Homem-Aranha e Obsessão provam que o público não trocou o cinema pelo streaming
Com mais lançamentos, sucessos de diferentes gêneros e uma geração em busca de experiências coletivas, 2026 consolida a recuperação das salas. E ainda terá Vingadores e Duna
Durante boa parte desta década, a discussão sobre cinema deixou de ser quais filmes fariam sucesso para saber se "o cinema ia sobreviver". A pandemia interrompeu produções, fechou complexos e acelerou a chegada dos grandes lançamentos ao streaming. Quando a indústria começava a se reorganizar, as greves de roteiristas e atores paralisaram Hollywood novamente em 2023. O fim, de fato, parecia próximo e não faltavam manchetes para decretar isso.
A greve do Writers Guild of America, o Sindicato dos Roteiristas de Hollywood, durou 148 dias. A do SAG-AFTRA, dos atores, 118. O impacto atravessou os anos seguintes, adiando produções e esvaziando calendários. A recuperação de todo o cinema, portanto, nunca dependeu somente de convencer o público a voltar. Era preciso oferecer filmes em quantidade, variedade e regularidade.
E é aí que entra 2026 na história. Pela primeira vez desde a pandemia, o mercado parece ter uma oferta compatível com a demanda - e também com as mudanças de comportamento do consumidor. Há animações, terror, ficção científica, filmes de autor e grandes franquias chegando às salas sem depender de um único título para sustentar o mercado. Se o cinema não se tornou a opção número 1, pelo menos ela voltou a ser protagonista.
Homem-Aranha pode superar Barbenheimer sozinho
O maior símbolo desse momento é Homem-Aranha: Um Novo Dia. O filme protagonizado por Tom Holland já arrecadou cerca de US$ 2,4 bilhões e ocupa a terceira posição entre as maiores bilheterias da história. Está a pouco mais de US$ 20 milhões dos US$ 2,423 bilhões somados por Barbie e Oppenheimer. Como permanece em cartaz, deve superar sozinho o acumulado final de Barbenheimer. Os números atualizados foram divulgados pela Deadline.
A comparação não diminui o fenômeno de 2023. Barbie e Oppenheimer transformaram dois lançamentos completamente diferentes em uma experiência coletiva. O desempenho de Homem-Aranha mostra que aquela mobilização não foi uma exceção impossível de repetir.
A Odisseia, de Christopher Nolan, reforça essa percepção. O épico de quase três horas já soma US$ 1,627 bilhão e ultrapassou o próprio Homem-Aranha na arrecadação do último fim de semana mundial. Juntos, os dois filmes já passaram de US$ 4 bilhões.
O público voltou para filmes diferentes
Talvez a principal notícia de 2026 esteja além desses blockbusters. Toy Story 5 ultrapassou US$ 1,13 bilhão, enquanto Super Mario Galaxy: O Filme passou de US$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, Obsessão, um terror de escala menor, chegou a aproximadamente US$ 505 milhões. Backrooms, baseado em um fenômeno nascido na internet, alcançou US$ 394 milhões. No começo do ano, a ficção científica da Amazon MGM, Devoradores de Estrelas, fez US$ 684 milhões. Ainda teve Michael, a cinebiografia do Rei do Pop, que ultrapassou US$ 1 bilhão mundialmente.
Os números mostram que não existe somente um modelo funcionando, e essa é a maior e melhor notícia pro cinema. Há espaço para animações familiares, franquias conhecidas, espetáculos autorais e filmes de gênero. O público não voltou apenas para um lançamento específico, voltou porque existem filmes suficientes para reconstruir o hábito e que justifiquem o preço da experiência em si.
O verão no hemisfério norte de 2026 arrecadou aproximadamente US$ 4,61 bilhões na América do Norte, crescimento de 26% em relação ao ano anterior e o melhor resultado para o período desde 2013, segundo a Associated Press. No acumulado anual, o mercado já ultrapassou US$ 7 bilhões e caminha para um crescimento vertiginoso, visto que Duna e Vingadores ainda estreiam em dezembro.
O cinema não precisava derrotar o streaming
Mesmo com tudo isso, é indiscutível que o streaming continua sendo o meio mais acessível de consumo - seja pelo preço, seja pela experiência. Uma pesquisa da AP-NORC mostrou que 75% dos adultos norte-americanos assistiram a algum lançamento pelas plataformas em um período de 12 meses, contra 66% que viram um filme recente no cinema.
O que parece desgastado é a ideia de que o streaming seria a única resposta para o futuro do audiovisual. O aumento dos preços, a fragmentação dos catálogos e a necessidade de administrar várias assinaturas tornaram essa relação mais instável. Segundo levantamento divulgado pela TV Tech, 74% dos entrevistados cancelaram pelo menos um serviço em 2025.
Os estúdios também voltaram a entender que a passagem pelos cinemas aumenta o valor de um filme quando ele chega ao streaming. A sala não precisa ser uma concorrente da plataforma, mas a primeira etapa de uma trajetória capaz de gerar bilheteria, relevância cultural e audiência digital.
A geração Z quer experiências coletivas
Um levantamento da Cinema United mostrou que a frequência da geração Z nos cinemas cresceu 25% em um ano. A média passou de 4,9 para 6,1 visitas anuais, enquanto 41% dos jovens disseram ir ao cinema pelo menos seis vezes por ano.
Outra pesquisa da Fandango, repercutida pelo The Guardian, apontou que 87% da geração Z havia ido ao cinema nos 12 meses anteriores. Entre as razões estão a possibilidade de se afastar do celular e participar de uma experiência compartilhada. É um momento de pausa, e mesmo que não seja para isso - como no fenômeno de Minecraft nos cinemas - justifica-se pelo momento coletivo.
Não se trata de uma rejeição ao digital. Redes sociais, Letterboxd, YouTube e TikTok frequentemente despertam o interesse que leva o público até as salas. O comportamento começa na internet e termina em uma experiência presencial. Em um cotidiano dominado por telas individuais e consumo fragmentado, assistir a um filme coletivamente voltou a ter valor.
2026 ainda não terminou
E claro, existe pelo menos mais quatro meses de bilheteria e o calendário ainda reserva Vingadores: Doutor Destino e Duna: Parte Três, dois lançamentos com potencial para ampliar um ano que já é histórico.
A bilheteria não significa que todos os problemas foram resolvidos. Os ingressos continuam caros e muitas produções intermediárias ainda enfrentam dificuldade. Grandes nomes como He-Man, Star Wars, Supergirl e Moana fracassaram de forma retumbante, por exemplo. Mas 2026 mostra que o cinema não precisava derrotar o streaming para sobreviver, mas sim reconstruir seu calendário e voltar a oferecer experiências que justificassem sair de casa.
Barbenheimer mostrou que essa experiência coletiva ainda existia. Homem-Aranha, A Odisseia, as animações e os fenômenos do terror mostram que ela pode se repetir em diferentes gêneros e escalas. Se Vingadores e Duna confirmarem seu potencial, 2026 será lembrado como o ano em que a recuperação finalmente se transformou em consolidação.
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