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Ingrid Guimarães e Chay Suede vestem-se com trapos nas filmagens de O Sofá

Comédia de Bruno Safadi ironiza a destruição política da moral carioca

Rodrigo Fonseca
18.12.2017
18h01
Atualizada em
18.12.2017
18h01
Atualizada em 18.12.2017 às 18h01

Até sábado, quem andar pelas ruas do Rio de Janeiro, de bobeira, pode esbarrar com Ingrid Guimarães, a mais rentável comediante de nosso cinema, e Chay Suede, um dos galãs classe AA da TV, caminhando por aí em trajes que mais parecem com os de moradores de rua em condição de pobreza extrema. Até o fim de semana eles cruzarão a Cidade Maravilhosa carregando uma poltrona velha, bem sujinha. É ela o foco da dramaturgia de O Sofá, comédia de baixíssimo orçamento pilotada pelo diretor Bruno Safadi (Éden) com foco nas falências morais dos cariocas.

"Vão ser seis dias de guerrilha, mas é muito bom encarar um filme diferente das comédias que faço, quando o roteiro é bom", diz Guimarães, que estreia neste Natal um candidato a blockbuster: Fala Sério, Mãe!, com Larissa Manoela. "Sempre que eu posso atravessar a calçada e ir para o outro lado do cinema, numa linha mais autoral, como a do Safadi, eu vou".

A julgar pelo clima bem-humorado das filmagens do domingo, a descontração é o motor de O Sofá, produzido pelo judoca aposentado Cavi Borges (Guerra do Paraguay). A produção é uma espécie de parte dois do longa O Prefeito, que representou o Brasil em importantes festivais no exterior, em 2015 e 2016. Tanto que o protagonista de lá, o alcaide cheio de TOCs vivido por Nizo Neto, volta aqui, acompanhado por um fiel mordomo (Gustavo Novaes). Ele é o algoz da dupla formada pelo pescador Pharaó (Chay) e por uma ex-professora sem teto, Joana D’Arc (Ingrid), cuja casa foi removida pela Prefeitura.

"Estamos contando a saga de dois personagens, digerindo a história deles desde a premissa, quando ainda fazíamos O Novo Mundo", diz Chay.

No enredo criado por Safadi, ele pesca um sofá que Joana D’Arc reconhece como sendo o da casa dela. Para azar desta ex-educadora que já não tem mais bens materiais, um ex-aluno dela que virou bandido, Ronaldinho (João Pedro Zappa), vai aparecer em seu caminho.

"O Prefeito e O Sofá formam as partes iniciais de uma trilogia sobre a destruição que estou preparando com foco na luta pela propriedade", diz Safadi, que usa diferentes filtros de cor para traduzir o estado de espírito do RJ e de seus saltimbancos degredados. "Essa trama é uma forma de falar da destruição do Rio, da destruição do respeito ao cidadão. É uma forma de pensar a situação de nosso país e discutir o quanto nossa sociedade ficou doente sem amor".

Inspirado em Ernest Lubitsch (Madame DuBarry) e Jean-Luc Godard (Bande à Part), Safadi filma O Sofá como um dos vértices da nova edição do projeto Tela Brilhadora. Esse é o nome de um exercício de produção aplicado por ele e seus parceiros Julio Bressane e Rodrigo Lima para filmar longas de custo microscópico em uma semana de trabalho. Bressane acabou de rodar Sedução da Carne, com Mariana Lima, e Rodrigo vai rodar Calipso. No caso de Safadi, a presença de astros famosos como Chay e Ingrid aporta maior visibilidade para este formato avesso às convenções mais industriais de nosso audiovisual.

"As pessoas não são prateleiras: embora seja muito engraçada e faça muito sucesso, Ingrid é mais do que cinema comercial, é uma atriz capaz de ir além dos rótulos. Chay também", diz Safadi. "A presença dela num filme de invenção como o meu me traz algo que não tenho: e não é público; é repertório... repertório de experiências”.