Grace Passô estrela seu 1º filme de terror: “Quando era mais nova, não gostava”
Atriz falou ao Omelete sobre A Professora de Francês e sua estreia na direção com Nosso Segredo
Créditos da imagem: Grace Passô em A Professora de Francês (Reprodução)
Grace Passô credita o filme Corra! (2017), de Jordan Peele, como o grande responsável por sua aproximação do terror – um gênero do qual, como ela mesma contou ao Omelete em entrevista durante o Festival do Rio 2026, ela nunca se considerou uma grande fã.
“Eu fui me aproximar do terror com essa leva mais nova de filmes, que começou a associar o terror com a nossa vida cotidiana, sabe?”, conta ela, que agora estreia um filme fortemente calcado no gênero, A Professora de Francês. “Claro que o Corra! não inaugurou, na história do filme, esse tipo de conflação, mas foi um título marcante. Acho que ele nos lembra que o nosso cotidiano, a nossa realidade, é um terror também”.
Em Professora, Passô interpreta a personagem-título, que se vê enredada no culto religioso vizinho à casa do seu pai, que está passando por uma emergência de saúde. Desesperada por ajuda – no sentido financeiro e emocional –, a professora aceita que aquelas pessoas entrem em sua vida, mas logo começa a perceber o lado sombrio do fanatismo religioso.
Confira a conversa completa abaixo, onde a atriz também reflete sobre Nosso Segredo, seu filme de estreia na direção, que saiu premiadíssimo do último Festival de Gramado.
OMELETE: Bem-vinda ao festival, Grace! Muito bom falar com você, e mais ainda sobre esse filme tão interessante que é A Professora de Francês. É um filme que aborda cultos, espiritualidade alternativa, um tópico que ficou super quente nessa era do true crime. Você tinha fascinação pelo tema, já? Como foi que isso bateu pra você?
PASSÔ: Caio, eu sempre li esse tipo de história, sobre esse tipo de religião ou culto, como uma metáfora para a ideia do fanatismo. Inclusive nesse filme, desde o início, o Germano [Melo, roteirista] e o Ricardo [Alves Jr., diretor] me falaram que tudo o que víamos no texto era criado. É uma ficção, um culto que não existe, mas ele foi criado justamente para isso, para conseguir falar do fanatismo sem ligar diretamente com uma religiosidade específica. Até para falar assim do quanto o fanatismo pode estar em qualquer religião, né? E isso tem a ver com um assunto que está muito em voga nas nossas vidas hoje, na política também. O fanatismo é um conceito muito presente. Então, não é só sobre um culto para mim, é uma oportunidade de falar sobre outras coisas.
OMELETE: E eu acho também muito interessante que, por causa desse tema, o filme vai resvalando no thriller, no suspense, no terror. Esse é um gênero que você curte assistir, como espectadora, e um gênero que você curte trabalhar como atriz?
PASSÔ: Eu fui me aproximar do terror com essa leva mais nova de filmes, que começou a associar o terror com a nossa vida cotidiana, sabe? Aí tem o nosso – hoje já clássico – Corra!, por exemplo. Claro que ele não exatamente inaugurou, na história do filme, esse tipo de conflação, mas foi um título que me aproximou do terror. Acho que ele nos lembra que o nosso cotidiano, a nossa realidade, é um terror também.
Agora, quando eu era mais jovem, tinham muitos desses filmes de gênero que me davam medo – eu não gostava não, me recusava a assistir. [Risos] Mas quando o terror começou a vir de uma forma mais consciente, politizada, eu comecei a me aproximar. Hoje eu acho que tem dois jeitos que o cinema e a arte geral se expressam que eu gosto muito: um é o deboche, e o outro é o terror. São expressões que estão muito próximas de como o mundo está hoje, e acho que elas nos ajudam a criar uma linguagem, uma catarse em relação às coisas que a gente sente.
E, como atriz, eu nunca tinha feito nada de terror. Acho muito legal também ter vivido uma atuação dentro de um universo com códigos tão estabelecidos, assim… porque são códigos mesmo, né? E que estar dentro deles de alguma forma desenha, propõe modos de atuar diferentes, que se comuniquem com uma memória que a gente tem dos filmes de terror.
OMELETE: Este ano também você fez sua estreia na direção, com Nosso Segredo. Eu queria saber: por que agora, e por que esse projeto? É uma história que você leu e bateu muito forte em você, você quis trazer para a tela?
PASSÔ: Nosso Segredo tem uma história longa! A partir de 2016 eu comecei a me aproximar do cinema, e nos últimos anos comecei a tentar me aproximar dessas funções de direção, roteiro… E aí, para fazer isso, eu recorri a escritas que eu já tinha feito para o teatro. Então primeiro foi um média-metragem que eu fiz, chamado Vaga Carne, depois um curta [República] a convite do IMS [Intituto Moreira Salles], durante a pandemia. Foram algumas experiências, assim, em cinema - e aí surgiu o Nosso Segredo. Ele foi um dos primeiros textos de teatro que eu tinha escrito, em 2005, na época em que eu estava dentro de um grupo. Então essa história nasceu, para mim, há muito tempo atrás. O que eu fiz foi uma espécie de reescrita para o cinema.
OMELETE: E eu acho incrível que o Nosso Segredo passou em Berlim, ganhou prêmio em Gramado… é um começo muito auspicioso para você como diretora de longas. Então, obviamente, acho que a pergunta que todo mundo vai fazer é: você já tem o projeto do próximo filme? O que está rolando aí na sua cabeça para essa carreira de direção?
PASSÔ: Eu tenho vários projetos assim, né? Tenho vários roteiros, ideias, mas está tudo muito esboçado ainda… Foi uma experiência muito importante para mim dirigir Nosso Segredo, muito reveladora, muito interessante também para a minha vida de atriz. É uma coisa que eu já vivia no teatro, fazer essas funções diferentes – e que, de alguma forma, por eu ter vivido lá e por viver isso lá, comecei a fazer isso no cinema também. Mas sim, tem um monte de projeto, essa minha cabeça não para de pensar nas coisas. [Risos]
OMELETE: Perfeito. Muito obrigado, Grace, e parabéns por todos os projetos.
PASSÔ: Obrigado, Caio! Bom trabalho e bom festival.
*A Professora de Francês foi exibido no Festival do Rio 2026. A estreia no circuito comercial está prevista para o início de 2027.
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