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Entrevista

“Uma cena íntima fala mais do que mil monólogos”, diz Karim Aïnouz

Cineasta estreia Rosebush Pruning, seu segundo filme em inglês, no Festival do Rio

Omelete
8 min de leitura
06.10.2026, às 18H00.
Karim Aïnouz durante entrevista ao Omelete, e detalhe do pôster de Rosebush Pruning (Reprodução)

Créditos da imagem: Karim Aïnouz durante entrevista ao Omelete, e detalhe do pôster de Rosebush Pruning (Reprodução)

Karim Aïnouz não acredita em “moldar” o seu trabalho para o mercado estrangeiro. “Se eles quisessem alguém que faz do jeito deles, contratavam diretores de lá”, diz o cearense ao Omelete, refletindo sobre o filme Rosebush Pruning – o seu segundo em língua inglesa, produzido no Reino Unido, que reúne astros como Callum Turner (Animais Fantásticos), Riley Keough (Daisy Jones & The Six), Elle Fanning (Predador: Terras Selvagens) e Pamela Anderson no elenco.

Na trama, uma família aristocrática construída em cima de relações perturbadoras tem suas dinâmicas abaladas quando o irmão mais velho (Jamie Bell) traz para casa uma nova namorada (Fanning). Com muita teatralidade e erotismo, Rosebush Pruning combina o tom intoxicante que virou assinatura de Aïnouz com um texto rigoroso, que passeia pela sátira e pela tragédia sem muita hesitação.

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“A maior dificuldade foi trabalhar dentro desse espaço: como é que você toca tango e dança com ritmo de samba?”, brinca Aïnouz. “Esse filme é muito escrito, tem um monte de diálogo. Para mim, então, o erotismo virou ainda mais uma forma de trazer esse elemento da presença, do corpo, em vez de ficar só na fala.Virou um filme que tem essa mistura, e acho que é isso que ele tem de especial”.

A seguir, confira o papo completo de Aïnouz com o Omelete, conduzido durante o Festival do Rio 2026, onde Rosebush Pruning fez a sua pré-estreia nacional. O longa chega aos cinemas brasileiros em 15 de outubro, com distribuição pela MUBI em parceria com a Filmes do Estação.

OMELETE: Karim, bem-vindo ao Rio com esse filme!

AÏNOUZ: Obrigado, obrigado. 

OMELETE: Bom, esse é o seu segundo em inglês, né? Eu queria saber de você, primeiro, quais são as diferenças de trabalhar em outra língua, talvez com atores que são formados de outro jeito... Como que isso bate em você como diretor?

AÏNOUZ: Olha, eu tento não trabalhar de outro jeito. Eu estou fazendo filmes fora do Brasil exatamente porque acho que tem um jeito que a gente faz cinema que interessa a eles – se não, eles estavam fazendo com os diretores de lá. Então eu sempre tento trabalhar do jeito que trabalho quando estou filmando aqui. Tento garantir que a gente tenha um tempo de ensaio, que a gente passe por todas as cenas e que a gente discuta os personagens… O que tem de diferente nesse ecossistema do filme de língua inglesa é que, às vezes, o ator chega na véspera da filmagem, faz uma prova de figurino, e pronto. Comigo não, eu tento sempre resguardar o tempo da preparação, que eu acho que talvez é o que faz o nosso cinema especial. O cinema brasileiro contemporâneo tem retratos de personagens muito reais, e esses personagens a gente só consegue encontrar no dia a dia. 

Então, eu sempre tento manter esse método de trabalho. Mas o que é mais difícil são duas coisas: uma é a língua mesmo, porque por mais que você domine um idioma estrangeiro, ele ainda é um idioma estrangeiro. Dirigir é um trabalho que vem muito do motor da emoção, da intuição, e pra expressar tudo isso você precisa ser cuidadoso na escolha das palavras, ser o mais claro possível com as pessoas. Isso para mim nunca é fácil, por mais que seja fluente. E a outra coisa que eu acho importante é garantir que o ator fique com você fazendo só aquele projeto durante o tempo que for necessário. Como essa é uma indústria que tem muito dinheiro, geralmente o ator faz um pedaço do teu filme,  vai lá e faz dois dias de uma série... Então não, tento garantir a concentração do ator em um personagem. Talvez pareça algo muito simples de se fazer, mas não é não. [Risos]

Pamela Anderson e Elena Anaya em Rosebush Pruning (Reprodução)
Pamela Anderson e Elena Anaya em Rosebush Pruning (Reprodução)

OMELETE: Por falar em atores, esse filme tem um elenco grande, com nomes que chamam a atenção do público: Callum Turner, Elle Fanning, Pamela Anderson... Eu queria que você falasse um pouquinho sobre o processo de escalar esse filme. Como que uma Pamela Anderson veio parar em Rosebush Pruning, por exemplo?

AÏNOUZ: Se tem duas coisas que mais atraem um ator, são o texto e o diretor. Então, acho que para eles tinha ali uma dupla combinação. Eles se mostraram muito curiosos de saber como é que eu trabalho, como construo personagens, mas tinha um texto também muito específico, muito singular, que não é um texto naturalista, com personagens que são meio fantasiosos. Para atores que estão sempre confrontados a uma tradição de cinema realista, quando aparece algo um pouco mais lúdico e inesperado, vira objeto de fascinação. É algo novo, né? Acho que eles tiveram a possibilidade, especificamente nesse projeto, de fazer algo inesperado, surpreendente, que não é o que eles fazem no dia a dia. Para qualquer artista, na hora que você é colocado numa situação de risco, é o que mais te dá prazer.

OMELETE: Esse é um filme com uma estética muito forte, você falou de como ele tem elementos fantasiosos e teatrais. Como foi trabalhar isso e, a partir do texto, como você chegou na abordagem de tom que você queria fazer?

AÏNOUZ: O que foi mais interessante para mim é que era a primeira vez que eu trabalhava com uma sátira, né? E a sátira sempre trabalha um pouco numa interpretação artificial – ou porque é muito reservada e tem um viés um tanto neutro, ou porque é muito hiperbólica, teatral. E aqui, para mim, eu queria sempre manter num lugar em que, apesar de ser sátira, esses personagens fossem de verdade, de carne e osso. Então, acho que a maior dificuldade foi trabalhar dentro desse espaço. Como é que você toca tango e dança com ritmo de samba, entende? Era um negócio difícil de imaginar, mas que me interessava muito. E foi fascinante ter esses atores, eu os escalei porque eles me pareceram dispostos a experimentar um pouco no tom: se era um pouco mais artificial, ou um pouco mais espontâneo... Essa sensação de procurar algo que não está pronto para eles foi muito interessante para mim, também.

OMELETE: Lendo sobre o filme, desde que ele estreou nos festivais internacionais, a gente vê que o erotismo dele chama muita atenção – e eu acho que isso tem sido algo em comum entre suas obras recentes. Eu queria saber: como você vê o papel do erotismo e do sexo no seu cinema?

AÏNOUZ: Eu acredito que, quanto menos o cinema depender da palavra, melhor. E eu acho que o erotismo é exatamente essa forma de colocar o corpo, a presença e a intimidade na tela. Não são necessariamente cenas de sexo, mas cenas de intimidade. E, para mim, acho que as cenas de intimidade de fato podem substituir dez cenas de diálogo. Cenas de intimidade, e também cenas de dança e de movimento – acho que esse filme é o único dos meus que não tem dança. Mas são cenas onde a gente pode conhecer um personagem muito mais do que num monólogo, por exemplo. Isso é uma coisa que me fascina muito. 

E o engraçado é que esse filme é muito escrito, tem um monte de diálogo. Para mim, então, o erotismo virou ainda mais uma forma de trazer esse elemento da presença, do corpo, em vez de ficar só na fala.Virou um filme que tem essa mistura, e acho que é isso que ele tem de especial, quando a gente fala em adaptação. Ele é a adaptação de um texto clássico de um escritor grego, então foi bonito achar uma maneira de me colocar ali.

Callum Turner em Rosebush Pruning (Reprodução)
Callum Turner em Rosebush Pruning (Reprodução)

OMELETE: Eu mencionei que ele estreou em outros festivais antes... Acho que está sendo uma experiência super única para você, ver esse filme que você fez lá fora, em inglês, ser recebido lá fora e depois vir para o Brasil. Para você, qual é o tesão de trazer esse filme que você fez no exterior aqui para o público brasileiro?

AÏNOUZ: Olha, é muito especial. O primeiro filme que eu fiz totalmente em língua inglesa, Firebrand, foi lançado direto na Amazon [Prime Video] no Brasil, então foi direto para o streaming e não foi exibido em sala. E te confesso que isso me deixou muito triste, porque é como se eu tivesse feito um trabalho que, no Brasil, não foi visto de maneira como ele devia ter sido visto. Então, nesse filme especificamente, eu estou muito feliz que a gente possa lançar o filme em salas de cinema, porque eu queria muito dividir o que eu fiz lá fora com o público brasileiro, entender como o público brasileiro se identifica com o que eu fiz lá fora, se tem algo em comum com o que eu faço aqui. 

Então, me sinto muito feliz da gente estar lançando esse filme daqui a duas semanas, e muito curioso de entender como é que ele vai ser lido. Eu vi uma parte dele agora na estreia no Festival, e foi muito estranho assistir a um filme inteiro falado em inglês, com o público brasileiro, com legendas em português, e falar: "Putz, fui eu que fiz esse filme". Então, eu vou aprender muito com esse lançamento, eu acho, e eu estou só curioso e ansioso para ver como é que o filme vai se comportar na sala de cinema brasileira.

OMELETE: Perfeito, Karim, muito obrigado!

AÏNOUZ: Obrigado!

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