Kore-eda tentou usar IA para revisar roteiro, mas achou sugestões "entediantes": "Ele nunca amou cinema"
Diretor de Sheep in the Box conta à Variety que submeteu o script a um chatbot, mas concluiu que a ferramenta não tem histórico pessoal com o cinema
Créditos da imagem: Divulgação
Em entrevista à Variety, o diretor japonês Kore-eda Hirokazu revelou que submeteu o roteiro de seu filme sobre inteligência artificial, Sheep in the Box, a um chatbot generativo, mas decidiu abandonar a ferramenta após concluir que as sugestões de uma máquina sem histórico pessoal com o cinema não tinham utilidade para ele.
Kore-eda, que receberá o Prêmio Honorário de Cinema no Festival Internacional de Singapura, contou que compartilhou o texto com a IA por conta do tema do longa e trocou mensagens com ela várias vezes, apelidando-a de "Chat-kun". O diretor afirmou que o chatbot fazia muitos elogios e apontava correções precisas, mas que a experiência se tornou entediante justamente por ser sempre tão correta.
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"Ele me elogiou muito. Muitos elogios e depois algo como: 'No entanto, se você desenvolvesse um pouco mais a mãe da protagonista, seria um filme melhor'. O que ele disse estava correto. Mas ele só diz coisas corretas. E eu me perguntei o que era aquilo que tornava tudo tão entediante", contou.
Segundo ele, muitos filmes já são feitos seguindo esse tipo de conselho, resultando em cenas previsíveis, como lutas no teto de um trem que chegam exatamente quando se espera. Kore-eda concluiu que o chatbot provavelmente nunca viveu uma vida que precisasse do cinema. Ele pode ter mais dados sobre filmes do que qualquer espectador comum, mas não tem nenhuma obra que mudou sua vida e nenhum histórico pessoal com a sétima arte.
"Por mais poucos filmes que uma pessoa tenha visto, por mais distorcido que seja seu gosto, a opinião de alguém que tem um filme que mudou sua vida vai levar a um trabalho mais interessante no final. Depois de algumas rodadas, fiquei convencido disso, então encerrei nosso relacionamento ali", disse.
Kore-eda garantiu que não usou IA na produção do filme e que pretende mantê-la fora de seus processos o máximo possível. Para ele, a pergunta sobre o que os humanos "deveriam" fazer no cinema é errada. "Não é porque devemos. É porque é divertido. Da mesma forma, o ato de criar coisas é divertido. Eu gostaria de ficar do lado humano."
O festival também exibirá Look Back, adaptação live-action de Kore-eda para o mangá de Fujimoto Tatsuki, que competiu em Veneza. O diretor revelou que leu a obra durante a pandemia de Covid-19, quando todas as suas produções estavam paralisadas, e que a história o impulsionou a voltar a fazer filmes.
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