Halloween/Coringa/Homem de Ferro 3

Créditos da imagem: Universal Pictures/Warner Bros./Marvel Studios/Divulgação

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O retrato prejudicial da saúde mental em Hollywood

Acidentalmente ou não, indústria do entretenimento popularizou alguns dos principais estigmas relacionados a doenças psicológicas

Nico Garófalo
27.09.2021
17h18

Embora tenha evoluído timidamente nos últimos anos, a abordagem da saúde mental nunca foi um grande forte de Hollywood. Assim como qualquer característica que fuja da compreensão de “normal” do homem cisgênero, heterossexual e branco, patalogias psicológicas são tratadas no entretenimento de forma estereotipada, perpetuando um estigma que se enraizou profundamente na sociedade ocidental.

Há uma generalização por parte da indústria sobre aqueles que sofrem de algum problema psicológico, que vão da extrema fragilidade à vilanização. Essas visões preconceituosas estão entre as principais causas para a popularização de falácias como “depressão é frescura” e “psiquiatra é médico de louco”, assustadoramente populares por causa de retratos errôneos dos efeitos que esses problemas têm em pacientes.

Homem de Ferro 3, por exemplo, tratou o estresse pós-traumático de Tony Stark (Robert Downey Jr.) de maneira extremamente superficial. Mesmo que esclareça a causa das crises de pânico do herói, o filme não aborda qualquer tipo de acompanhamento ou tratamento que justifique sua “cura” antes dos créditos rolarem. A “terapia” de Tony, inclusive, é tratada de forma jocosa na cena pós-créditos, quando é revelado que o Vingador Dourado procurou Bruce Banner (Mark Ruffalo) para falar de seus problemas. Imprimindo irresponsavelmente um heroísmo na recusa por ajuda profissional, o longa faz da estabilidade uma consequência de força de vontade, ignorando as dificuldades de quem convive com estresse pós-traumático e indiretamente reforçando a visão de que um tratamento apropriado, com ou sem medicamento, é desnecessário.

A “solução” simplista para distúrbios psicológicos pode ser encontrada até em filmes cujo retrato dos pacientes em si é saudável. O Lado Bom da Vida, por exemplo, tem o cuidado e a delicadeza de não deixar seus personagens principais, vividos por Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, serem reduzidos à depressão ou transtorno bipolar, desenvolvendo-os para além destas questões. Ao mesmo tempo, o longa se prende à noção de que uma relação romântica é sinônimo de felicidade e seu final dá a entender que os problemas dos protagonistas foram curados pelo namoro dos dois.

Essa visão superficial do tratamento psicológico é mais presente ainda na TV. Full House, Pretty Little Liars, Uma Galera do Barulho, Smallville e até Lizzie Mcguire usaram tramas envolvendo depressão, dependência química e distúrbios alimentares de maneira corriqueira e de desenvolvimento limitado a um único episódio.

A associação de distúrbios psicológicos à violência

Uma tendência extremamente ligada (mas não limitada) ao terror é associar a violência praticada pelos vilões a seus problemas psicológicos. A Visita, por exemplo, usa uma visão generalista e clichê da esquizofrenia, praticamente reduzindo o distúrbio a alucinações e impulsos homicidas. Erro similar pode ser encontrado no clássico Psicose, quando o psiquiatra vivido por Simon Oakland explica os atos de Norman Bates (Anthony Perkins) como consequência de seu Transtorno Dissociativo de Personalidade. A justifica rasa e generalista do filme de Alfred Hitchcock reforçou estereótipos antigos associados ao tratamento de pacientes de manicômios, vistos como indivíduos perigosos e sem capacidade de compreender a realidade. Além disso, a produção de 1960 popularizou o uso pejorativo de “psycho”, usado na língua inglesa para definir qualquer pessoa cujo comportamento fugisse de um padrão determinado.

A franquia Halloween sofre do mesmo mal. Cada ação violenta de Michael Myers é seguida de uma reafirmação de seus distúrbios, reforçando o estigma e o tabu que cerca a discussão da saúde mental. O “assassino louco”, como qualquer outro estereótipo, se tornou atalho para autores e roteiristas introduzirem criminosos sanguinários sem precisar se preocupar em desenvolver outros aspectos de suas personalidades. Mesmo Coringa, que ao menos procura mostrar a vida de Arthur (Joaquin Phoenix), não resiste a essa abordagem, com seu personagem principal se tornando um assassino de sangue frio logo que abandona qualquer tipo de acompanhamento.

Apesar de se tratarem de obras feitas apenas para o entretenimento, o fato de se utilizarem de estereótipos batidos e antiquados apenas reforça a visão problemática que culturas de todo o mundo têm em relação à saúde mental. Infelizmente, a cultura pop tem, por meio da vilanização de pacientes e problematização de tratamentos, propagado um tabu que, mesmo com o crescimento do acesso a informações e campanhas de conscientização, segue solidificado no imaginário do público geral.

O Centro de Valorização à Vida tem canais abertos 24 horas por dia com pessoas preparadas e dedicadas a dar apoio emocional e prevenir o sucídio. O serviço é voluntário e gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do CVV, pelo telefone no número 188 e em postos de atendimento espalhados por todo o Brasil. Vale lembrar também que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acompanhamento psicológico e psiquiátrico gratuito, incluindo os medicamentos que os profissionais julgarem necessários.

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