Retorno das bruxas dos anos 1990 só explicitou falhas de Hollywood

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Retorno das bruxas dos anos 1990 só explicitou falhas de Hollywood

Novas versões de Convenção das Bruxas e Jovens Bruxas enfatizam falta de criatividade em Hollywood

Julia Sabbaga
21.11.2020
10h00
Atualizada em
20.11.2020
15h36
Atualizada em 20.11.2020 às 15h36

Não me surpreende que 2020 tenha trazido de volta algumas de nossas bruxas favoritas dos anos 1990 - a Grande Bruxa de Convenção das Bruxas e o quarteto de Jovens Bruxas, talvez as maiores responsáveis pela popularização do tema há algumas décadas. Estamos em uma era de reboots, remakes, sequências e adaptações, e nada mais natural do que Hollywood reacender o interesse por mulheres com poderes sobrenaturais, tema que casa muito bem com outra discussão em alta: o empoderamento feminino. Mas confesso que - como já faço há algum tempo - tremi quando soube que esses dois filmes renasceriam este ano, Convenção das Bruxas com uma nova adaptação e Jovens Bruxas com uma sequência, Jovens Bruxas: Nova Irmandade

Queo livro de Roald Dahl ganhasse uma nova versão não foi exatamente um espanto; Fantástica Fábrica de Chocolates já teve seu remake insatisfatório, e  era apenas uma questão de tempo até que a história de feiticeiras do autor retornasse. Confesso que nesse caso me surpreendi mais com a escalação de Robert Zemeckis para o comando do longa, o que instigou minha curiosidade, já que é o nome por trás de alguns dos mais queridos clássicos do cinema. Já o suspense de 1996 foi um outro caso, mais peculiar: a Blumhouse selecionou o quarteto teen do filme de Andrew Fleming para reviver no mundo atual, quase recontando sua história, não fosse por um pequeno detalhe que torna o novo longa um sucessor do original. São dois casos absolutamente distintos, mas no fim das contas, ambos me deixaram com a mesma sensação: uma pena pelas novas gerações, que não terão bruxas mais interessantes para chamar de suas. 

Não digo isso com apenas estas duas produções em mente. Eu também cresci com Sabrina e Charmed na televisão, duas séries que também ganharam seus reboots nas telinhas recentemente. E independentemente da qualidade das recentes versões, acho válido questionar o desinteresse da indústria em criar novas histórias para um novo público. Claro que existe o eterno fator, que podemos chamar (bem ousadamente) de “preguiça”. É muito mais fácil - e seguro - trazer de volta histórias que já foram elaboradas e criadas por outras mentes, com personagens que já ganharam o carinho do público por seu próprio mérito.

Os dois casos que estreiam este mês não apenas simbolizam essa “preguiça”como representam algo sobre o estado atual do cinema como um todo. E não apenas por seus defeitos - dos quais já falarei - mas tanto Convenção das Bruxas quanto o novo Jovens Bruxas trazem, também, muito dos aspectos positivos da posição de Hollywood hoje em dia. O clássico de Dahl foi recriado com uma família negra e Jovens Bruxas formou o novo grupo de protagonistas de modo representativo, não apenas levando uma atriz trans ao quarteto principal como também dando a um dos principais personagens um arco de aprendizagem sexual que é o melhor ponto do longa. Tudo isso é um passo na direção certa de diversificar tanto rostos quanto histórias que vemos nas telas. E disso as duas produções podem se orgulhar. 

O peculiar caso de Convenção das Bruxas

Mas seus triunfos param por aí. Convenção das Bruxas recontou a história da avó e do neto que se deparam com um encontro de bruxas em um hotel de modo muito semelhante à versão de 1990, década em que, talvez, existisse muito mais ousadia tanto entre os estúdios quanto entre o público. É até curioso comparar a classificação das duas versões: enquanto o filme de 1990, muito mais sombrio, era apropriado para todas as idades, a nova adaptação, que confia muito mais no humor dos ratos e não apresenta nenhum subtexto ambíguo ou sagaz - é classificada para maiores de 10 anos. Aqui, em sintonia com clima de 2020, a produção foi criticada por confiar muito mais no visual para assustar do que no clima. Convenção das Bruxas criou suas antagonistas como personagens que têm apenas três dedos nas mãos, e sua principal vilã com apenas um dedinho no pé, algo que - supostamente - seria aterrorizante para crianças. Não demorou para que o filme fosse alvo de críticas por apostar na condição física como atributo das bruxas. 

O caso não apenas demonstra o contexto em que estamos, em que, sim, é preciso muito cuidado, delicadeza e estudo por trás das grandes produções (felizmente as vozes das minorias já têm um alcance maior), mas também exemplifica uma falta de originalidade e sutileza. Como foi muito bem colocado pelos porta-vozes dos grupos com deficiência, “o assustador está no comportamento, não no visual”. Claro que a Grande Bruxa de Anjelica Huston ficou famosa por sua aparência grotesca no original, mas ela era muito mais ameaçadora por suas ações do que a vilã de Anne Hathaway, em um filme que insiste em retratá-la por seus pés, mãos, ou boca. 

A decepcionante sequência de Jovens Bruxas

Comparado à Convenção das Bruxas, o novo Jovens Bruxas tem problemas de natureza bem diferente. Aqui, o desafio foi dar sequência a uma história única com um roteiro de pouca substância, construindo um novo filme que - assim como muitos outros sucessores - não supera o original em nenhum quesito, e não acrescenta nada que justifique sua existência. Apesar de uma aparente boa-intenção, Jovens Bruxas: Nova Irmandade representa a nova Hollywood muito mais pelo descaso em criar uma história realmente envolvente, apostando unicamente no sucesso do anterior para atrair o público. 

Jovens Bruxas foi lançado em 1996 e conta a história de uma adolescente que acabou de perder a mãe e se muda para uma nova cidade e uma nova escola. Nesse colégio, ela se encontra como parte do grupo de três deslocadas: uma sofre com problemas familiares e financeiros, outra sofre racismo na escola, e a terceira tem cicatrizes graves pelo corpo. Cada uma dessas adversidades é apresentada de modo singelo e desenvolvido naturalmente, e o filme faz um belo trabalho em casar a trama de cada uma em uma narrativa só. Em Nova Irmandade, o diverso grupo de protagonistas não tem nem uma característica que vá além do que vemos na tela. A história, que degringola rapidamente no segundo ato, parece uma série desconjuntada de ideias sem resolução, deixando na mão os poucos espectadores  que tenham simpatizado com o grupo no início. Tudo desemboca na grande resolução que conecta o filme original com o novo, em um artifício que tem pouco - senão nenhum - efeito na trama. 

Depois de todo esse discurso, que pode muito bem ser interpretado como puro saudosismo, ressalto que espero que novas gerações se divirtam e se inspirem com as recentes versões dos filmes que me marcaram há anos. Mas tanto em Convenção das Bruxas quanto em Jovens Bruxas: Nova Irmandade existe sim uma confiança maior no legado do filme antecessor do que uma preocupação real em criar novos personagens que possam conquistar o público com um apelo criativo real. Julgando pela má recepção dessas duas produções pela crítica, ao menos tenho um consolo: a esperança de que os estúdios pensarão duas vezes antes de refazer Da Magia à Sedução.

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