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Entrevista

Machete | Omelete entrevista Robert Rodriguez e Danny Trejo

Ator e diretor discutem processo de atuação, continuações e a relação do filme com o contexto dos EUA

Steve Weintraub
10.12.2010, às 19H24
ATUALIZADA EM 27.11.2016, ÀS 17H06
ATUALIZADA EM 27.11.2016, ÀS 17H06

Durante o lançamento de Machete, nossos parceiros do Collider tiveram a oportunidade de entrevistar Robert Rodriguez, que dirigiu, produziu e corroteirizou o filme, e o ator Danny Trejo. Na conversa, ator e diretor discutem como foi a transição do personagem do trailer falso de Grind House, projeto de Rodriguez e Quentin Tarantino, para um longa-metragem, extras do DVD e as possíveis continuações.

Outro assunto amplamente discutido na entrevista foi a relação da trama de Machete com o atual contexto político dos Estados Unidos. Nos últimos meses, reacendeu-se o debate sobre imigração ilegal, quando o governo do Texas aprovou uma preconceituosa lei que obriga qualquer pessoa que pareça ser de outro país a mostrar identificação. Além disso, a população do país está prestes a votar um referendo que legalizaria imigrantes que foram levados aos EUA quando crianças e que estejam matriculados na faculdade ou se alistem no exército.

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O pôster na época do trailer de Grind House

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Danny, depois de fazer o trailer de Machete, como foi o seu processo de preencher o personagem?

Danny Trejo: Normalmente, você faz um trailer depois de ter feito o filme, então quando estávamos fazendo o trailer, eu achei que estava com Alzheimer. Mas Robert já estava me treinando para esse filme desde que fizemos A Balada do Pistoleiro. Ele me contou sobre esse filme na época e disse, "Olha, você é perfeito para esse personagem. Eu quero fazer um filme chamado Machete". Isso foi há 14 anos. Então, depois de 14 anos e 780 mil telefonemas de eu perguntando, "Quando vamos fazer Machete?", foi só uma questão de entrar no personagem.

Robert Rodriguez: Quando ele entra no set, ele é o Machete, e isso sem nunca termos ensaiado direito. Acho que ensaiamos por osmose durante 14 anos, porque ele simplesmente sabe como interpretar o personagem e o faz muito bem.

Danny Trejo: Foi o treinamento feito pelo Rodriguez. Basicamente, em cada filme, você pode perceber que eu tenho algum objeto cortante.

No filme, todos que são contra a imigração ilegal acabam mostrando ter segundas intenções. Você acha que isso reflete o cenário político atual?

Robert Rodriguez: O momento em que lançamos o filme foi bem incrível. Quando você faz um filme exploitation, é sempre bom ter uma questão importante. Eles sempre foram feitos assim. Aqui foi ao contrário. Os exploitation são famosos por pegar um problema e explorá-lo, porque se consegue rodar um filme muito mais rápido de que uma produção de estúdio. Se houvesse um assunto quente, eles conseguiam correr, fazer um filme rápido e ainda faturar, mudando o jeito de tratar a questão para ganhar relevância. É por isso que eles conseguiam falar do que estava acontecendo. No nosso filme, eu queria ter uma história relevante. E sempre há algo assim acontecendo. Eu queria usar a imigração ilegal como pano de fundo para mostrar a verdadeira corrupção que acontece e que é difícil de enfrentar. Na verdade, é tão difícil que ninguém quer falar sobre isso ou se envolver no assunto. As pessoas falam sobre imigração, mas não falam sobre a corrupção que existe entre México e Estados Unidos.

Então eu queria um personagem que fosse quase sobre-humano, quase como Rambo, que é o único que poderia endireitar isso. Na realidade, não sei se há alguém disposto a fazer isso. Nós criamos super-heróis para cuidar de problemas que não poderiam ser resolvidos de outra maneira. Esse é o propósito do Machete. Ele é um agente federal que é incorruptível no México e é forçado a viver nos EUA como um operário. Parecia a progressão natural da história tê-lo lidando com ainda mais corrupção do que estava acostumado. Ele tem um trabalho enorme pela frente, que geraria vários filmes, para conseguir resolver alguma coisa. A trama precisa ser muito épica e grande e precisava de muitas reviravoltas. Queríamos fazer uma história muito divertida, pegando algo que é real e mergulhar isso num nível de Superman e além.

Você acha que um filme como esse vai desagradar muitos conservadores?

Robert Rodriguez: Acho que você já pode deduzir isso assistindo ao filme, que é feito com muito humor. A intenção é que você pense, "Até que isso não está tão longe da realidade". Por mais que eu tentasse deixá-lo o mais fictício possível, você não consegue escapar do fato de que, às vezes, a realidade é mais estranha que a ficção. Muitas coisas eu criei achando que seriam boas subtramas e reviravoltas, mas pesquisando descobri que elas eram verdadeiras.

Danny, como você se sente ganhando status de protagonista?

Danny Trejo: A única diferença em ser o protagonista é que eu pude beijar a Jessica Alba. É um pouco diferente porque normalmente você chega, faz sua parte e vai embora. Mas, nesse filme, eu estava no set todos os dias e tive que me dar conta de que esse é o meu filme. Não é uma questão de mudar sua atitude ou sua performance, mas você ajuda, de todos os jeitos que puder. Quando estávamos em Austin, tivemos 70 dias em que estava fazendo quase 38ºC, então todos estavam trazendo água, sendo você um protagonista ou assistante de produção. Tínhamos que ter sempre água porque estava 38º, mas no lugar que estávamos gravando estava 48ºC. Foi muito divertido.

Robert, você poderia falar sobre como foi montar esse elenco tão eclético?

Danny Trejo: Robert fez A Pedra Mágica, e nesse filme, eles tinham uma pedra dos desejos. Então quando eu perguntei, "Robert, como você conseguiu esse elenco?", ele simplesmente disse: "Minha pedra dos desejos".

Robert Rodriguez: Sim, é um elenco dos sonhos. Ele precisava ser eclético. Eu adoro fazer essas coisas, como em Sin City e esses filmes com muitos personagens. A partir do momento em que você consegue envolver algumas pessoas-chave, você consegue atrair outros atores que se encaixam no papel. No começo, quando você ouve os nomes, você pensa, "Como essas peças se encaixam?". E aí você assiste ao filme e vê como cada um faz seu papel muito bem e é a pessoa certa para aquele papel. Durante muito tempo no ano passado, as pessoas se perguntavam por que Steven Seagal, Robert DeNiro, Don Johnson e Lindsay Lohan estavam juntos no mesmo filme. Depois, quando você assiste, faz sentido. Foi fantástico. Começamos com Danny, que já atrai muita gente por si só, porque todo mundo já trabalhou com Danny. Ele já fez mais de 200 filmes. Seagal já matou ele muitas vezes. DeNiro já o matou com um tiro na cabeça. Então muita gente pensou, "Nossa, Danny ganhou sua chance [em um papel grande]. Devemos apoiá-lo". O roteiro era divertido e muitas pessoas já ouviram falar do estúdio que eu tenho em Austin, e era uma oportunidade de interpretar um papel diferente do que normalmente interpretam, e as pessoas gostam disso. Então conseguimos atrair muitas pessoas.

Foi muito parecido com Sin City, em que eu filmei a cena de abertura primeiro e então a mostrei para os atores. E eles já entraram para o elenco, porque conseguiam ver o filme do qual fariam parte e conseguiam se imaginar nesse filme que já tinha começado a acontecer. Como o trailer falso de Machete já circulava há dois anos, eu podia simplesmente mostrar o trailer e eles conseguiam se imaginar no filme, porque era divertido e diferente, com esse super-herói mexicano. Era algo que eles nunca tinham visto antes. Assim como Os Mercenários, esse filme é quase uma volta no tempo para os filmes de ação old school, que são simplesmente viscerais e oferecem experiências francamente catárticas para a plateia. É o tipo de filme que garotos se apaixonaram das primeiras vezes que foram ao cinema, na infância. Foi isso que eles sentiram e que os motivou para querer fazer parte do filme.

Tem alguma cena que você filmou e não entrou no corte final, mas que pode entrar no DVD?

Robert Rodriguez: Na verdade temos muitas cenas extras que filmei. Quando comecei a fechar com todos esses atores, precisava expandir os papéis deles, e fiquei escrevendo mais e mais coisas que eles poderiam fazer. Você vai assistir a algumas cenas bem esquisitas no DVD. Você vai pensar: "de onde apareceu esse personagem?". O filme provavelmente teria duas horas, se eu tivesse deixado todos eles. Mas vou fazer um corte estendido muito legal que terá muitos personagens extras. Algumas pessoas que não morreram no filme na verdade tinham morrido. Eu só cortei aquelas mortes porque queria guardar esses personagens para uma continuação. E estou feliz agora, porque as pessoas estão começando a gostar desses personagens que não morreram.

Você já pensou sobre os rumos que gostaria de dar em filmes futuros?

Robert Rodriguez: Tenho muitas ideias. Nos letreiros finais você já viu que teremos que fazer Machete Kills e Machete Kills Again. Depois que você divulga isso, é obrigado a fazer, assim como descobrimos com o trailer. Quando fiz o trailer, durante anos, mais do que perguntar sobre Sin City 2, as pessoas chegavam para mim e perguntavam: "Quando que você vai fazer Machete, agora que já vimos o trailer?". Esse filme foi quase em resposta aos fãs porque, se eles não tivessem corrido atrás de mim para fazer esse filme, tanto quando Danny, acho que nunca teríamos feito. Então esse filme foi, em grande parte, feito para os fãs. Eu sempre quis fazer, mas isso me ajudou muito a ir em frente. Agora vou ficar recebendo aquelas ligações do Danny, "Quando vamos fazer Machete Kills Again?".

Você filmaria os dois juntos?

Robert Rodriguez: Não sei. Poderíamos. Mas eles teriam que ser muito bons. Sempre queremos surpreender as pessoas e fazer filmes incríveis.

Danny Trejo: Eu enviei uma mensagem pro Robert quando estava na Inglaterra, com a foto de uns caras que tinham tatuado o Machete nas costas. Pensei, "uau, espero que eles gostem do filme".

Robert Rodriguez: Essas coisas nos incentivaram a fazer o melhor filme possível. Pensamos, "nós precisamos ter alguém como Robert DeNiro neste filme, para satisfazer as pessoas que fizeram tatuagens do Machete". Virou uma coisa que não poderia mais ser apenas um filme. Precisava ter muitas camadas, precisava ter muita coisa acontecendo e precisava surpreender as pessoas. E então isso virou uma grande responsabilidade, porque ele é como o James Bond latino. Esse era o primeiro herói de ação latino da história do cinema hollywoodiano, então tínhamos que estar à altura disso, porque foi isso que as pessoas viram no trailer.

Você sabe qual é a soma total de mortos?

Robert Rodriguez: Não, porque muda muito. Às vezes as pessoas morrem, às vezes eles apenas saem machucados. Não era uma história de um cara que mata todo mundo, então eu tinha que escolher. Às vezes ele deixava um grupo inteiro de pessoas viver. Mas se estão seriamente querendo matá-lo, ele terá que matar todos eles. Se é ele que foi atrás das pessoas, ele simplesmente pega a informação que estava buscando e segue em frente. Ele é um policial, então sabe quando precisa puxar a arma e matar a pessoa que está tentando matá-lo e quando deve deixá-los sobreviver.

Quando você decidiu usar um aparador de grama?

Robert Rodriguez: A ideia de muitas pessoas entrando na sua casa com vários aparatos perigosos era muito divertida. Achei que o aparador de grama seria o mais divertido porque seria muito irritante apanhar de um aparador de grama.

Danny Trejo: Eu estava lutando contra Nimrod Antal, diretor de Predadores. Foi demais.

Robert Rodriguez: Todo mundo se divertiu batendo no Nimrod. Estavam empurrando ele e amordaçando-o com fita. Ele fez um ótimo trabalho. Ele fala húngaro e eu queria alguém com um sotaque, então foi ótimo.

Você não se preocupa se as pessoas se ofenderem com esse filme?

Robert Rodriguez: Existem questões reais em muitos filmes que são divertidos. A diferença é que este é um assunto muito atual. O filme realmente divide as pessoas porque é um assunto real, as pessoas querem ver uma resposta. Nossa resposta, no filme, é o Machete. Não que ele esteja tentando resolver, isso só faz parte do contexto. Todos os personagens têm seu ponto de vista e a única razão por estarem agindo de maneiras tão opostas é porque não há um sistema. O filme simplesmente aponta o fato de que não há um sistema e isso precisa ser criado, ou então cada pessoa criará seu próprio sistema, pois você está ignorando o problema. Tudo sempre volta para o governo. Eles poderiam evitar tudo isso, se fizessem alguma coisa. E a partir disso entramos na nossa trama. É apenas um contexto para mostrar que existe um problema e ele continuará existindo, até que alguém faça algo a respeito.

Danny Trejo: Acho que vamos agradar e ofender a todos igualmente.

Robert Rodriguez: Pessoalmente, eu acho que é bem difícil levar esse filme a sério. Foi apenas uma questão de timing ver que ele está relacionado a assuntos reais, porque aí você assiste com um olhar diferente. Se não fosse o assunto do momento, você assistiria e não pensaria muito a respeito. Seria apenas um contexto normal. Isso só ajuda a recriar o clima dos filmes exploitation dos anos 70 e 80.

Qual foi sua morte favorita?

Danny Trejo: Quando eu corto três cabeças de uma vez.

Robert Rodriguez: A do intestino é muito boa. A música ajuda a contruir essa cena.

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