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Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

19 anos depois, Harrison Ford reassume o chicote e o chapéu

Marcelo Hessel
21.05.2008
18h00
Atualizada em
21.09.2014
13h36
Atualizada em 21.09.2014 às 13h36

Indiana Jones demorou 19 anos para retornar ao cinema porque, entre outros fatores, o produtor George Lucas, o protagonista Harrison Ford e o diretor Steven Spielberg não conseguiam chegar a um consenso a respeito do MacGuffin.

("MacGuffin" é um termo inventado por Alfred Hitchcock para denominar todos aqueles objetos que movem uma trama adiante: representam tudo para o herói, como a defunta do vizinho de Janela Indiscreta e a pedra de urânio de Interlúdio, mas são desimportantes para o espectador, que está mais interessado no conflito, em saber como o herói reage a essa trama.)

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Nos três Indiana Jones de 1981, 1984 e 1989, os MacGuffins são os tesouros: respectivamente, a Arca da Aliança, as pedras Sankara e o Cálice Sagrado. Para o quarto filme, Lucas queria colocar ETs no meio; Ford e Spielberg, nem tanto. Eles chegaram a um consenso que é o tal crânio translúcido de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

O que você precisa saber de antemão sobre a trama do quarto filme está escrito aí em cima. Porque, meio que renegando a lição de Hitchcock, os tesouros da franquia são tudo o que interessa não só para o arqueólogo como também para o espectador. Os Caçadores da Arca Perdida é um vaivém de capturas e fugas cujo fim é descobrir que diabos existe dentro do baú bíblico. Entre tiroteios e perseguições, Henry Jones Jr. nunca corre perigo de fato. O único risco é não consumar o MacGuffin.

Honrando o filme B

Nesse sentido, os 27 anos que separam o primeiro do quarto filme da série nem parecem tanto tempo assim. A estrutura de Reino da Caveira de Cristal é idêntica à de Caçadores da Arca Perdida: mocinhos e vilões disputando terreno numa corrida que só vai ser resolvida na curva final. A diferença é que no novo jogo de gato e rato (Indy sempre tem os vilões esperando do lado de fora das "tocas" onde ele resolve charadas e encontra seus tesouros, e não há imagem mais Tom & Jerry do que essa) saem os nazistas e entram os soviéticos.

O letreiro que diz "Nevada, 1957" no início do filme nem era necessário. Sabemos que estamos nos anos 50 pelo sucesso de Elvis que toca no carro, e esse não é o único dado contextual que Reino da Caveira de Cristal nos dá em sua brilhante exposição inicial. Ao mostrar russos disfarçados de estadunidenses, Spielberg sintetiza a paranóia da Guerra Fria: mesmo num racha inofensivo no meio de uma estrada deserta, o perigo era latente. O cara do lado pode sempre ser um comunista, e às vezes é mesmo.

Não era minha intenção transformar esta crítica numa peça de defesa, mas Indiana Jones é um evento midiático, todos formam uma opinião - e há no meio disso tudo um ponto a se contra-argumentar. Muita gente diz que as caveiras de cristal são fantasiosas demais. Ora, as caveiras estão em total sintonia com a época em que o filme se passa. Se Os Caçadores da Arca Perdida, ambientado nos anos 30, era uma homenagem às aventuras pulp da literatura daquela década, Reino da Caveira de Cristal evoca o filme B de ficção científica dos anos 50 com exatidão.

Em clássicos como A Ameaça que Veio do Espaço (It Came from Outer Space, 1953) ou Vampiros de Almas (The Invasion of the Body Snatchers, 1956), as invasões alienígenas são metáforas para o perigo comunista. Neste Indiana Jones, Lucas e Spielberg só enxugam a equação: dispensam o que há de metafórico e mantêm a analogia. A cena em que a oficial russa vivida por Cate Blanchett diz, com delicioso sotaque boratiano, que vai entrar nas mentes das pessoas com os poderes da caveira é uma pérola B por excelência.

O alienígena

Ver que Reino da Caveira de Cristal tem um compromisso não só com a mitologia de Indiana Jones - a sonoplastia dos socos continua a mesma! - mas também com a própria história do cinema é um alívio. Mas o filme está longe de ser perfeito. A entrada de John Hurt como o professor Oxley desestabiliza a partir do terceiro ato o "núcleo familiar" dos Jones. Se há um alienígena na história é o tal Oxley. Havia ali um espaço reservado a Sean Connery. Com a recusa do ator escocês em voltar ao papel do pai de Indiana Jones, o roteiro passou por uma revisão para encaixar outro personagem em seu lugar, e o remendo é mal feito. Como assim o cara chega na boca do tesouro e decide dar meia-volta?

É um buraco e tanto no roteiro - assinado por David Koepp depois de passar por muitas mãos -, especialmente porque estamos tratando de um tipo de roteiro firmemente focado no MacGuffin, e que depende demais do bom funcionamento das peças criadas, como o professor, em função desse MacGuffin. Oxley é um parafuso que roda em falso dentro de uma engrenagem, no geral, bem azeitada. Harrison Ford dá conta do recado. O vigor não é o mesmo, mas ele continua correndo resfolegante com os braços meio abertos, traço chapliniano do personagem que o ator não esqueceu nestes 19 anos. Aliás, dos outros tiques de Indy ele também lembra, e é suficiente.

Ao excelente timing de comédia de Ford adiciona-se o domínio que Spielberg tem da ação. Está aí uma coisa que dá gosto de ver e que, ao contrário da fotogenia dos astros, não envelhece com o tempo: o talento para saber onde colocar as câmeras numa sequência de luta, talento para cortar ou deixar o plano correr mais um pouco para criar o efeito desejado. Spielberg está bem como sempre na coreografias das perseguições, e as cenas da moto no campus da universidade, com gente entrando por uma janela e saindo por outra, são coisa de quem conhece comédia física porque assistiu a muito cinema mudo, e sabe o que faz.

No fundo não é isso o que interessa em um filme de Indiana Jones? O humor pastelão no meio de uma cena agitada, os tiros que não acertam nunca ninguém, a tensão sexual com a bela vilã, a sombra do chapéu no enquadramento metricamente pensado, um bicho exótico subindo pelas costas do coadjuvante, o choque verídico de dois veículos que nenhuma computação gráfica consegue reproduzir... A nostalgia pode ser um negócio perigoso: supervalorizar a mítica do herói e exigir mais de um filme de Indiana Jones do que ele se propõe a entregar é um risco.

Se o que importa é entretenimento bem executado, passível de falhas, com Reino da Caveira de Cristal a série pode então se considerar honrada.

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