Retorno das bruxas dos anos 1990 só explicitou falhas de Hollywood

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Retorno das bruxas dos anos 1990 só explicitou falhas de Hollywood

Novas versões de Convenção das Bruxas e Jovens Bruxas enfatizam falta de criatividade em Hollywood

Julia Sabbaga
21.11.2020
10h00

Não me surpreende que 2020 tenha trazido de volta algumas de nossas bruxas favoritas dos anos 1990 - a Grande Bruxa de Convenção das Bruxas e o quarteto de Jovens Bruxas, talvez as maiores responsáveis pela popularização do tema há algumas décadas. Estamos em uma era de reboots, remakes, sequências e adaptações, e nada mais natural do que Hollywood reacender o interesse por mulheres com poderes sobrenaturais, tema que casa muito bem com outra discussão em alta: o empoderamento feminino. Mas confesso que - como já faço há algum tempo - tremi quando soube que esses dois filmes renasceriam este ano, Convenção das Bruxas com uma nova adaptação e Jovens Bruxas com uma sequência, Jovens Bruxas: Nova Irmandade

Queo livro de Roald Dahl ganhasse uma nova versão não foi exatamente um espanto; Fantástica Fábrica de Chocolates já teve seu remake insatisfatório, e  era apenas uma questão de tempo até que a história de feiticeiras do autor retornasse. Confesso que nesse caso me surpreendi mais com a escalação de Robert Zemeckis para o comando do longa, o que instigou minha curiosidade, já que é o nome por trás de alguns dos mais queridos clássicos do cinema. Já o suspense de 1996 foi um outro caso, mais peculiar: a Blumhouse selecionou o quarteto teen do filme de Andrew Fleming para reviver no mundo atual, quase recontando sua história, não fosse por um pequeno detalhe que torna o novo longa um sucessor do original. São dois casos absolutamente distintos, mas no fim das contas, ambos me deixaram com a mesma sensação: uma pena pelas novas gerações, que não terão bruxas mais interessantes para chamar de suas. 

Não digo isso com apenas estas duas produções em mente. Eu também cresci com Sabrina e Charmed na televisão, duas séries que também ganharam seus reboots nas telinhas recentemente. E independentemente da qualidade das recentes versões, acho válido questionar o desinteresse da indústria em criar novas histórias para um novo público. Claro que existe o eterno fator, que podemos chamar (bem ousadamente) de “preguiça”. É muito mais fácil - e seguro - trazer de volta histórias que já foram elaboradas e criadas por outras mentes, com personagens que já ganharam o carinho do público por seu próprio mérito.

Os dois casos que estreiam este mês não apenas simbolizam essa “preguiça”como representam algo sobre o estado atual do cinema como um todo. E não apenas por seus defeitos - dos quais já falarei - mas tanto Convenção das Bruxas quanto o novo Jovens Bruxas trazem, também, muito dos aspectos positivos da posição de Hollywood hoje em dia. O clássico de Dahl foi recriado com uma família negra e Jovens Bruxas formou o novo grupo de protagonistas de modo representativo, não apenas levando uma atriz trans ao quarteto principal como também dando a um dos principais personagens um arco de aprendizagem sexual que é o melhor ponto do longa. Tudo isso é um passo na direção certa de diversificar tanto rostos quanto histórias que vemos nas telas. E disso as duas produções podem se orgulhar. 

O peculiar caso de Convenção das Bruxas

Mas seus triunfos param por aí. Convenção das Bruxas recontou a história da avó e do neto que se deparam com um encontro de bruxas em um hotel de modo muito semelhante à versão de 1990, década em que, talvez, existisse muito mais ousadia tanto entre os estúdios quanto entre o público. É até curioso comparar a classificação das duas versões: enquanto o filme de 1990, muito mais sombrio, era apropriado para todas as idades, a nova adaptação, que confia muito mais no humor dos ratos e não apresenta nenhum subtexto ambíguo ou sagaz - é classificada para maiores de 10 anos. Aqui, em sintonia com clima de 2020, a produção foi criticada por confiar muito mais no visual para assustar do que no clima. Convenção das Bruxas criou suas antagonistas como personagens que têm apenas três dedos nas mãos, e sua principal vilã com apenas um dedinho no pé, algo que - supostamente - seria aterrorizante para crianças. Não demorou para que o filme fosse alvo de críticas por apostar na condição física como atributo das bruxas. 

O caso não apenas demonstra o contexto em que estamos, em que, sim, é preciso muito cuidado, delicadeza e estudo por trás das grandes produções (felizmente as vozes das minorias já têm um alcance maior), mas também exemplifica uma falta de originalidade e sutileza. Como foi muito bem colocado pelos porta-vozes dos grupos com deficiência, “o assustador está no comportamento, não no visual”. Claro que a Grande Bruxa de Anjelica Huston ficou famosa por sua aparência grotesca no original, mas ela era muito mais ameaçadora por suas ações do que a vilã de Anne Hathaway, em um filme que insiste em retratá-la por seus pés, mãos, ou boca. 

A decepcionante sequência de Jovens Bruxas

Comparado à Convenção das Bruxas, o novo Jovens Bruxas tem problemas de natureza bem diferente. Aqui, o desafio foi dar sequência a uma história única com um roteiro de pouca substância, construindo um novo filme que - assim como muitos outros sucessores - não supera o original em nenhum quesito, e não acrescenta nada que justifique sua existência. Apesar de uma aparente boa-intenção, Jovens Bruxas: Nova Irmandade representa a nova Hollywood muito mais pelo descaso em criar uma história realmente envolvente, apostando unicamente no sucesso do anterior para atrair o público. 

Jovens Bruxas foi lançado em 1996 e conta a história de uma adolescente que acabou de perder a mãe e se muda para uma nova cidade e uma nova escola. Nesse colégio, ela se encontra como parte do grupo de três deslocadas: uma sofre com problemas familiares e financeiros, outra sofre racismo na escola, e a terceira tem cicatrizes graves pelo corpo. Cada uma dessas adversidades é apresentada de modo singelo e desenvolvido naturalmente, e o filme faz um belo trabalho em casar a trama de cada uma em uma narrativa só. Em Nova Irmandade, o diverso grupo de protagonistas não tem nem uma característica que vá além do que vemos na tela. A história, que degringola rapidamente no segundo ato, parece uma série desconjuntada de ideias sem resolução, deixando na mão os poucos espectadores  que tenham simpatizado com o grupo no início. Tudo desemboca na grande resolução que conecta o filme original com o novo, em um artifício que tem pouco - senão nenhum - efeito na trama. 

Depois de todo esse discurso, que pode muito bem ser interpretado como puro saudosismo, ressalto que espero que novas gerações se divirtam e se inspirem com as recentes versões dos filmes que me marcaram há anos. Mas tanto em Convenção das Bruxas quanto em Jovens Bruxas: Nova Irmandade existe sim uma confiança maior no legado do filme antecessor do que uma preocupação real em criar novos personagens que possam conquistar o público com um apelo criativo real. Julgando pela má recepção dessas duas produções pela crítica, ao menos tenho um consolo: a esperança de que os estúdios pensarão duas vezes antes de refazer Da Magia à Sedução.

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