Joelma Gonzaga, Secretária do Audiovisual do MinC, fala sobre cinema brasileiro
O Agente Secreto concorre em quatro categorias no Oscar 2026
Créditos da imagem: Joelma Gonzaga | Cortesia
Nos últimos anos, o cinema brasileiro vem enfrentando um movimento de crescente popularidade a níveis nacional e internacional.
Lançado em 2024, Ainda Estou Aqui conquistou a crítica e o público ao contar a história real de como o desaparecimento de Rubens Paiva durante a ditadura militar impactou profundamente sua família sob a ótica de sua esposa, Eunice. O filme de Walter Salles levou o Oscar de Melhor Filme Internacional no ano passado.
Em 2025, O Último Azul, dirigido por Gabriel Mascaro, levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, uma vitória que refletiu em seu bom desempenho nos cinemas brasileiros.
Também em 2025, O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho venceu os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor no Festival de Cannes, dando início a uma longa trajetória competitiva que terminará na noite de hoje, com o anúncio dos vencedores do Oscar 2026. O longa concorre às categorias de Melhor Seleção de Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Filme na premiação.
Levando em conta a repercussão do cinema brasileiro mundo afora, o Omelete conversou com Joelma Gonzaga, Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, sobre a importância do investimento na produção audiovisual nacional para que novas oportunidades continuem surgindo para nossos artistas. Leia na íntegra:
Omelete: Hoje, quais você considera os principais fatores por trás de um ecossistema saudável na produção audiovisual? O que não pode faltar para continuarmos nessa boa fase?
Joelma Gonzaga: Um ecossistema audiovisual saudável depende, antes de tudo, de políticas públicas estruturadas e estáveis, que garantam previsibilidade de investimento e permitam que produtoras, realizadores e empresas planejem suas atividades no longo prazo.
Nos últimos anos, nosso esforço foi reconstruir esse ambiente. Entre 2023 e 2025 mobilizamos mais de R$ 5,7 bilhões para o audiovisual, combinando recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e das leis de incentivo. Esse movimento permitiu reativar editais, retomar linhas de financiamento e impulsionar a produção no país.
A Secretaria do Audiovisual também conduz ações estruturantes com impacto de médio e longo prazo. Um exemplo é o retorno da linha de Arranjos Regionais, com R$ 542 milhões em recursos federais, somados a mais de R$100 milhões de contrapartida de 41 entes federativos.
Mas o financiamento não é o único elemento. Um ecossistema saudável também depende de diversidade territorial, formação profissional, distribuição e acesso do público às obras.
Por isso, retomamos linhas de comercialização pelo FSA e programas de difusão, como o Rouanet Festivais Audiovisuais, que fortalece festivais de cinema como importantes janelas de circulação e formação de público.
Hoje já podemos afirmar que o audiovisual brasileiro vive um novo ciclo de produção, com centenas de obras sendo realizadas e presença crescente em festivais e mercados internacionais.
Omelete: Há um esforço claro pela internacionalização do mercado brasileiro. Qual você diria que é o grande objetivo dessa iniciativa?
Joelma Gonzaga: A internacionalização é hoje uma estratégia central para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro. O setor se tornou global, e os países que fortalecem suas indústrias são justamente aqueles que conseguem ampliar a circulação de suas obras e estabelecer parcerias internacionais.
O Brasil voltou a participar ativamente de organismos e instâncias internacionais. Tivemos presença expressiva em Cannes, com o Brasil como país homenageado do Marché du Film em 2025, realizamos missão para a China e retomamos nossa atuação em espaços como a RECAM (Mercosul) e o Programa de Fomento à Produção e à Teledifusão do Documentário (CPLP Audiovisual).
Também retomamos programas de internacionalização em parceria com a APEX, além de ações com o Ministério das Relações Exteriores em iniciativas bilaterais e anos culturais.
Participar de mercados como Cannes, Berlim ou Toronto significa posicionar o Brasil como um parceiro relevante na indústria global. Isso amplia oportunidades de coprodução internacional, circulação de filmes brasileiros e atração de investimentos para o país.
Outro passo importante é a construção da Film Commission Nacional, que vai articular governo federal, estados e municípios para facilitar filmagens e atrair produções internacionais.
Uma produção audiovisual mobiliza serviços, turismo, tecnologia e empregos. O Brasil tem diversidade cultural e paisagens extraordinárias, e nosso objetivo é transformar esse potencial em presença concreta no mercado internacional.
Omelete: Neste mundo em que estúdios internacionais estão sendo vendidos e o streaming cresce rapidamente, pode-se dizer que o futuro do cinema também passa pela saúde do setor exibidor. O que é importante fazermos para preservar os cinemas e a ida das pessoas às salas?
Joelma Gonzaga: Sem dúvida. As salas de cinema continuam sendo parte fundamental da cadeia audiovisual. O crescimento do streaming transformou a forma como o público consome conteúdo, mas a experiência coletiva do cinema segue sendo central para a valorização das obras e para a formação de público.
Por isso, uma das prioridades das políticas públicas é fortalecer o setor exibidor. Isso inclui medidas como a cota de tela para o cinema brasileiro, investimentos em distribuição e políticas que ampliem o acesso ao cinema em diferentes regiões do país.
Um dado importante é que um mapeamento recente identificou cerca de 500 salas públicas de cinema no Brasil, localizadas em universidades, centros culturais e equipamentos públicos.
Esse levantamento abre novas possibilidades para ampliar a circulação de filmes brasileiros e levar cinema a regiões que ainda têm pouca oferta de salas comerciais. Preservar as salas de cinema é também preservar a diversidade cultural do audiovisual brasileiro.
Omelete: Os últimos dois anos foram marcados por grande reconhecimento internacional do cinema brasileiro. Quais são os próximos passos para que esse momento não seja uma exceção?
Joelma Gonzaga: Eu não vejo esse momento como algo isolado. Ele é resultado da força criativa do cinema brasileiro aliada à reconstrução das políticas públicas do setor.
Nos últimos anos, voltamos a estruturar instrumentos importantes de financiamento e planejamento para o audiovisual. Apenas nas chamadas públicas de 2024 e 2025 foram apoiadas 852 obras, entre cinema, televisão e produções para plataformas digitais.
O próximo passo é consolidar esse ciclo por meio de políticas de longo prazo. Um exemplo é o Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035, construído com a participação de mais de 800 profissionais do setor, que estabelece metas estratégicas para o desenvolvimento da indústria audiovisual brasileira na próxima década.
Também estamos ampliando as políticas de difusão e criando novas ferramentas de acesso ao público, como a Plataforma Tela Brasil, um serviço público de streaming gratuito com catálogo 100% brasileiro previsto para 2026. Nosso objetivo é transformar o momento atual em um ciclo permanente de crescimento do audiovisual brasileiro, e não em um fenômeno passageiro.
Omelete: Em 2025, filmes como O Agente Secreto e O Último Azul levaram vozes nordestinas para o topo do cinema internacional. Como garantir que o sucesso do cinema brasileiro continue vindo de todas as regiões do país?
Joelma Gonzaga: A nacionalização dos investimentos é hoje um dos eixos centrais da política audiovisual brasileira. Durante muito tempo, a produção esteve concentrada principalmente no eixo Rio–São Paulo. Nos últimos anos temos trabalhado para ampliar o acesso ao financiamento público e fortalecer cadeias produtivas em diferentes regiões do país.
Um exemplo importante são os Arranjos Regionais do Audiovisual, política que articula o Ministério da Cultura, a Ancine, estados e municípios.
A iniciativa mobiliza R$ 542 milhões em recursos federais, com 41 propostas selecionadas, participação de 25 estados e 18 municípios. O impacto esperado é significativo: a política deve apoiar cerca de 261 longas-metragens, além de 80 telefilmes, 89 obras seriadas e 129 projetos de distribuição e comercialização.
Cerca de 70% dos recursos estão direcionados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, justamente para reduzir desigualdades históricas no acesso ao financiamento.
Quanto mais plural for o cinema brasileiro, mais forte ele será culturalmente e mais competitivo se tornará no cenário internacional. Estamos vendo surgir uma nova geração de realizadores em diferentes territórios do país, e esse é um dos movimentos mais interessantes do audiovisual brasileiro hoje.