Boots Riley relaciona I Love Boosters com eleição de Lula: “O trabalhador tem o poder”
Diretor esteve no Brasil para sessão especial do filme na Mostra de São Paulo
Créditos da imagem: Boots Riley durante entrevista ao Omelete (Reprodução)
Boots Riley acredita que seu novo filme, I Love Boosters, oferece uma visão de como as pessoas comuns podem provocar transformações no mundo - especialmente quando se trata de relações de trabalho e desigualdade social.
Em entrevista ao Omelete durante sua passagem pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Riley comentou sobre os temas do filme - que acompanha uma trupe de ladras de loja em conflito com uma estilista poderosa -, e até fez um paralelo com a mais recente eleição presidencial do Brasil, vencida por Luís Inácio Lula da Silva (PT).
Confira o trecho da conversa a seguir!
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OMELETE: Fiquei muito tocado pela forma como I Love Boosters retrata a luta de classes, e pela mensagem de que todos os trabalhadores estão do mesmo lado, no final das contas. O quanto essa mensagem é importante para você e o que a trouxe para o primeiro plano enquanto você escrevia?
RILEY: É muito importante para mim, porque costumamos falar sobre todos os problemas que temos com frequência, mas não falamos necessariamente sobre como vamos mudá-los. Qual é a alavanca de poder que temos em mãos? Embora muitas pessoas saibam disso, não nos organizamos necessariamente dessa maneira. Então, é importante para mim mostrar essas alavancas – eu entrei para a arte por causa disso. As ideias contidas no meu trabalho são a razão pela qual estou envolvido com ele, e acho que tenho muita experiência em trabalhá-las de um jeito divertido. O motivo de ser divertido é justamente porque são questões sobre as quais todos nós pensamos o tempo todo, mas frequentemente a arte tenta se afastar dessas coisas e rodear o assunto – e é por isso que ela parece vazia.
A verdade é que o nosso poder está em termos a capacidade de reter a nossa força de trabalho. Temos o poder de paralisar a indústria, se precisarmos, se estivermos organizados o suficiente. Essas coisas são fundamentais, porque há muitos problemas que surgem sobre os quais você pode dizer: "Olha, se nos organizássemos no ambiente de trabalho, não haveria nada a ser discutido ali". Você pode até pegar, por exemplo, o caso dos Estados Unidos e Israel atacando o Irã, certo? O que fez os Estados Unidos hesitarem não foi o Irã lançando mísseis de volta, foi a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz, o que interromperia o lucro. A classe trabalhadora pode fazer isso milhares de vezes mais caso se organize. Essas coisas me empolgam na vida, elas me tornam otimista. É daí que vem a estética dos meus filmes: um otimismo realista, sabendo que vai dar trabalho para chegar. E não precisamos apenas nos organizar no local de trabalho; precisamos de radicais nesse trabalho!
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OMELETE: Trazer I Love Boosters para o Brasil neste momento é bastante oportuno, pois estamos na reta final de uma eleição que foca muito nesses temas que você acabou de mencionar. O que você espera que I Love Boosters transmita ao público brasileiro?
RILEY: Apenas que esta é uma opção no cardápio. Na verdade, é o prato principal, é a única coisa que temos neste restaurante: a luta de classes. Pensando, por exemplo, em algumas das políticas que o Lula está tentando implementar. Se a classe trabalhadora conseguisse paralisar, não sei, a indústria da carne aqui, e impedir os carregamentos e transportes de acontecerem, ela conseguiria reunir todo o apoio necessário para qualquer uma dessas políticas. O que estou dizendo soa para algumas pessoas como algo muito distante no futuro, mas não é, tudo isso poderia mudar em poucos anos de mobilização.
A resposta sincera para todas essas questões é que eu não sei, porque não sou daqui. Não sei, mas acho — com base no que vejo ao redor do mundo — que este é um tema comum: as pessoas estão tentando entender, todo mundo está de saco cheio de como as coisas estão. Estamos todos em busca de respostas sobre como fazer as coisas mudarem. Acho que até a esquerda tem se resumido muito ao espetáculo, a uma questão de mostrar de que lado estamos. Há vinte anos, nos EUA, o foco era tentar parar a Guerra do Iraque, pensando: "Talvez, se colocarmos 500 mil pessoas nas ruas, eles fiquem envergonhados. Talvez se colocarmos 750 mil, talvez 1 milhão...". Chegamos a colocar cerca de 3 milhões de pessoas nas ruas, e nada mudou, porque não é aí que está o poder. O poder não está em erguer nossas vozes; o poder está no nosso papel dentro desta economia e em como podemos nos organizar em torno disso.
*I Love Boosters foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e chega aos cinemas em 19 de novembro, com distribuição da Universal Pictures.
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