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Entrevista

Lanterna Verde | Omelete entrevista o diretor Martin Campbell

Cineasta compara adaptação com James Bond, fala dos desafios do filme e discute quem gostaria de ver em uma continuação

Érico Borgo
24.05.2011
00h00
Atualizada em
01.08.2018
16h58
Atualizada em 01.08.2018 às 16h58

No set de Lanterna Verde(Green Lantern), que visitamos em New Orleans em julho de 2010, conversamos com o diretor Martin Campbell. Leia abaixo as razões que levaram o cineasta a aceitar o filme, sua dificuldade inicial em lidar com os efeitos especiais, as comparações com James Bond e qual vilã do universo do super-herói ele gostaria de ver em uma continuação.

Por que você aceitou fazer esse filme? Você teve receio de se envolver com um filme de super-herói?

Martin Campbell

Martin Campbell

Construtos energéticos criados com a força de vontade

Construtos energéticos criados com a força de vontade

Tomar-Re e Kilowog

Tomar-Re e Kilowog

Safira Estrela

... a futura Safira Estrela

Lanterna Verde

Ryan Reynolds como o Lanterna Verde

Hal Jordan e Carol Ferris...

Hal Jordan e Carol Ferris...

Lanterna Verde

None

OA

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Primeiramente, eu estou fazendo pelo dinheiro. [risos] Eles estão me pagando muito dinheiro para fazer isso. Eu nunca tinha feito um filme de super-herói antes, esse é outro dos motivos. O Lanterna Verde é muito interessante porque há uma certa profundidade psicológica nele. Ele tem certas fraquezas, como o próprio medo, que precisa superar. Há também a ideia de que a força de vontade torna seu anel energético mais poderoso. Quanto maior sua força de vontade, maiores seus construtos e, consequentemente, maiores serão suas armas, o tornando mais poderoso, ao contrário do Superman, que entra em uma cabine telefonica, põe sua calça de Lycra, sai voando e qualquer pessoa que tiver um pouco de Kryptonita no bolso é uma ameaça, o que acaba tornando a franquia muito limitada. O Lanterna Verde é personagem bem interessante.

Você fez diversos filmes com ação e efeitos especiais - houve algo particularmente difícil nesse filme, algo que você teve que superar?

Sim, a parte virtual. Eu nunca tinha feito nada virtual na minha vida. Temos personagens como Kilowog e Tomar-Re - é claro que o Sinestro não, ele é Mark Strong - mas certamente Kilowog e Tomar-Re são personagens virtuais e eu nunca estive nesse mundo. Oa, que é o planeta-base dos lanternas verdes, será todo virtual e teve de ser criado a partir do zero - e isso foi bem assustador.

Você está gostando da experiência?

Sim, estou.

Mas como se dirige um filme com personagens virtuais?

Não se dirige. [risos] Os atores falam sozinhos. Não, o que a gente faz é colocar um dublê ou alguma outra pessoa em cena, dizendo as falas do personagem virtual e depois você edita o filme, mudando completamente o personagem e sua voz.

Deve ser uma tentação deixar que os caras dos efeitos visuais trabalhem sozinhos...

Não se deixa com que eles trabalhem sozinhos. O que fazemos é contratar um ótimo designer de produção como o que temos, Grant Major, que fez O Senhor dos Anéis. Ele tem uma equipe de artistas concetuais bem talentosa. Trabalhamos meses nos conceitos de Oa, dos personagens, do visual do filme como um todo... é assim que fazemos.

Lanterna Verde será em 3D. O que você acha da técnica? Você acha que é realmente o futuro do cinema ou acha que logo vai passar?

Não, eu não acho que seja passageiro, nem que seja o futuro. De agora em diante, o 3D vai sempre estar presente - as pessoas gostam e vão assistir. Alguns filmes, como por exemplo o do [M. Night] Shyamalan, foram muito criticados por causa do 3D ser ruim. Lanterna Verde será em 3D e os testes que vimos nos animaram bastante. É claro, quanto mais tempo se pode gastar com o processo de conversão do filme para 3D, melhor ele vai ficar. A tecnologia também tem avançado rapidamente quando se pensa em pós-produção 3D e eu espero que até o lançamento do filme ela fique excelente.

O que você acha dos fãs dos quadrinhos?

Eu tive muito pouco contato com eles, mas confesso estar um pouco receoso. Eu não quero ser destruido, acho que se errasse qualquer coisa...

Então você sente que a pressão é alta?

Sim, porque isso é como a Bíblia deles.

Mais ou menos a mesma coisa com o Cassino Royale e os fãs de Bond? Eles também podem ser bem rígidos...

E podem mesmo, eles odiaram Cassino Royale desde o primeiro dia de filmagens. Nós tivemos a pior críticas de todos os tempos. "Daniel Craig foi o pior Bond de todos". Alguém disse que ele parecia com o presidente [Vladimir] Putin [risos]. Disseram que ele não sabia dirigir um carro, que não tinha os dentes da frente - todo tipo de baboseira e ainda estávamos apenas no segundo dia de filmagens, o que já dá uma ideia. O filme já estava morto antes mesmo de nascer.

Você pretende fazer outro filme da franquia?

Não, não, eu não vou fazer mais nenhum Bond. [risos]

Por quê?

Eu já fiz dois, já está bom.

Como você se identifica com o herói que é o Lanterna Verde e quando você definiu o tema de maior importância desse filme?

Pelo fato da história ser sobre um rapaz que vê seu pai morrer em um terrível acidente de avião, ele acaba afetado por isso pelo resto de sua vida. Ele também tem um medo extremo do próprio medo e tem de superar isso para que possa se tornar um lanterna verde. Só que ele também é a última pessoa na face da Terra que deve ser um lanterna verde - ele é impetuoso, impulsivo, tudo gera uma reação imediata nele, ele tem todo o charme e nenhuma responsabilidade. Eu acho que há um pouco de aturdimento do porquê dele ter sido escolhido para ser um lanterna verde, mas o anel entende que ele tem todas as qualidades necessárias. Então, nessa história, nós mostramos como essas qualidades emergem e como ele finalmente se torna aquilo que o anel enxergou.

Como é trabalhar com Ryan [Reynolds]?

Não há qualidades de superastro em Ryan como pessoa, ele trabalha duro e se dedica muito. Como ator ele é magnífico - ele ouve e também é bem perspicaz, tem ótimas ideias. Ele é o ator perfeito.

E existe espaço para as ideias dele no filme?

Certamente.

Você pode citar alguma delas?

As atitudes dele nas cenas, como o personagem pensa... Há certas coisas que você corrige, dizendo que não é daquela forma que o personagem agiria e Ryan sempre consegue se adaptar. Ele já vem atuando há alguns anos e, acima de tudo, tem um ótimo senso de humor.

Como você descreveria sua visão dessa adaptação dos quadrinhos? É mais como Homem de Ferro ou O Cavaleiro das Trevas?

Não tem como comparar, nós não copiamos de nada, apenas fizemos como achamos melhor. Óbvio que O Cavaleiro das Trevas foi um filme mais sombrio enquanto Homem de Ferro foi mais leve e incrivelmente divertido - pelo menos o primeiro filme foi. Certamente nosso filme não é sombrio, assim como os quadrinhos também não são, e vai ter bastante humor. Acho também que a relação entre ele [Reynolds] e Blake Lively está muito boa, além de estar bem real. Eu quero apresentar esses personagens como pessoas reais, não como personagens de quadrinhos.

Como esse é seu primeiro filme em computação gráfica, o que você achou mais difícil em trabalhar com essa tecnologia?

Apenas o fato de ter que me acostumar com essas técnicas - como lidar com a tela azul, ter cinco personagens juntos em uma cena na qual apenas um deles é real. Para mim, a parte mais difícil foi a técnica, mas eu tenho um ótimo time que me guia na direção certa.

Qual foi o principal motivo dele ter se diferenciado dos outros atores nos primeiros testes de cena?

Fizemos testes de cena com uns cinco atores e ele sempre foi minha primeira opção. Demos aos cinco uma chance e ele acabou se sobressaindo - foi uma combinação do físico e do humor. Ele tinha a personalidade certa para Hal Jordan e me pareceu uma combinação perfeita.

Qual era o seu super-herói favorito quando criança?

Provavelmente o Superman e o Batman. Eu costumava ler as histórias deles.

Você considera as histórias de quadrinho de super-heróis uma espécie de mitologia da modernidade?

Pensando dessa forma, acho que haja um paralelo aí, sim. Eu nunca tinha pensado nisso dessa maneira. Hoje em dia temos tantos super-heróis e os estúdios tentam criar franquias através deles - algumas acabam fazendo mais sucesso do que outras.

O que você acha da grande fascinação que as pessoas acabam tendo com os super-heróis?

É meio que como com Bond; ele é o cara que todas as mulheres querem levar pra cama e todos os caras querem ser. Essa é a fascinação com aquele personagem em especial. De uma maneira engraçada, a associação que se tem com os super-heróis é quase a mesma. O desejo de ter o mesmo poder que ele tem, a força dele e tudo mais, mas por outro lado, eles também têm suas fraquezas, que no nosso caso é psicológica. Essas fraquezas variam de acordo com o principal interesse do herói e acho que a nossa é uma das mais interessantes.

Por que você diz ser uma das mais interessantes?

Porque primeiramente ele vai a outro mundo, ele não está preso a uma cidade como o Homem-Aranha, Superman ou Batman. Aqui, o universo é seu palco, ele pode ir para qualquer lugar. Em segundo lugar, por Hal ser humano, ele tem muitas falhas. Ele ainda tem um longo caminho a percorrer psicologicamente para que ele possa se desenvolver e se tornar um verdadeiro lanterna verde. Em terceiro lugar, a força de vontade é fator determinante na hora da decisão de se tornar ou não um lanterna verde, então força de vontade acaba sendo o poder dele. Além de que a ideia de todos os personagens; Carol Ferris e Sinestro, que nos quadrinhos acabam indo para o lado sombrio. Aqui, os personagens tem muito espaço para desenvolvimento, enquanto em outras histórias seus personagens não tem tanto espaço assim. Em Homem-Aranha, você sempre acaba se perguntando qual será o monstro que ele vai lutar ao mesmo tempo que fica limitado àquela cidade. O Superman ainda consegue voar para outros lugares, mas o Batman também fica contindo no mesmo espaço.

Quais são suas histórias favoritas do Lanterna Verde?

A história que estou fazendo agora.

Nos quadrinhos.

Eu adoro os epílogos, a apresentação dos personagens. Por exemplo, com James Bond - Cassino Royale foi bom porque aquele não era James Bond, pelo menos não o Bond que conhecíamos. Foi o primeiro livro que [Ian] Fleming escreveu. As pessoas não percebem isso, mas quando realmente olhamos para o personagem do livro, ele fumava 70 cigarros por dia, bebia muito, seu fígado era um problema... Ele também tinha um lado sombrio. O que eu acho que acontece quando Superman vira o Superman e o Lanterna Verde vira o Lanterna Verde, como personagem, para onde eles podem ir a partir daí? Lógico que eles vão lutar contra o mal. O bom de termos mais personagens é que eles podem acabar se tranformando em vilões.

Você está lendo e acompanhando as novas histórias?

Eu não tive tempo de pegar pra ler todas as novas histórias porque eu ando meio ocupado. [risos] Por volta de 21 horas por dia.

Hoje é o 89º dia de filmagens, teve algum dia que foi particularmente diferente?

Não, está tudo ótimo. Estamos a caminho do final. Mas a agenda é bem apertada, temos trabalhado por volta de 15 horas por dia.

Como Blake Lively lidou com a parte física?

Ela foi ótima. Desde que tivesse de salto, ela fazia qualquer coisa. [risos] Ela e Ryan se deram muito bem, o que também foi ótimo e ajudou muito. Ambos tem um senso de humor bem legal.

Vai ter alguma dica que mostre o lado sombrio dela, a Safira Estrela?

Certamente. Se o filme fizer sucesso, tenho certeza que vai ter uma continuação.

Mas e nesse filme?

Não, nesse filme não mostramos nada. Esse filme só apresenta a relação entre os dois. Mas eu tenho quase certeza que se tiver uma continuação, Safira Estrela estará lá.

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