Jack Ryan: Guerra Fantasma diverte, mas pede mais do que entrega
Filme do Prime Video reúne o trio de sempre e aposta nas cenas de ação, mas perde fôlego onde a série era mais forte
Há algo de confortável em rever Jack Ryan (John Krasinski), Mike November (Michael Kelly) e James Greer (Wendell Pierce) dividindo cena novamente. Depois de quatro temporadas construindo essa dinâmica na série do Prime Video, a transição para o formato de longa-metragem em Jack Ryan: Guerra Fantasma parecia o passo natural para uma franquia que encerrou seu ciclo televisivo com fôlego ainda sobrando. O problema é que, ao tentar se reinventar como filme de ação, a produção acaba trocando o que sempre foi seu maior trunfo por uma corrida que não para o suficiente para respirar.
A trama retoma o analista da CIA de onde a série parou. Forçado a voltar ao campo após uma missão internacional revelar uma conspiração envolvendo uma unidade rebelde de operações táticas, Jack precisa agir rápido e com os recursos de sempre: sua inteligência, a experiência de Greer e a frieza pragmática de November. O trio funciona. Sempre funcionou. E há prazer genuíno em assistir aos três navegando pelo caos com a familiaridade de quem já esteve nessas situações antes.
Onde o filme tropeça é no ritmo. Guerra Fantasma é acelerado demais para o próprio bem. Há cenas de ação e perseguição bem construídas, com competência técnica clara, mas a narrativa não dá tempo para que a conspiração central respire ou ganhe o peso que merecia. Na série, era justamente essa capacidade de desenvolver a trama em camadas ao longo dos episódios que tornava os conflitos mais envolventes. No longa, tudo precisa caber em menos de duas horas, e o roteiro sente esse aperto.
Essa pressa afeta diretamente na dinâmica entre Greer e o vilão vivido por Max Beesley. O passado sombriu envolvendo a dupla, que traz novas camadas à personalidade de Greer, merecia mais tempo de tela (ou flashbacks) para ser melhor desenvolvido. Há uma questão ideológica que motiva não apenas as ações do antagonista, mas que afetam diretamente a relação entre o diretor da CIA e Jack Ryan - ambos, inclusive, protagonizam uma das discussões mais ricas de toda a franquia por causa disso. Uma boa ideia que, se fosse melhor trabalhada, poderia dar ainda mais substância à tensão envolvendo os protagonistas, seus traumas e arrependimentos.
A chegada de Emma Marlowe (Sienna Miller), agente do MI6 que se torna a parceira improvável de Jack, é um dos pontos mais promissores do filme. A química entre Sienna e Krasinski existe e aparece nas cenas que compartilham. O problema é que Marlowe fica escanteada ao longo da narrativa, com tempo de tela reduzido que não faz jus ao que a personagem poderia oferecer. É um desperdício sentido, principalmente porque o filme claramente abre espaço para ela em momentos pontuais e depois a coloca de lado sem muita justificativa.
É difícil não pensar que Guerra Fantasma seria mais interessante como uma quinta temporada da série. O material está lá: um arco pessoal para Jack, a reunião do trio, uma nova aliada com potencial. Em formato de série, cada um desses elementos teria espaço para se desenvolver. Como filme, parecem ingredientes certos numa receita executada com pressa demais.
Jack Ryan: Guerra Fantasma entrega o que promete para quem busca entretenimento de ação competente com personagens já conhecidos. Krasinski segura o papel com a autoridade de sempre, Kelly é confiável como o parceiro impassível e Pierce traz o peso emocional necessário ao trio. Mas quem foi fiel à série vai sair com a sensação de que essa missão merecia mais do que recebeu.
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