Nachtergaele: “Hoje em dia, em muitos casos, animação é superior ao live-action”
Ator falou ao Omelete sobre seu trabalho em O Filho da Puta, nova animação de Otto Guerra
Créditos da imagem: Matheus Nachtergaele em evento de O FIlho da Puta, no Festival do Rio 2026 (Reprodução)
Matheus Nachtergaele se diz um “assistidor de animações de todos os tipos”. Ao Omelete, inclusive, o ator revelou qual é o filme animado de sua coleção que mais frequentemente vai parar na TV de casa: “Sou aquele tipo que ainda assiste a Bambi em DVD em casa, porque me faz chorar. O Bambi da Disney, imagina!”.
Nachtergaele prova esse amor pela animação mais uma vez com O Filho da Puta, sua terceira colaboração com o grande cineasta Otto Guerra, após Rocky & Hudson e A Cidade dos Piratas. Aqui, ele empresta sua voz a Bacalhau, um cachorro vira-lata de três pernas que vira o fiel companheiro de Ismael (Gabriel Martins) em uma viagem em busca de um pai que ele nunca conheceu.
A seguir, confira o papo completo entre o ator e o Omelete, conduzido durante o Festival do Rio 2026, onde ele reflete sobre sua ligação de infância com a arte animada, as delícias de interpretar um cachorro (“Não sei se imaginei, mas desejei!”) e mais.
OMELETE: Matheus, que bom falar com você depois de ter assistido a O Filho da Puta aqui no Festival do Rio! E queria começar falando de dublagem, de trabalhar com a voz das animações – qual é o encanto desse tipo de trabalho para você, e o que ele te possibilita como ator?
NACHTERGAELE: Eu adoro colocar minha voz em filmes de animação brasileiros, porque você fica sendo um cocriador do personagem, né? Em geral, a equipe te dá o roteiro, o diretor conceitua com você o filme e, a partir do esboço do personagem, ainda antes de ser animado, você inventa a voz. É no momento da gravação da tua voz que você finaliza as características que o esboço indicava, então você completa mesmo a criação. E eu adoro fazer isso. É como se o personagem fosse uma marionete, e você fosse a voz da marionete. A maneira também como você grava, as explosões, o ritmo, o timbre vão determinar a maneira como os animadores vão trabalhar. Com o Otto e a Érica Maradona [codiretora] é a terceira vez que eu colaboro: fizemos A Cidade dos Piratas, da Laerte, que é um filme lindo, e fizemos uma série para o Canal Brasil, Rocky & Hudson - Os Caubóis Gays; e agora esse O Filho da Puta, que eu adorei fazer.
OMELETE: E o Bacalhau, seu personagem nesse O Filho da Puta, é um personagem delicioso – é como se aquele cachorro que todo mundo teve na infância tivesse aprendido a falar. Quando você leu aquele roteiro, o que foi que mais te chamou a atenção no Bacalhau, que você ficou com vontade de fazer?
NACHTERGAELE: Eu adorei o roteiro, achei que era uma fábula sobre a busca do pai…mas afirmando a maternidade. E depois que você põe a voz, leva tempo até o filme de animação ficar pronto, então eu só fui ver agora no Festival – e eu achei uma obra de arte toda adaptada para o Brasil com "S". Achei o Bacalhau um personagem bem típico brasileiro, o cachorro de três pernas, vira-lata, que tem uma malandragem, mas também uma sabedoria. Uma espécie de grilo falante politicamente incorreto. [Risos] É isso, eu adorei fazer, me diverti fazendo, me diverti vendo, e achei o filme belo. Bonito de olhar, inteligente, adulto, gostoso. Eu ri muito alto, não só com o Bacalhau, mas com todos os personagens, principalmente as mulheres! A mãe, a prostituta, me fez rir demais. A beata que tem a voz Teuda Bara, me fez gargalhar. Uma grande atriz mineira, do Grupo Galpão, que a gente perdeu recentemente.
Não sei se já falei disso, mas quando eu era menino, desenhava muito bem. Não tinha nenhum ator ou pessoas ligadas às artes cênicas diretamente na minha família, mas meu pai tocava violão, foi fundador da Traditional Jazz Band – depois largou a banda assim que minha mãe se matou, em 1968, desanimou. E minha mãe era poetisa. Então eu nasci num berço artístico assim, mas sem atores, sem gente trabalhando com isso ao meu redor. Como eu desenhava bem, achei que ia para as artes plásticas. E quando eu tinha 15 anos de idade, meu pai me perguntou: "As meninas ganham presentes especiais quando têm 15 anos... E os meninos? O que você quer ganhar?" Eu disse: "Pai, eu quero um curso de animação que o Sérgio Tastaldi tá dando no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo." Aí ele pagou para mim o curso.
Naquela época, imagina, eu com 14 para 15 anos, meu pai me levava de carro para o MIS duas vezes por semana, e me buscava de noitão quando acabava. Lembro que eu chegava na escola todo pimpão mostrando o resultado dos trabalhos. Eu fiz com eles lá um curta-metragem em acetato. Estou te falando isso para contar um pouquinho da minha paixão por animação, para dizer que com 15 anos eu já estava envolvido em cinema sem saber que ia ser ator, fazendo um filmete quadro a quadro. Pode parecer estranho, mas isso influenciou a maneira como eu trabalho, o amor pela caricatura e essa sensação do quadro a quadro. Quando comecei a fazer cinema — meu primeiro filme foi O Que É Isso, Companheiro?, antes até da Retomada —, eu tinha essa sensação, ao ouvir a câmera rodando, de que a coisa também era quadro a quadro, de que eram fotogramas. Mesmo na era digital, ainda é quadro a quadro. Isso me ajuda a manter um certo sagrado na hora de gravar, que existia na época da película.
E isso também me faz sempre testar essa pequena teoria que eu tenho: todo filme bom de verdade deveria poder ser paralisado aleatoriamente em qualquer frame, e esse frame deveria ser significativo o suficiente para contar sobre o filme. Não vou dizer bonito o suficiente, porque a beleza é relativa, e às vezes é a feiura que se procura. Mas tenho essa coisa quadro a quadro que acho que vem dessa minha experiência com a animação antes de tudo. Hoje em dia, já quase velho — estou com 58 anos —, quando eu faço voz para desenhos animados brasileiros, acho que me sinto conectado ao menino que eu fui pelo gosto pela animação.
Agora acabei de botar a voz num filme chamado O Pinguim Tupiniquim, da Coala Filmes — eles são uns gênios, é aquela galera que faz as animações do Angeli em stop-motion. Ali não é desenho não, é stop-motion, quadro a quadro, fotografia. Eu faço o Pinguim Tupiniquim, isso aí vai levar uns dois anos sendo feito, mas gravei minha parte este ano. E confesso a você: eu sou um assistidor de animação de todo tipo, sou aquele tipo que vai em festivais de animação, sou aquele tipo que ainda assiste a Bambi em DVD em casa porque me faz chorar. O Bambi da Disney, imagina! Tenho uma ligação afetiva mesmo.
OMELETE: Os diretores do filme me contaram que uma das coisas mais legais e difíceis de fazer durante o processo de dublagem foi quando você tinha que latir, rosnar, esse tipo de coisa. Queria que você contasse um pouco dessas interjeições particulares de interpretar um cachorro, e se você já imaginou que teria que fazer isso como ator?
NACHTERGAELE: Eu não sei se imaginei, mas desejei. [Risos] Você sabe que, no começo da minha carreira no Teatro da Vertigem, fazendo O Livro de Jó, a gente se encontrava muito em festivais pelo Brasil com o pessoal do Vau da Sarapalha, que era uma peça antológica do grupo Piollin, da Paraíba, dirigida pelo Luiz Carlos Vasconcelos. E o personagem mais encantador deles era um cachorro, que era o Servílio de Holanda que fazia. Eu lembro de, naquela época, achar um trabalho incrível, ter que se expressar só por grunhidos, latidos, uivos, ganidos... Então eu não esperava, mas me diverti muito fazendo.
Eu tenho seis cachorros hoje em dia, já cheguei a ter 28 juntos num certo momento da minha vida. Então a linguagem dos cachorros me é algo familiar. Por exemplo: se alguém late na minha casa, eu sei quem foi. E, dependendo do tom do latido dos seis, eu sei se é um aviso de cuidado, de perigo, se é uma coisa de "vem falar com a gente que a gente está com saudade". Eu sei o tom. Então deu para brincar com isso na hora [de fazer o Bacalhau].
Mas sim, algumas coisas mais guturais podem machucar a voz. Então era importante deixar para o final do dia, para você não ficar fazendo os gritos, os latidos no começo e machucar demais a sua voz. Embora nesse caso, não sei se você notou, a voz do Bacalhau é um pouco arranhada – propositalmente! Eu evitava ficar limpando a garganta durante a gravação, achava que o Bacalhau era um cachorro velho de guerra, meio como eu de uma certa forma. Deixava o arranhado participar da brincadeira. Foi um trabalho divertido, simples, relativamente rápido no estúdio, e que resultou num filme que eu considero uma pequena obra de arte, como te falei. Estou bem orgulhoso de O Filho da Puta.
E eu considero a animação uma arte de cinema tão grande quanto qualquer outro tipo de filme. Talvez até, hoje em dia, em muitos casos superior. Porque na animação, mesmo com o mundo tecnológico avançado, trabalha-se quadro a quadro na escolha decisiva e artística de cada frame. Mesmo com a tecnologia avançada, continua sendo assim para a animação. São meses para se fazer uma animação bonita.
OMELETE: Obrigado, viu, Matheus. Muito obrigado pelo seu tempo, e parabéns pelo filme!
NACHTERGAELE: Obrigado! Beijo, querido, tchau tchau.
*O Filho da Puta foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão de estreia para o circuito comercial brasileiro.
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