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Maratona Star Wars: Guerra nas Estrelas de Costa a Costa

Considerações sobre a saga depois de 13 horas de filme

André Conti
25.05.2007
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h25
Atualizada em 21.09.2014 às 13h25

Não faço idéia de quando vi Star Wars pela primeira vez, e nem se foi na fita gravada da Globo (porque eu lembro dos robôs serem chamados de Artudito e Cetripiô, ou algo assim), ou naquela fita com a caixa azul que vinha com um Darth Vader em miniatura. Na época, eu não sabia de algumas verdades: que o R2-D2 era o verdadeiro protagonista da rebelião, que o Chewbacca devia ter levado o Oscar e que por baixo da máscara de Darth Vader estava o George Lucas, com aquela eterna cara de triste. Isso porque até o ano passado não era possível assistir aos filmes na ordem, do primeiro (que é o quarto) até o sexto (e terceiro). Achei que seria um bom jeito de reavaliar os novos, encarando uma maratona de seis longas num fim de semana, e ao mesmo tempo ver como os antigos iam se agüentando.

O problema é que até meses atrás, os filmes originais não estavam disponíveis em DVD e poucas locadoras ainda tinham o VHS sem os efeitos especiais atrozes que George Lucas resolveu que o filme precisava em 1997. E a graça de assistir a eles todos de uma vez é justo comparar as expectativas que os filmes originais causavam em relação à história anterior e como a trilogia nova resolveu as coisas. Nos DVDs da trilogia original que saíram ano passado, ele chegou a ponto de inserir uma cena rápida em Naboo, totalmente gratuita e obtusa. Mas até aí tudo bem, os filmes são dele e ele faz o que bem entende. Contanto que os disponibilize também sem essas bobagens todas, porque é natural que muita gente prefira eles assim. Foi só há pouco tempo, como disco bônus de uma edição "limitada" dessa trilogia revisionista, que eles saíram em DVD. Feito a partir de uma cópia não restaurada, o disco bônus tem a imagem bastante ruim, mas já é alguma coisa. Só que faltava assistir aos episódios novos antes, a partir de A ameaça fantasma.

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Para um filme que abre com um texto confuso sobre rotas de comércio e taxas alfandegárias, A ameaça fantasma até que vai bem no começo, ou pelo menos parece. Logo, você nota que é sábado à tarde, faltam cinco filmes, e aquele garotinho de cabeça grande está lendo de uma cartolina e falando mecanicamente sobre anjos e justiça no universo. Até o fato de ser uma criança é esquisito, afinal, o outro filme não começa com o Luke perto dos vinte anos? Não seria mais lógico se as trilogias fossem paralelas, pois além de tudo ele evitaria ter de recorrer a atores infantis, que em geral — e nesse caso — são notórios destruidores de filmes?

E tudo bem que os efeitos especiais são bons, e que a tecnologia finalmente alcançou a imaginação sem fim do sr. Lucas. Mas num dos extras do DVD, Peter Jackson, diretor de Náusea total, faz um comentário curioso sobre a trilogia clássica: ninguém fica lembrando dos efeitos, ou pelo menos não tanto quanto dos personagens. E, no fim, o grande problema é que não basta encaixar um vilão novo, um mestre sábio mais alto e mesmo o Obi-wan e outros conhecidos ali no meio se não preencher as carcaças deles com alguma coisa interessante. Quer dizer, enquanto a energia cinética dos originais só se intensificou — lutas mais velozes, naves e penteados mais possantes —, o maior trunfo, que eram os personagens bacanas, e a maneira como as relações entre eles tornavam-se mais complexas de um episódio para outro, ficou de lado.

Com o moral abalado, foi preciso muita coragem para prosseguir, e só a lembrança clara de que o próximo episódio era melhor impediu que a empreitada terminasse prematuramente. E de fato, já no letreiro, um alento: separatistas, a República em crise, gente pérfida pra burro tentando tomar o poder na galáxia. De saída um atentado político, e então outro, e enquanto isso uma intriga palaciana começa a tomar forma. Menos mal, embora ele pudesse ter começado a trilogia nova direto nesse episódio, e com outro ator. Porque a certa altura o Hayden Christensen, que faz o Anakin Skywalker, começa a falar, e eu não sei exatamente como eles testam o elenco, quer dizer, o quanto do que é feito naqueles testes pode ser projetado para a tela de antemão pelo diretor, mas alguma coisa deu errado. É difícil que das dezenas de pessoas que devem ter se apresentado para o papel, nenhuma fosse capaz de ao menos articular palavras numa cadência que pareça terrestre. Já há cerca de três horas e meia assistindo aos filmes novos, e mesmo descontando essa presença em peso do reino mineral no elenco, tive a impressão de que o máximo que o diretor iria fazer para insuflar algum tipo de vida interior nos personagens era mostrá-los rolando na pradaria. E a essa imagem de Mediterrâneo intergaláctico dos sonhos é que ele iria contrapor ao lado mais sombrio do personagem, que dá as caras pela primeira vez nesse episódio. No fim, Ataque dos clones é melhor que Ameaça fantasma, mas — pelo menos assim, visto logo na seqüência—, muito pior do que eu lembrava. Estamos nos aproximando de cinco horas de Guerras nas estrelas, e até agora o cabisbaixo Lucas deixou a desejar.

Mas gostei de rever A vingança do Sith, principalmente depois do massacre dos anteriores. Entre os três, achei o único verdadeiramente divertido, com algum ânimo menos robótico, embora carregue muitas das falhas dos irmãos abjetos. A vantagem aqui é que os personagens crescem, saem do lugar, e enfim Darth Vader bota o capacete — nos livrando da atuação de Christensen nos minutos finais. O chanceler Palpatine, que já fora vivido por Ian McDiarmid em O retorno do Jedi, rouba a cena, e até o Obi-wan tem algo a dizer além de resmungar de lá pra cá sem função narrativa definida. Mas o conjunto dessa nova trilogia é irregular. Se ele teve tanto tempo para bolar as tramas, por que os roteiros são cheios de buracos, e se conectam tão mal com os filmes originais? Enfim, pode-se afirmar que a expectativa com os novos episódios era insuperável, tendo em vista que o original era um filme inovador e que esses estavam atrás de seu tempo, não importa o quão tecnologicamente avançados.

Como não há nada que uma boa noite de sono não cure, no dia seguinte a maratona prosseguiu depois do café da manhã, com o Episódio IV original, Uma Nova Esperança, pela primeira vez nesta década sem as adições vis do relançamento. Fica parecendo que sou um velho que quer a volta do cinema mudo, mas não é isso: acho que diminuir o peso dos efeitos especiais — que já eram incríveis, basta lembrar da trincheira da Estrela da Morte — chama a atenção para as outras qualidades do filme, que se mantiveram firmes com o tempo. Diz-se muito que o apelo universal de Guerra nas Estrelas vem da influência do escritor Joseph Campbell, que buscava na mitologia de diversos povos elementos comuns, universais, como um certo tipo de narrativa, de personagem principal etc. Campbell chegou a ler o roteiro antes das filmagens, mas mesmo assim, se só apenas isso bastasse, qualquer filme seguiria esses arquétipos primordiais para se tornar um fenômeno como Guerra nas Estrelas. E não há uma fórmula definida para os personagens e para a narrativa, o filme transita entre gêneros, se valendo do que interessa de cada um deles — aventura espacial, capa e espada, cinema japonês, filmes de guerra.

O mais importante é que Lucas acertou nos protagonistas, pois justo o apelo dessas grandes sagas, sejam elas cinematográficas ou literárias, é o convívio longo com um grupo de personagens, é poder acompanhar a dinâmica entre eles evoluir de um capítulo para outro, enfim, é ter motivo para passar mais de horas plantado em casa assistindo pela enésima vez filmes que você já sabe do avesso. Acho que a falta de recursos tecnológicos na época dos primeiros filme forçou Lucas a buscar soluções narrativas para certos entraves técnicos, o que dá originalidade ao filme, e também uma dimensão tátil que o 3D dos novos episódios esteriliza. Só quando ele mira em um mercado — outra vez as crianças, agora com os Ewoks — é que a coisa desanda um pouco, mas nem esses ursinhos nefastos chegam a comprometer O retorno do Jedi, mesmo já sendo tarde da noite de domingo, quase treze horas depois do início do primeiro filme (tirando as pausas).

Conforme os filmes novos pioram com o tempo, é bom saber que os originais continuam lá. Separados, são uma trilogia boa, e outra ruim. Juntos, contam a história de Darth Vader: o diretor que desafiou os estúdios para tornar-se o maior cineasta independente de todos os tempos, e depois — já dono de sua própria corporação — tornou-se aquilo que mais odiava, rendendo-se à insistência do mal e passando para o lado negro da força. Palavras dele, não minhas.