“Bom como cineasta, triste como mulher”: Diretora avalia impacto global de Manas
Após várias vitórias, filme concorreu também aos Prêmios Platino XCARET 2026
Créditos da imagem: Marianna Brennand no set de Manas (Reprodução)
Marianna Brennand tem vivido, nos últimos dois anos, uma experiência curiosa como diretora e como mulher: sempre que seu primeiro filme de ficção, Manas, é exibido em um novo festival, estreia em um novo mercado ou ganha prêmios em um novo país, ela é abordada por espectadoras contando que viveram uma história parecida à do filme.
É um sentimento agridoce, é claro, uma vez que Manas aborda um tema profundamente doloroso: o abuso sexual de meninas e mulheres na Ilha do Marajó, no Pará, de onde vem a protagonista Marciele (Jamili Correa), determinada a quebrar o ciclo de violência que observa em sua família e sua comunidade.
Manas também ressoou forte nos Prêmios Platino XCARET 2026, cerimônia que honra a TV e o cinema iberoamericanos. Com três indicações ao todo, o longa concorreu a Melhor Atriz Coadjuvante (para Dira Paes), Melhor Filme com Valor Educacional e Melhor Filme de Estreia – e, embora não tenha levado nenhuma das estatuetas, deixou sua marca em mais uma das grandes cerimônias internacionais.
A seguir, Brennand conversa com o Omelete sobre a importância dos Platino, sobre toda a jornada que empreendeu com Manas e, é claro, sobre os planos para o futuro.
OMELETE: Bom, Manas continua aqui no Prêmio Platino uma trajetória vitoriosa em festivais, premiações ao redor do mundo. Para você, qual é a diferença de ser lembrada em uma premiação que é específica ibero-americana? Por que é especial?
BRENNAND: Especial é exatamente isso, um prêmio para o cinema ibero-americano. Então o Platino valoriza o cinema feito no Brasil, na América Latina, na Espanha, em Portugal. É o Oscar do filme ibero-americano, então eu acho que é muito importante, e fortalece os filmes feitos no Brasil. No caso do Manas, que tem uma temática que é tão urgente, tão universal e tão presente na América Latina… tendo viajado com o filme para a Espanha também, para Portugal, e visto como as taxas de abuso sexual e exploração sexual infantil são tão parecidas entre nossos países. Estar aqui reconhecida na categoria de filme de estreia, representando o Brasil e ecoando essa temática que precisa ser vista, acho que é muito importante e relevante.
OMELETE: Eu já ouvi você falando que Manas surgiu durante uma pesquisa para um documentário que você estava fazendo. Por que você acha que essa história, que é lá da ilha do Marajó, viajou de forma tão impactante para lugares tão longe de onde começou? Te surpreende ver como as pessoas de longe veem essa história?
BRENNAND: Me surpreende, Caio. O prêmio em Veneza [Manas venceu o GdA Director's Award no festival italiano], que foi a nossa estreia, mostrou para a gente que a força do filme está não só no tema, mas na maneira como ele é contado. Ele viaja e toca o coração das pessoas, de quem assiste, porque é feito de uma maneira realmente muito delicada e respeitosa com o assunto, com a temática, com nós mulheres, com a representação do feminino. Mas tem um lado que também é triste, né? Ele viaja porque a realidade que mostramos nele é universal. Depois de praticamente todas as sessões do Manas, nos países por onde a gente percorreu nesses dois anos, uma mulher ou alguém na plateia me falava: "Eu também sou uma Mana, passei por isso. Isso não acontece só no Brasil, aqui no meu país acontece também". Então é uma sensação diferente, porque como diretora é muito gratificante o sucesso do filme e vê-lo ecoando e atravessando fronteiras e países, mas como mulher é muito doloroso também, porque eu sei que essa identificação vem de um lugar do feminino vivendo diariamente diversas violências.
OMELETE: Pois é, junto com Belén e outros filmes que estão aqui no Platino, Manas traz essa questão do abuso sistêmico de meninas e mulheres para os holofotes. Para você, qual é o potencial do cinema quando ele aborda esse tipo de tema? O que ele traz para adicionar na nossa conversa?
BRENNAND: Eu acho que ele abre portas, né? Ele cria pontes, gera diálogo, inspira… eu acredito que ele transforma. O cinema tem um poder muito grande de gerar empatia. Eu acredito que a transformação acontece quando você se coloca no lugar do outro, e o cinema é perfeito para isso. Ele te leva numa viagem, te coloca no coração daquela protagonista – caso do Manas, a Marciele – e te faz sentir tudo o que ela está sentindo. Acredito que isso é muito poderoso, e acho que o cinema tem esse poder, essa vocação de trazer transformação social e política.
OMELETE: Queria entender tambémcomo foi essa transição do documentário para a ficção dentro da história do Manas. Durante a pesquisa para o documentário, quando surgiu na sua cabeça a ideia de contar uma história ao redor do tema, e não só registrar o que você estava vendo?
BRENNAND: A transição do Manas aconteceu de uma maneira muito natural, e acima de tudo necessária. Quando eu comecei a pesquisar esse tema, conversando com algumas pessoas da região ainda por telefone, online, entendi que seria impossível para mim, eticamente, contar essa história como um documentário. Porque eu precisaria conversar com essas mulheres e crianças, colocá-las na frente das câmeras, pedir para que elas contassem uma história traumática de abuso. Para mim, no meu entendimento, isso seria fazer com que elas sofressem mais uma violência. É muito difícil você recontar uma dor, um trauma. Mas eu já estava totalmente decidida que eu precisava contar essa história, não tinha como não fazer isso, e a ficção foi a única porta que eu encontrei para conseguir contar de uma maneira que protegesse essas mulheres e crianças, que haviam vivido essas violências. E a ficção me deu também o espaço para contar a história de uma maneira sensível, delicada, sem estetizar a violência – que eu acho que é o que o Manas tem de mais especial.
OMELETE: Você citou também em uma das suas respostas que o filme está concorrendo à melhor filme de estreia aqui no Platino. E acho que é natural, quando uma cineasta estreia de maneira tão impactante, as pessoas começarem a pensar o que vem por aí. Você já tem algo preparado? Vai voltar para o documentário, ou continuar na ficção?
BRENNAND: Eu ainda quero deixar todas as portas abertas, acredito que as histórias pedem a maneira que precisam ser contadas. Então eu estou muito aberta ainda a voltar para o documentário, mas no momento estou trabalhando no meu próximo projeto de ficção, que vai continuar investigando essas questões do feminino e das violências que nós vivemos todos os dias… mas numa outra perspectiva.
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