Medida Provisória | Lázaro Ramos fala sobre dificuldades impostas pela Ancine

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Medida Provisória | Lázaro Ramos fala sobre dificuldades impostas pela Ancine

"É o Brasil de hoje, não há o que fazer”, disse ator; Omelete acompanhou pré-estreia do longa no Festival do Rio

Lucas Salgado
16.12.2021, às 18H04

Muita ansiedade estava envolvida na sessão de Medida Provisória no Festival do Rio 2021. Após colecionar prêmios em eventos internacionais e enfrentar uma luta burocrática (ainda em andamento) com a Ancine para conseguir definir uma data de estreia em cartaz nas salas de cinema, o filme teve na noite desta quarta-feira, 15 de dezembro, sua aguardada primeira exibição no Brasil. 

A sessão de gala da mostra competitiva da Première Brasil, contou com a presença de boa parte da equipe e do elenco da produção. Nomes como Lázaro Ramos, Taís Araujo, Renata Sorrah, Mariana Xavier, Flávio Bauraqui e Aldri Anunciação passaram pelo tapete vermelho do Cinépolis Lagoon, cinema localizado na zona sul do Rio de Janeiro e que abriga as principais sessões da competição. 

Fazendo sua estreia como diretor de cinema, após experiências nos palcos e na televisão, Lázaro Ramos era um dos mais animados com a oportunidade de apresentar o filme no Brasil, e especialmente no Festival do Rio, evento que foi fundamental em sua trajetória desde uma clássica exibição de Madame Satã na edição de 2002. “Estava com muita expectativa para este dia, o filme está pronto a tanto tempo, já foi pra tantos países. Ter a oportunidade de, pela primeira vez, ver como a plateia no Brasil... Poder exibir o primeiro filme que dirigi no Festival do Rio é um momento de coroar a minha vida na família do cinema. Eu estou feliz e ansioso”, disse o ator e agora diretor em conversa com o Omelete.

Além da empolgação natural de lançar seu primeiro filme, a ansiedade de Lázaro tem fonte num processo desgastante e burocrático que tem sido definir a data de estreia da obra em cartaz. Até o momento, Medida Provisória não possui data de lançamento no Brasil em função de um processo burocrático dentro da Ancine, que tem demorado muito nas respostas para as demandas dos realizadores. Após certa pressão nas redes sociais, a Agência Nacional do Cinema se manifestou também nesta quarta-feira para repelir qualquer irregularidade nos procedimentos e informar que a obra está “em fase de análise do pedido de investimento para a sua distribuição em salas de cinema”. Em comunicado à imprensa, a assessoria responsável pelo filme, a Triggo Press, ressaltou que não é este pedido que tem interferido na indefinição, mas sim uma outra solicitação de troca de distribuidores.

Lázaro Ramos e Taís Araújo no tapete vermelho do Festival do Rio

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É o Brasil de hoje, não há o que fazer”, afirmou Lázaro ao Omelete sobre a burocracia estatal. Apesar da pitada de resignação na frase, o sentimento não era esse no cinema. “Fazemos o nosso trabalho da melhor forma possível. Queremos entregar para a plateia brasileira. E acredito que vamos entregar, porque foi um movimento muito bonito que aconteceu nos últimos dias”, completou. Taís Araújo, uma das protagonistas do filme, lembrou ainda que a sessão do Festival do Rio foi uma das mais disputadas do evento. “Temos uma estreia hoje com gente voltando pra casa por não conseguir ingresso, então tem público para ver e precisamos abrir as salas de cinema para esse público”, apontou a atriz, também ao Omelete.

Qualquer pessoa presente no cinema podia facilmente constatar o tom político do evento, mas foi interessante perceber que a natureza política da arte e do filme falava mais alto do que um eventual discurso contra um opositor específico, o que não aconteceu. Membros do governo, como Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, defenderam publicamente o boicote a Medida Provisória, afirmando que o longa bancado com recursos públicos acusava o governo Bolsonaro de racismo. Do lado do filme, sem ataques diretos, apenas uma vontade de pensar o Brasil e lançar a obra.

Com momentos de drama, romance, humor e ficção, Medida Provisória traça um cenário distópico de um Brasil em que o governo decreta uma MP que obriga os cidadãos negros - aqui chamados de "cidadãos de melanina acentuada" - a voltarem à África, com a justificativa que isso seria uma forma de reparação pelos tempos de escravidão. Inspirado na peça Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, o roteiro de Lázaro Ramos e Lusa Silvestre imagina um futuro distante para discutir um Brasil de hoje. Em determinado momento do filme, o personagem vivido por Seu Jorge fala: “Como a gente deixou chegar a este ponto, como a gente riu disso?

Ramos, que dirigiu a peça e hoje comanda o longa, se surpreendeu com como um texto de 2011 ecoa de forma ainda mais significativa nos dias atuais. “Acho que é o faro da arte pensar em extremos que podemos chegar, mas que não queremos chegar. Essa obra, que começou lá no teatro, cada vez que aparece vai ganhando um novo sentido. Espero muito que o filme, quando chegar para as pessoas, traga reflexões. E acho que o que eu mais gostaria é que as pessoas se estimulassem a fazer o melhor pro mundo. É uma obra que fala de muitas dores, mas que no final das contas a escolha é que a gente acredite que o afeto é uma arma de transformação poderosa”, disse.

Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge em cena de Medida Provisória

Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge em cena de Medida Provisória

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Apesar do bom trabalho de Lázaro Ramos na direção, é bem claro que a grande força do longa está em seu elenco. Taís Araujo, Alfred Enoch e Seu Jorge formam uma boa trinca de protagonistas. Filho de mãe brasileira e conhecido pelos trabalhos em Harry Potter e How to Get Away With Murder, Enoch tem bons momentos em cena e fala bem o português, embora em alguns instantes seja sim possível sentir um sotaque ali presente. Muito contente com sua equipe, Ramos se orgulhou do fato de marcar a estreia de Emicida como ator, e ainda destacou a importante presença da companhia teatral Afro Bunker, elemento fundamental na concepção do projeto. Não por acaso, “afrobunker” virou o nome do lugar seguro para negros no filme, um espaço de resistência e acolhimento.

Durante a apresentação do filme, Ramos fez questão de ressaltar os 77 membros de seu elenco e os mais de 400 empregos diretos gerados pela produção. E reforçou: “Suspeito que esse seja o filme brasileiro com mais pretos e pretas à frente e atrás das câmeras.” Fechando o momento de apresentação, uma homenagem perfeitamente inserida no contexto da noite. Taís Araújo aproveitou o microfone para celebrar a escritora e ativista negra Bell Hooks, que faleceu aos 69 anos nesta quarta-feira.

Medida Provisória desponta como um dos favoritos da mostra competitiva do Festival do Rio. Além das sessões lotadas, o filme contou com uma ótima recepção por parte do público presente, que aplaudiu longamente após o término da obra, além de palmas eventuais em algumas cenas específicas ao longo da exibição.

Essencialmente engajada, a plateia protagonizou um momento pra lá de curioso no início da sessão, quando vaiou a vinheta da seguradora do cinema - a Prevent Senior, empresa envolvida em inúmeras polêmica ao longo da pandemia do COVID-19. Outro fato peculiar na pré-estreia foi a exigência de que todos os convidados lacrassem seus celulares antes do início da exibição, algo bem comum em sessões para a imprensa ou prés de grandes blockbusters, mas pouco usual no que diz respeito ao cinema nacional. Há de se imaginar que Lázaro, diante das ameaças e polêmicas envolvendo o governo, tente proteger seu filme de todas as formas, dificultando sua pirataria, algo que acabou prejudicando Marighella, obra de seu amigo Wagner Moura que teve caminhar semelhante nos corredores burocráticos da Ancine. 

Como destacado acima, Medida Provisória não possui data de estreia nos cinemas brasileiros. Mas que seja assim por pouco tempo.

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