Marock
Casablanca volta a ser cenário de um amor impossível
Rita (Morjana Alaoui), a protagonista de Marock (2005), sofre dos mesmos anseios da maioria dos jovens da sua idade - luta para completar o colegial e já começa a pensar se fará faculdade, se viajará, como ficarão suas amigas e as suas baladas. A diferença é que Rita é marroquina, e às suas transformações de adolescente somam-se as transformação de todo o país, que vive no dilema entre a milenar influência muçulmana, a colonização francesa e a evidente abertura aos valores da sociedade de consumo ocidental.
O filme da diretora Laïla Marrakchi já apresenta o conflito logo na primeira cena. Em um estacionamento de uma boate, no meio de BMWs, Mercedes e outros carrões europeus, um senhor islamita estende o seu tapete para rezer virado para Meca. Naquela mesma noite, na boate, chama a atenção de Rita um belo e jovem judeu, Youri (Matthieu Boujenah). Credos convivem pacificamente em Casablanca - tanto judeus quanto muçulmanos falam francês - mas uma garota de família muçulmana se interessar por um judeu é problema na certa.
Casablanca já se imortalizou no cinema como a cidade de um amor impossível, o de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, e pelo comportamento Rita já dá pra sentir que será cenário de outro romance condenado.
Enquanto aproxima a relação de Youri e Rita ao drama de um Romeu e Julieta, Marock faz atento retrato de uma sociedade em mudança. Transcorre o Ramadã, o nono mês do calendário islâmico, mas o jejum não é um ritual seguido por todos - os pais de Rita, por exemplo, vivem dizendo que "no ano que vem vão jejuar", como uma promessa vazia de Ano-Novo. É só a cozinheira bonachona, que não pára de cozinhar para os chefes, quem jejua - a diretora Marrakchi insinua que o respeito à tradição é inversamente proporcional ao status social.
Marock se desdobra para o espectador na forma de um filme político. Um filme de juventude, que fala como os jovens e para os jovens, mas ainda assim um filme que se esforça o tempo inteiro em nos dizer que não é alienado. Talvez por isso o desfecho da história nos pareça tão covarde. Sem entregar demais, é um final típico de filme de verão, quando a heroína embala as suas malas depois de tomar muito sol e volta para a realidade - foi mesmo tudo apenas um bom verão, que virará lembrança.
Nesse sentido, a Casablanca de Marock ainda é a mesma da Casablanca do clássico de 1942 - uma escala, um não-lugar. Por que diabos então Laïla Marrakchi nos faz crer que é um filme sobre o Marrocos palpável, um país com passado e futuro, se o seu Marrocos é apenas um rito de passagem?
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