas sobre salvar Eternia ou derrotar o Esqueleto. Antes de tudo, trata-se de entender quem é esse personagem quando ele não está segurando a espada e ouvindo que é o homem mais poderoso do universo.
O Adam apresentado pelo filme é inteligente, empático, sonhador e completamente inadequado para aquilo que esperam dele. Trabalha com pessoas porque entende pessoas, tenta corresponder às expectativas dos outros o tempo todo e continua carregando uma visão idealizada de si mesmo construída durante a infância. Em outro filme, isso poderia virar apenas uma piada sobre o adulto infantilizado. Aqui, no entanto, o roteiro de Chris Butler é mais esperto. A questão nunca é se Adam precisa crescer, mas se existe espaço para ele ser aceito da forma que já é.
Essa diferença muda completamente a leitura do filme. Em vez de tratar a fantasia como um problema a ser superado, Mestres do Universo sugere que ela pode continuar existindo na vida adulta sem necessariamente impedir alguém de amadurecer. O conflito não nasce da fantasia em si, mas das expectativas que o mundo projeta sobre quem vive através dela.
É por isso que os personagens ao redor de Adam funcionam tão bem. Mentor, interpretado por Idris Elba, representa uma visão antiga de masculinidade e responsabilidade. Mesmo quando passa por seu inevitável arco de redenção, continua carregando comportamentos e opiniões claramente ultrapassados. Mas o filme nunca o transforma em um símbolo do mal ou em um obstáculo a ser derrotado. Ele é apenas alguém que pertence a outra época, um sujeito de bom coração que ainda insiste em enxergar o mundo através de regras que já não funcionam tão bem.
O mérito do roteiro está justamente em não transformar esse conflito em discurso. Quem questiona Mentor não é um grande monólogo nem uma cena construída para arrancar aplausos da plateia. São os olhares de Teela, os silêncios constrangidos de Adam e as pequenas reações dos personagens ao redor. A crítica está presente, mas sempre através da convivência e nunca da pregação.
Essa mesma inteligência aparece na forma como o filme lida com o próprio He-Man. Existe uma tentação enorme de transformar o personagem em uma figura mitológica, quase sagrada, especialmente em uma época em que tantas franquias tentam atribuir uma importância exagerada aos próprios ícones. Knight segue pelo caminho oposto. O filme ri da roupa, da transformação, dos músculos, dos poderes e não desperdiça uma oportunidade para fazer uma piada de duplo sentido. O mais interessante é que esse humor não enfraquece o personagem. Pelo contrário. Quanto mais a narrativa reconhece o absurdo de He-Man, mais ela consegue fazer o público acreditar nele. Existe uma honestidade muito grande na forma como Mestres do Universo encara seus próprios exageros. O filme nunca pede para ser levado a sério. Pede apenas que o espectador aceite entrar naquela brincadeira.
Nicholas Galitzine entende perfeitamente essa proposta. O ator funciona porque nunca tenta fugir do ridículo. Está confortável sendo engraçado, constrangedor, vulnerável e heroico ao mesmo tempo. Sua interpretação encontra um equilíbrio raro entre a sátira e a sinceridade, impedindo que Adam vire apenas uma caricatura ambulante. Adam pode ser atrapalhado, inseguro e até patético em alguns momentos, mas o filme nunca o trata como alguém menor por causa disso.
Mas ninguém entende melhor a proposta do filme do que Jared Leto. Seu Esqueleto funciona justamente porque não tenta ser mais do que precisa ser. Em um momento em que praticamente todo vilão precisa ter uma origem traumática, um discurso filosófico ou alguma justificativa moral para suas ações, ele é simplesmente mau. E se diverte sendo mau. Essa simplicidade acaba tornando todo o resto mais sofisticado. Como o filme não perde tempo tentando justificar o vilão, sobra espaço para explorar as contradições dos heróis. Enquanto Esqueleto é exatamente aquilo que aparenta ser, Adam, Teela e Mentor vivem tentando descobrir quem realmente são.
No fim das contas, o que mais chama atenção é perceber que o filme tem muito menos interesse em discutir destino do que pertencimento. Adam não quer apenas conquistar um reino ou provar que é digno da espada. O que ele procura é algo mais simples e, por isso mesmo, mais humano: um lugar onde possa existir sem precisar corresponder às expectativas construídas pelos pais, pelos amigos ou pela própria ideia do que um herói deveria ser.
É uma ideia surpreendentemente madura para uma franquia nascida de uma linha de brinquedos. Talvez seja justamente por isso que o filme funcione tão bem. Porque, no meio de monstros, espadas mágicas, músculos impossíveis e piadas bobas, Mestres do Universo encontra algo que muitas adaptações modernas perderam pelo caminho: a capacidade de olhar para a fantasia sem vergonha, mas também sem precisar justificá-la.
Mestres do Universo
Masters of the Universe
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários