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Resident Evil comprova que adaptar bem é entender a essência, não copiar a história

Entre a adaptação e o medo de mudar, reações à Lanternas e Resident Evil repetem a fórmula do passado - e mostram que aprendemos pouco

Omelete
4 min de leitura
17.09.2026, às 11H54.
Resident Evil

Créditos da imagem: Sony Pictures

Existe uma dificuldade cada vez maior em discutir adaptações de quadrinhos, livros e jogos sem que a conversa se transforme imediatamente em uma comparação com a obra original. É compreensível que exista desconfiança, principalmente depois de tantos casos em que Hollywood pegou uma marca conhecida e criou algo que pouco tinha a ver com aquilo que os fãs amavam. Mas isso não representa todos os fãs. A própria longevidade dessas franquias mostra que o público sabe aceitar mudanças, porque personagens como Batman, Homem-Aranha e os Lanternas Verdes só continuam relevantes porque foram reinterpretados muitas vezes. O problema parece estar em um tipo específico de fã, mais barulhento e amplificado pelas redes sociais, para quem reclamar antes de assistir, ler ou jogar passou a ser mais importante do que discutir o resultado.

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Lanternas é um exemplo recente disso. A série da HBO, criada por Damon Lindelof, Chris Mundy e Tom King, usa a mitologia do Lanterna Verde para construir uma história policial no interior dos Estados Unidos. Hal Jordan (Kyle Chandler) e John Stewart (Aaron Pierre) continuam sendo dois policiais intergalácticos, mas a relação entre eles serve para falar sobre escolha, medo, responsabilidade, poder e sobre o que significa servir a um sistema que decide quem merece exercer esse poder. Mesmo preservando essas questões fundamentais sobre os heróis, a série enfrentou críticas por mudar elementos dos personagens e até pelo fato de uma de suas roteiristas ter colocado experiências pessoais e aspectos de sua identidade na construção da história, como se artistas não fizessem exatamente isso desde sempre. Toda adaptação carrega a visão, as referências e a experiência de quem a produz. Impedir esse movimento seria transformar o processo criativo em mera reprodução.

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Resident Evil / Lanternas

Sony Pictures / HBO

Algo semelhante acontece com o novo Resident Evil, de Zach Cregger, que acompanha uma pessoa comum tentando chegar a um hospital em Raccoon City durante a contaminação provocada pelo T-vírus. O protagonista não existe nos jogos e o filme não reconta diretamente as histórias de Leon, Claire, Chris ou Jill. Se fosse um novo game, um derivado ou um DLC, provavelmente a proposta seria entendida com mais naturalidade. O próprio Resident Evil 7 apresentou Ethan Winters, outra família e um cenário bastante diferente, sendo recebido inicialmente com resistência por parte dos fãs antes de se tornar uma das experiências recentes mais celebradas da franquia. O novo filme ainda precisa provar que funciona, mas condená-lo antes da estreia apenas porque escolheu outro personagem diz mais sobre o medo da mudança do que sobre a qualidade da adaptação.

E esse comportamento não começou agora. The Legend of Zelda: The Wind Waker foi duramente criticado quando abandonou o visual mais realista esperado pelos fãs e adotou uma estética cartunesca, mas hoje é considerado um dos jogos mais marcantes e visualmente duradouros da série. Heath Ledger foi tratado como uma escolha absurda para viver o Coringa em O Cavaleiro das Trevas e depois entregou aquela que, para muita gente, continua sendo a melhor versão do personagem. A história da cultura pop está cheia de casos assim: uma mudança é apresentada, uma parcela do público reage como se algo tivesse sido destruído e, depois que a obra se prova, a mesma mudança passa a ser tratada como definitiva. As redes sociais apenas aceleraram esse processo e deram às primeiras reações, muitas vezes baseadas em pouco conhecimento, a aparência de uma opinião consolidada.

Isso também ajuda a explicar por que o fan service passou a ser tratado como uma espécie de solução para qualquer adaptação. Ele não é necessariamente um problema e pode ser parte importante da experiência, criando reconhecimento, afeto e conexão com quem acompanha aquela história há anos. Mas o fan service precisa servir à obra, e não ocupar o lugar dela. Quando uma produção acredita que basta mostrar o uniforme correto, repetir uma cena conhecida ou colocar um personagem em tela para satisfazer o público, a adaptação deixa de interpretar e se transforma em uma lista de referências. Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City entregou muitos elementos que os fãs diziam querer e nem por isso funcionou. Cowboy Bepop, da Netflix, parecia "igual" e não funcionou. O fan service pode fazer parte da solução, mas dificilmente será a solução inteira.

Talvez esse comportamento seja também um reflexo da sociedade como um todo. Todo mundo diz querer novidade e evolução, mas existe uma dificuldade real de aceitar a mudança quando ela finalmente acontece. Na cultura pop, esse protecionismo às vezes aparece disfarçado de defesa da fidelidade, mesmo quando parte de uma compreensão limitada da própria obra - como pode alguém imaginar que John Stewart ter sido criado nas HQs do Lanterna Verde não tem a ver com questões raciais? Por isso, a pergunta mais importante não deveria ser se tudo está exatamente como nos quadrinhos, nos livros ou nos jogos, mas se a adaptação compreende o que tornava aquela história especial. 

A cultura pop fica mais rica quando preserva a essência de seus personagens e, ao mesmo tempo, permite que eles ocupem novos lugares, conversem com outros públicos e evoluam junto com a humanidade. Os fãs já mostraram muitas vezes que são capazes de abraçar essas mudanças. Talvez só precisemos aprender a esperar que elas aconteçam antes de decidir que deram errado.

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