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Linha de Passe

Em idioma de boleiro, o filme de Walter Salles e Daniela Thomas é ótima triangulação de ataque

Marcelo Hessel
04.09.2008
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h39
Atualizada em 21.09.2014 às 13h39

O futebol é parte importante da trama, mas não é só por isso que o novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas se chama Linha de Passe. A experiência de contar quatro, cinco histórias ao mesmo tempo se assemelha ao famoso "um-dois" dos meio-campistas. O que se vê na tela é uma verdadeira triangulação de personagens.

E a beleza do filme, antes de mais nada, está na passagem, na forma como uma história se conecta na outra. Cleuza, mãe sozinha de quatro filhos homens, é corinthiana fanática. Linha de Passe abre com o momento em que a torcida está esticando o bandeirão no Morumbi, mãos pra cima como num ritual. Corta para outro grupo cumprindo um ritual com os braços esticados: é um culto evangélico do qual participa Dinho, um dos quatro filhos.

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Essa imagem, as mãos pra cima, que duas cenas repartem entre si, é um exemplo do esforço que os diretores fazem para criar um todo a partir da soma das partes.

Cleuza (vivida por Sandra Corveloni, premiada em Cannes), que trabalha como empregada doméstica, está grávida de novo, pai desconhecido. Dinho (José Geraldo Rodrigues) divide seu tempo entre o culto e o ingrato serviço de frentista. O filho mais velho, Dênis (João Baldasserini), é motoboy. O caçula, Reginaldo (Kaique Jesus Santos), mata aula para procurar, nos ônibus municipais, o pai que não conheceu, motorista de frota.

E há o aspirante a jogador de futebol, o filho de Cleuza que faltava apresentar, Dario (vivido por Vinícius de Oliveira, que refaz a parceria com Salles de Central do Brasil). O garoto bom de bola, ainda que fominha, vive de peneira em peneira atrás de uma oportunidade - e nele se deposita toda a esperança da família, já que a rotina em Cidade Líder, na periferia de São Paulo, não vai levá-los a lugar nenhum.

Salles continua sendo um diretor de emotividades (o diálogo dentro do carrão, "olha pra mim", beira o cafona), marca de filmes como Abril Despedaçado e Diários de Motocicleta. Na sua busca por registrar pessoas reais, por um cinema social, Linha de Passe desde o começo caça rostos anônimos na multidão de figurantes. A câmera-na-mão do hábil diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. (Cinema, Aspirinas e Urubus, A Casa de Alice) não economiza nos close-ups, sempre atrás do momento, de significado.

Soma-se a isso o constante movimento dos protagonistas - Dênis na moto, Reginaldo no ônibus, Dario no campo... - e temos um palpável sentido de urgência que ajuda a dar liga ao filme. Adepto do filme-de-estrada, Salles reproduz o subgênero mesmo dentro dos limites da cidade.

E aí dá uma certa aflição, porque percebe-se ao longo do filme que esses personagens estão numa rota de mudança, de transformação, mas os arredores freiam, a estagnação do mundo se impõe sobre eles - a estagnação de um viaduto inacabado do fura-fila. Linha de Passe é de fato um filme muito melancólico, mas cabe dizer que essa melancolia não se confunde com paternalismo. Cleuza sofre para desentupir a pia da cozinha, mas enquanto isso aproveita para tomar uma cervejinha.

Em momentos assim é possível dizer que Linha de Passe captura a realidade sem julgamentos. E essa é a mágica da coisa, nos fazer olhar para a vida de um jeito ao mesmo tempo limpo e poético, de um jeito que não tínhamos reparado antes.