Os erros de abordagem LGBTQIA+ mais comuns no mundo do entretenimento

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Os erros de abordagem LGBTQIA+ mais comuns no mundo do entretenimento

Apesar das boas intenções, nem sempre o cinema e a TV acertaram o alvo.

Omelete
2 min de leitura
Henrique Haddefinir
29.06.2022, às 15H18

Quando o longa-metragem Philadelphia estreou em 1993 ele foi imediatamente alçado ao posto de grande obra do cinema não só por suas características técnicas apuradas, mas porque era o primeiro título de largo circuito mundial a falar diretamente sobre o HIV, que já era uma realidade nos grandes centros urbanos dos anos 80 e seguidamente correlacionado com o “estilo de vida homossexual”. Curiosamente, quando colocamos em perspectiva que o filme era uma luta contra o preconceito, mas, ao mesmo tempo, foi criado em torno dessa mesma ideia de que o vírus estava relacionado com os gays, uma ambiguidade se estabelece.

Naquele início dos anos 90 a representatividade era tão restrita no cinema e na TV que ninguém estava interessado em problematizar nada. E possivelmente nem havia ferramentas argumentativas suficientes para isso. Andrew, o personagem vivido por Tom Hanks, em dado momento do filme, é obrigado a assumir em seu depoimento no tribunal que contraiu o vírus enquanto frequentava um cinema pornô, mesmo já tendo um relacionamento sólido. O roteiro, então, expõe a realidade de uma comunidade - não da comunidade gay somente, mas do universo masculino como um todo. A audiência, é claro, processa a ideia de punição contra “promiscuidade”. Uma mulher que depõe dizendo também ter contraído a doença, pegou o vírus por transfusão. A perpetuação estava garantida.

O filme segue reforçando os códigos culturais que ele supostamente deveria estar combatendo. O Miguel de Antônio Banderas é resignado como uma mulher de Athenas e o casamento entre ele e Andrew é condenado ao acompanhamento gradativo da mais pura dor e tortura, tanto física quanto psicológica. Não há trocas de carícias, não há afeto que transborde do controle do olhar e eles são absolutamente heteronormativos. Denzel Washington foi escolhido para viver o advogado machão que vai defender o caso porque é preto e assim, poderia entender o processo de exclusão; outra estranha maneira de defender a ideia do filme.

Cheio de prêmios e respeito, o longa acabou por fazer um serviço importante de esclarecimento do que a doença era, incluindo suas formas de contágio e a preocupação com como a sociedade iria lidar com sua existência. Essas questões problemáticas levantadas aqui no texto não apareciam no campo consciente, mas reforçam traços culturais que continuaram sendo nocivos para a representatividade. Era um típico caso de obra tomada de boas intenções, que até cumpriu algumas delas, mas que não tinha uma ideia exata de preocupações além da superfície. E isso é muito mais comum do que parece.

Não é só sobre sexo, mas também é

As séries de TV e o cinema demoraram muito para conseguir transitar entre desejo e afeto na hora de retratar personagens gays. O sexo é parte inerente à cultura queer, está na rotina e na forma como sua celebração também compõe uma defesa política. No entretenimento, contudo, muitas vezes ele é uma espécie de “chamado” ou de “fantasma”. Ou ele era ostensivo como em Queer As Folk ou completamente inexistente, como em Dawson’s Creek. Tudo a gosto do que os estúdios precisavam de acordo com a escala de números.

Muitas vezes – e esse pode muito bem ser o caso de Queer As Folk – as garantidas sequências eróticas eram uma forma de sobrevivência. Em outras, não. Em uma cena de The Sopranos, por exemplo, o protagonista mafioso discute homossexualidade com sua terapeuta e demonstra sua ojeriza do ato entre homens, embora, para ele, seja “divertido” assistir “aquela série com a Jennifer Beals”. The L World era um sucesso entre homens heterossexuais em busca de cenas quentes entre lésbicas.

O sexo sustentava pilares em OZ, o drama prisional da HBO. Mas, na comédia Will & Grace, onde o protagonista era gay, demorou anos até que um beijo sem graça pudesse acontecer. Atualmente, as séries de língua espanhola do catálogo da Netflix giram todas em torno de homoerotismo; e em Elite isso vai a uma extremidade que extermina quaisquer outros objetivos dramáticos. Na outra ponta, Heartstopper é festejada por ser praticamente angelical. É como se em alguns casos só pudesse haver abordagem se ela for física; e em outros casos é como se o físico fosse repulsivo, perigoso, excludente.

Coadjuvante sim, bibelô não

O revival de Sex and the City – chamado de And Just Like That – veio para cumprir duas funções: provar que a história poderia acontecer mesmo sem Samantha e que eles podiam corrigir problemas na abordagem da diversidade enquanto a série esteve no ar, entre final dos anos 90 e início dos 2000. Um desses problemas era a maneira como os personagens queers eram tratados; e em completude: gays, lésbicas, trans... Sobrava até para questões étnicas. Apesar de ter tido uma imensa importância para o papel da mulher na dramaturgia e para questões feministas, a série era excessivamente branca e elitizada.

Carrie tinha um melhor amigo gay chamado Stanford. Charlote tinha o seu amigo gay, chamado Anthony. Ambos serviam para os roteiros como ouvintes das protagonistas, além de agirem individualmente como se suas existências girassem em torno de suas orientações sexuais. Eles eram o que a mídia especializada chama de “gay purse” (bolsa gay, numa tradução literal); aquele amigo que as divas levam para os lugares para serem interlocutores de fofocas e puxas-saco de suas belezas.

Ao mesmo tempo, em uma olhadinha para o lado, estamos assim tão longe da verdade? Não exatamente. Quem assiste reality shows como The Real Housewives sabe que essa relação tem bases na verdade; que esse é um “clichê” pautado na realidade (como são a maioria deles, aliás). A questão é que se você não pode mexer na vida real, ainda assim pode mexer na que você inventou. A dramaturgia seria uma boa oportunidade para fugir do superficial e garantir que essa atração entre “divas” e pessoas queer fosse uma admiração mútua e não uma relação submissa e parasitária.

Discreto e fora do meio

Durante a quarta temporada de Dawson’s Creek, em 2001, Jack conseguiu finalmente ter seu primeiro namorado. Era um rapaz chamado Toby, que ele conheceu num grupo de apoio para gays. Sua amiga Jen foi a primeira a torcer pelo casal, quando ouviu de Jack a seguinte frase: "Ele é muito... gay. Perco o tesão quando é muito óbvio." Era o prenúncio do "não curto afeminado" que reina nos apps de encontros nos dias de hoje. A fala problemática de Jack não ecoava negativamente nem para Jen. Por fim, ele e Toby começaram a namorar, mas a relação terminou na temporada 5 porque Jack era incapaz de abrir mão da heteronormatividade que o fazia sentir-se falsamente seguro.

Em Will & Grace (1998), o discreto Will era bem sucedido financeiramente, respeitado e amado. Jack, o afeminado, era desmiolado, superficial e dependia do amigo másculo para tudo. Jack era sustentado por Will e Karen (a diva melhor amiga); e ambos não perdiam a chance de jogar isso na cara dele quando era conveniente. A condescendência era constante e Jack, apesar de hilário, perpetuava essa noção de que a feminilidade fragiliza, é louca, dependente.

É evidente que gays afeminados e gays heteronormativos são parte de uma estrutura natural, inerente. O problema passa a ser quando a superioridade se torna a régua comportamental. Quem não é afeminado costuma se sentir num patamar acima de quem está ali dando a cara para bater, assumindo o que representa ser claramente gay em uma sociedade como a nossa. É abismal que em plenos anos 2020 ainda vejamos a palavra “macho” sendo usada por homens gays do mundo todo como símbolo de força e virilidade únicas; significados que até são coerentes num contexto cultural teórico, se isso não significasse em quase 100% das vezes, que quem não é “macho”, não é legítimo.

É só uma fase

Lembram quando a CW quase demitiu o criador de The OC (2004) quando ele abriu um plot em que a “mocinha” Marissa tinha um romance lésbico com a personagem de Olivia Wilde? Lembram quando nossa talentosa Sonia Braga foi namorada de Samantha, em Sex And The City, só para alguns episódios depois ser reduzida a uma neurótica agressiva? Lembram quando Santana e Quinn resolveram a tensão sexual delas numa noite solitária da série Glee?

O que todos esses casos têm em comum? A tal “fase”, sempre protagonizada por mulheres, uma vez que acreditar numa licença gay partindo de uma mulher é menos danoso do ponto de vista cultural do que seria se isso partisse de um homem.

A Orientação Sexual é ato sexual são coisas diferentes. Um não é excludente com relação ao outro. Pessoas heterossexuais podem acabar tendo experiências de sexo gay; e pessoas gays podem ter experiências com sexo heterossexual. Isso não interfere na Orientação, são apenas experiências. A questão é que, sobretudo no passado, enredos como esses podiam ser muito complicados devido ao uso de um termo maldito que estamos tentando superar até hoje: opção sexual. Se para aqueles personagens era uma “fase”, por que não seria também para quem já se proclamava gay?

É necessário um cuidado especial para que a liberdade de contar na tela todos os tipos de relações e conexões, não seja usada para retroceder pontos de esclarecimento. Experiências são transitórias. Desse modo, é preciso reforçar no enredo que Orientação não é “fase”, mas que as pessoas podem sentir-se atraídas por outras do mesmo sexo eventualmente na vida. O que acontece nas novelas brasileiras, por exemplo, é alarmante. Autores não resistem a colocar personagens gays em triângulos amorosos com um outro homem e uma mulher, como se, de alguma forma, isso sanasse uma dificuldade de fazer com que aqueles personagens fossem aceitos se fossem só gays.

As coisas melhoraram, é claro. Mas, o mundo do entretenimento gira em torno de repetições, causadas pelo inevitável ciclo de inspirações que rege a dramaturgia. E aí que mora o perigo, que está o risco de dar passos para trás ao trazer a percepção geral de volta ao lugar de superficialidade de onde foi tão difícil sair. 

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