Homem-Aranha superou Vingadores. O que isso diz sobre cinema de heróis?
O recorde de Homem-Aranha: Um Novo Dia em meio às dificuldades de Marvel e DC mostra que os super-heróis deixaram de ser um fenômeno único. Agora, como no terror, cada franquia precisa provar a própria força
Durante muito tempo, Hollywood tratou o filme de super-herói como algo maior do que um gênero. Era uma força dominante, quase um modelo de negócio capaz de transformar qualquer personagem em evento desde que ele carregasse o logotipo certo. O desempenho de Homem-Aranha: Um Novo Dia, porém, ajuda a enterrar essa ideia. As estimativas de US$ 167 milhões em seu primeiro dia nos Estados Unidos, superando Vingadores: Ultimato, não provam que a crise acabou, mas algo contrário: o gênero pode estar em baixa enquanto uma de suas maiores franquias quebra recordes. São duas coisas diferentes e definidoras.
O cinema de super-herói já tem características próprias o suficiente para ser reconhecido como gênero. Há uma linguagem visual, conflitos de identidade, figuras de origem, códigos morais, vilões que funcionam como reflexos do protagonista, uniformes, poderes e uma escalada de ação que leva invariavelmente ao extraordinário. Dentro dessa estrutura cabem comédia, terror, espionagem, romance ou ficção científica, da mesma maneira que um faroeste pode ser também um drama e um terror pode assumir a forma de sátira. Dizer que "filmes de boneco" formam um gênero não significa afirmar que todos são iguais. Significa reconhecer que eles compartilham um conjunto de regras, quase uma gramática visual e narrativa.
A partir daí, fica mais fácil entender por que o sucesso de um Homem-Aranha não recupera automaticamente Supergirl, Homem-Formiga ou Quarteto Fantástico. O gênero tem suas marcas de primeira prateleira, como Batman, Homem-Aranha e Vingadores, capazes de mobilizar um público que ultrapassa o fã habitual. Outras ainda precisam construir essa relação. Thunderbolts terminou sua passagem pelos cinemas com cerca de US$ 382 milhões, enquanto Quarteto Fantástico: Primeiros Passos chegou a US$ 522 milhões, números consideráveis para quase qualquer produção, mas problemáticos diante de orçamentos próximos de US$ 200 milhões e da expectativa criada pela Marvel.
O paralelo mais simples está no terror. Uma sequência de Halloween, Pânico ou O Exorcista pode fracassar sem que ninguém anuncie a morte dos filmes de terror. Algumas séries atravessam décadas, outras desaparecem e novas marcas surgem com propostas menores, baratas e muito específicas. Invocação do Mal começou com orçamento de US$ 20 milhões e deu origem a um universo de mais de US$ 2 bilhões. Noite do Crime nasceu por US$ 3 milhões e virou uma franquia de cinco filmes. M3GAN custou US$ 12 milhões, arrecadou US$ 182 milhões e, mesmo assim, tropeçou na continuação. O gênero permanece e quem varia de força são os títulos dentro dele.
É esse tipo de ecossistema que o cinema de herói começa a consolidar. Existem os gigantes que justificam investimentos enormes, os personagens intermediários que precisam de controle e as apostas que podem nascer sem a obrigação de salvar um universo inteiro. O primeiro Deadpool custou cerca de US$ 58 milhões antes de arrecadar US$ 782 milhões. Coringa reduziu a escala, afastou-se do modelo tradicional de aventura e transformou um vilão conhecido em um drama criminal para adultos. Cara de Barro, com orçamento estimado em torno de US$ 40 milhões, parte da mesma lógica: utilizar a familiaridade com esse universo sem exigir o tamanho, o risco e a fórmula de um blockbuster de US$ 200 milhões.
O problema é que parte dos fãs e da própria indústria ainda enxerga cada lançamento como capítulo de uma única história. Isso faz sentido porque a Marvel construiu sua hegemonia exatamente assim, conectando filmes até transformar Ultimatoem conclusão coletiva de uma experiência de 11 anos. O sucesso foi tão absoluto que todos tentaram reproduzi-lo. Só que uma conexão que antes funcionava como recompensa virou tarefa de casa, e a necessidade de criar capítulos deixou a criatividade em segundo plano, assim como a qualidade visual, o VFX, o roteiro e até o marketing. Quando qualquer produto precisa apresentar personagens, alimentar séries, preparar continuações e prometer um evento futuro, ele deixa de disputar apenas duas horas do espectador. Ele cobra na verdade uma assinatura emocional de longo prazo que boa parte do público já não quer renovar - basta o punhado de streamings que bate na conta todo mês.
A resposta dos estúdios começa a aparecer na forma mais hollywoodiana possível: menos filmes, franquias mais claras, continuações diretas e histórias que não exigem um mapa para serem compreendidas. É o que o cinema americano sempre fez com James Bond, Jurassic Park e Velozes e Furiosos. O público não precisa acompanhar todos os agentes secretos do cinema para assistir a 007, nem conhecer um universo compartilhado de dinossauros antes de comprar um ingresso para Jurassic World. Homem-Aranha ocupa hoje esse lugar. Ele pertence ao MCU, mas sua força não depende inteiramente dele. O personagem tem imaginário, conflitos, vilões e gerações próprias. A Marvel ajuda o Homem-Aranha, mas o Homem-Aranha já não precisa ser carregado pela Marvel.
Essa consolidação é boa para o cinema de herói, e até para o cinema como um todo. O MCU foi o Big Bang que espalhou personagens, formatos e possibilidades por toda a indústria, mas nenhum Big Bang permanece para sempre em estado de explosão. O que vem depois é a formação de sistemas diferentes, alguns enormes, outros menores, alguns estáveis e muitos fadados ao desaparecimento. Os super-heróis continuarão entre as maiores forças de bilheteria e popularidade do cinema, só não farão isso de maneira inequívoca, automática ou livre de fracassos. E ainda bem. É o erro que obriga Hollywood a baixar orçamentos, procurar novas linguagens e apostar em outros artistas. Um gênero de verdade não sobrevive porque tudo funciona, e sim porque sempre existe espaço para tentar de novo.
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