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Entrevista

Gnomeu e Julieta | Omelete entrevista Elton John

Compositor fala sobre a criação da trilha sonora, experiência em O Rei Leão e trajetória pessoal e profissional

Christina Radish
03.03.2011
19h40
Atualizada em
03.11.2016
00h01
Atualizada em 03.11.2016 às 00h01

Nossos correspondentes em Los Angeles, do site Collider, tiveram a oportunidade de conversar com Elton John, durante o evento para a divulgação de Gnomeu e Julieta, uma versão animada da clássica tragédia de William Shakespeare, Romeu e Julieta.

O cantor e compositor foi responsável pela criação da trilha sonora da animação, ao lado de seu parceiro de longa data James Newton Howard. Na entrevista, Elton John falou sobre seu trabalho no filme, o dueto com Lady Gaga em "Hello, Hello", música que entrou no filme mas não foi lançada no álbum da trilha sonora. E ainda sobrou tempo para comentar sua trajetória pessoal e profissional, seu cargo de produtor-executivo e planos para projetos futuros e sua cinebiografia.

Gnomeu e Julieta

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Elton John

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Elton John

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Elton John, em sua versão gnomo

Elton John

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Elton John e David Furnish, produtores

Como foi revisitar algumas de suas músicas clássicas para esse filme? Como você decidiu o que usar e o que não usar?

ELTON JOHN: Bem, originalmente a trilha sonora não seria toda com minhas músicas. Mas quando Dick Cook, dos Estúdios Disney, realmente tomou as rédeas desse projeto, sugeriu que escrevessemos novas músicas para o filme e sugeriu que fosse uma parceria entre Bernie Taupin e eu, que me pareceu uma boa ideia. Eu nunca tinha feito isso antes. Pedi ajuda para James Newton Howard, que é um arranjador bem famoso em Los Angeles e já fez parte da minha banda. Me dou muito bem com ele. Tinha uma música que era perfeita para o filme, "Saturday Night's Alright for Fighting", para a sequência da corrida de cortadores de grama. Isso não foi minha ideia, foi ideia de Kelly [Asbury]. Desse ponto em diante, eu realmente entreguei nas mãos do time para que eles escolhessem as composições que melhor se encaixavam em cada cena. Por exemplo, não fui eu que escolhi "Benny and the Jets" para entrar na cena onde Benny está no computador encomendando Terrafirminator [o cortador de grama super destruidor], mas obviamente funcionou. Não era necessário ser um mágico pra saber que aquilo funcionaria ali. Mas no todo, eu acho que eles fizeram um ótimo trabalho porque, apesar de quase todas as músicas serem de nosso repertório anterior, com algumas músicas novas, não senti que ficou um filme "Elton John". Fiquei contente que terminou assim porque eu não queria que fossem só músicas de catálogo.

Como surgiu a ideia para o dueto com a Lady Gaga?

A ideia do dueto surgiu comigo a amarrando e batendo na cabeça dela e dizendo "faz essa música comigo?". Não. Ela foi até minha casa no ano passado. Nós fazemos um baile em casa todo ano, para arrecadar dinheiro para AIDS. Nós mencionamos o filme para ela e ela disse "Eu adoraria fazer!". Pelo fato da agenda dela ser tão lotada, ela acabou gravando entre shows, um pouco na Escandinávia e um pouco em Nova York. Nós gravamos a música completamente separados, mas ela adicionou tanto da própria mágica para a música e deu uma nova vida ao som. Obviamente, a música foi pensada como um dueto e eu estava procurando por alguém para cantar. Pelo fato de ela ser uma das minhas novas melhores amigas e eu a amo até a morte, foi bom vê-la tão animada para gravar. Isso foi realmente um grande bônus para nós, e funcionou brilhantemente.

Você gosta de jardinagem?

Eu cresci na casa da minha vó e ela tinha um jardim lindo. Eu odiava ter que cortar a grama e tirar as ervas daninhas, que é o que você faz quando é criança. Eu detesto jardinagem, mas amo jardins e tenho dois jardins lindos. Eu não suporto jardinagem, mas amo jardins.

Parece que existe subtexto entre os Vermelhos contra os Azuis, em relação com o que está acontecendo nos EUA. Isso foi proposital?

Não. Nós começamos a trabalhar no filme há 11 anos e, se tivéssemos tido a perspicácia de prever isso, diria que somos uns gênios. Apenas coincidiu que o filme foi lançado após o presidente [Barack Obama] ter feito seu discurso em Tucson, o que foi um momento muito importante na história dos Estados Unidos. Eu realmente sinto que haja uma mensagem no filme, que nós passamos tanto tempo odiando uns aos outros só porque nossos pais dizem que é isso que temos que fazer. Eu cresci com os ideais do partido Conservador [partido político do Reino Unido] somente porque minha mãe tinha ideais do partido Conservador, mas assim que perscebi o que isso significava, mudei logo de ideia. Crianças tendem a copiar os pais. Eu acho que essa trama diz que todos temos que nos dar bem, tanto faz sermos protestantes, católicos, muçulmanos ou judeus. Ou se somos Democratas ou Republicanos. Nos EUA, isso acabou se espalhando tanto, a retórica ficou tão perigosa. Se existe uma mensagem nesse filme, que é uma grande coincidência causada pelo momento de lançamento, então sou totalmente a favor dela. Conforme envelheço, me entristece ver um país que eu amo tanto ter um abismo tão grande entre as pessoas. Eles não se encontram no meio do caminho entre os dois extremos para conversar e resolver as diferenças. Eu toquei em um show beneficente contra o Proposition 8 [referendo votado em 2008 na California, contra o casamento gay, que validou apenas o casamento entre um homem e uma mulher como união legal] e os dois grandes advogados que estão lutando a favor do casamento gay [estão em lados opostos], um deles é Republicano convicto e o outro é Democrata.. Ainda assim, ambos acreditam que essa seja a coisa certa a se fazer. A vida é assim, não é somente ódio. Esse filme passa uma mensagem positiva, mas é realmente uma grande coincidência.

Ter se tornado pai recentemente fez parte do processo de criação das músicas?

Não muito porque escrevemos essas músicas há muito tempo. Eu nunca pensei sobre isso. Você tem que escrever as músicas com muita antecedência, pois está escrevendo para os storyboards e existe um certo posicionamento. Na verdade, nós escrevemos quatro músicas para o filme e duas delas não foram utilizadas. Uma era uma ótima música cantada pela Lily Allen. Mas os storyboards mudaram, a história evoluiu e algumas coisas foram deixadas para trás. Você tem de aceitar isso quando está escrevendo para um musical ou um filme animado que leva música.

Agora que você é pai, pretende fazer mais trabalhos em prol das crianças?

Eu já faço muitas coisas para as crianças com a fundação contra AIDS. Tenho diversos afilhados. Não é como se não houvessem crianças na minha vida, elas sempre estiveram presentes na minha vida, ao longo dos últimos anos. David [Furnish, parceiro de Elton John] tem vários sobrinhos e sobrinhas. Nunca pensei que fosse ser pai, mas fiquei muito feliz em ter mudado de ideia. Crianças são extremamente importantes, elas são o futuro do mundo. Desde que eu e David consigamos criar nosso filho para que ele seja um garoto carinhoso e compassivo, ficarei feliz. Amo crianças.

Como você utilizou sua experiência em O Rei Leão nesse projeto? O que você conseguiu aprender? Você começou a apreciar mais animações depois de Gnomeu e Julieta?

O Rei Leão me foi oferecido em 1993, graças a Tim Rice. Eu sempre colaborei com trilhas sonoras em minha carreira de músico e adorei a experiência e a jornada com todos em O Rei Leão. Sou um cara de equipe, é por isso que gosto de fazer musicais. Eu sempre tive um parceiro para escrever músicas e eu acho que o que mais se aprende com isso é deixar o ego de fora. Em Billy Elliot, nós não utilizamos três ótimas músicas. Elas teriam deixado o espetáculo com quatro horas e dois minutos. Você tem que estar preparado para dizer "eu realmente vou lutar por essa música, mas se você realmente não quiser utilizá-la, tudo bem". Você tem que ouvir a opinião do time, como um todo. Fizemos tantas reuniões durante esses 11 anos, e o filme acabou tomando um curso diferente. Você tem que saber como fazer parte de um time e tem que saber lidar quando as coisas estão indo mal, assim como quando está tudo indo bem. Você tem realmente que apoiar todos na equipe. Eu tive a sorte de conseguir ter o mesmo parceiro de composição durante 44 anos. É apenas outro modo de dividir a ótima experiência que é criar. Mas você realmente deve deixar o ego de fora. Eu não posso dizer "ou essa música entra, ou estou fora do filme", não existe nada disso. Você tem de ser paciente e ver como as coisas se desenvolvem. Você tem que estar ali para o todo, não só por você.

Essa é a primeira vez que você foi produtor-executivo de um filme?

Foi sim. Eu tenho uma produtora com David [Furnish] chamada Rocket Pictures. Esse é o terceiro filme da empresa, mas é a primeira vez que eu fui produtor-executivo.

Como é ser produtor-executivo?

Eu não fiz absolutamente nada! Eu só ganhei o título, aí tive que sair em turnê e disse "continuem trabalhando"!

Neste ponto da sua carreira, como você se sente no palco?

Eu me sinto muito mais confortável hoje em dia. Eu sempre gostei de tocar ao vivo, porque nunca sabe como aquela performance vai ser. Em algumas noites, você sobe no palco, faz a performance e se sente ótimo. Às vezes, acaba não sendo tão bom quanto você esperava que seria. Às vezes, pode ser que você esteja cansado e o show fique ótimo. É o desconhecido. Quando você é um performer, não sabe como será sua performance, sabe apenas que tem potencial para entregar um show de qualidade. Conforme fui envelhecendo, fiquei muito mais confortável comigo mesmo. Agora, quando saio do palco, tenho um equilíbrio na minha vida que só consegui encontrar em 1990. Vou correndo pra casa depois de cada show e volto para minha própria cama. Tenho um ótimo parceiro e ótimos amigos. Consigo lembrar das coisas. Não uso mais drogas. Consigo lembrar as letras das músicas, é ótimo! É sensacional as coisas que aconteceram comigo nos últimos anos. De verdade, quando mais velho fico, acho que canto cada vez melhor ao vivo. Eu curto mais. Há uns oito anos, fiz cirurgia de correção de vista. Agora eu consigo ver os cartazes dos fãs e isso faz uma grande diferença. Eu realmente aprecio minha performance agora. Valorizo muito isso.

Uma das coisas que o público tem realmente elogiado na sua música é a variedade, não só de álbum para álbum, mas de música para música. Qual é a explicação para sua grande habilidade eclética?

Principalmente o fato de que, quando criança, eu cresci numa casa onde se ouvia muito rádio e LPs. Eu cresci nos anos 50 então era ou música clássica, ou grandes vocalistas como Frank Sinatra. Eu ganhei "Songs for Swinging Lovers" de aniversário quando tinha por volta de uns oito anos. Quando o rock 'n' roll surgiu, eu já tinha todo um conhecimento sobre os grandes cantores estadunidenses, líderes de bandas e músicos de jazz, mas o rock mudou minha vida e todo o cenário musical para sempre. Aí eu comecei a apreciar o R&B, Motown e música gospel. Eu nunca descarto qualquer forma de música, ouço de tudo. No momento, eu estou ouvindo o novo álbum do Kanye West, por exemplo. É um disco genial. Eu participei do álbum do Alice in Chains. Eu amo todos os diferentes tipos de música. As pessoas que zombam do rap e dizem que não gostam deveriam ver Kanye ou Eminem em estúdio, cantando rap. É um fenômeno. É como o jazz moderno era quando John Coltrane e todas aquelas outras pessoas o criaram. Eu adoro o novo, adoro a energia. Tem um novo álbum do Plan B que eu tenho ouvido, chamado "The Defamation of Strickland Banks". Está em primeiro lugar na Inglaterra e vai ser lançado aqui [nos EUA] em março. É de um cara que interpretou o vilão de Harry Brown, o filme com Michael Caine. Ele já tinha feito um álbum de rap e agora ele fez esse álbum, que parece com Smokey Robinson, e é maravilhoso. Tem uma banda chamada The Punch Brothers, que são ótimos. É nisso que eu estou interessado ultimamente. Eu conheço todas as coisas antigas, mas quero a energia do novo e das coisas ecléticas. Eu aceito as bandas, como The XX, que vieram do Reino Unido, e Florence and the Machine. Eu tinha uma ótima energia aos 20 anos, quando trabalhava com adrenalina e era isso que me motivava. Depois dessa fase, você acaba perdendo um pouco essa adrenalina. Os novos são muito importantes, são eles que te dão energia. Se você não nota os novos e não os dá crédito, então acaba perdendo algo.

Você já fez quase tudo que um artista pode fazer. Ainda tem algo que falta realizar?

Bem, sempre tem mais coisas que você quer fazer. Ballet obviamente não é uma opção. Eu realmente gostaria de fazer um filme sobre a história da minha vida, e estamos pensando sobre isso. Já temos um ótimo roteiro de Lee Hall, que também escreveu Billy Elliot . É óbvio que não vai ser um filme comum, minha vida foi uma loucura e eu acho importante fazermos uma coisa mais surrealista. Eu adoraria fazer isso. Em 1993, eu recebi uma ligação de Tim Rice onde ele me disse "você gostaria de fazer O Rei Leão?" quando, na época, tudo o que eu fazia era gravar álbuns, fazer turnês e filmar videoclipe. Aquele telefonema me deu a oportunidade de escrever musicais para teatro e fazer trilhas sonoras. Eu não sei o que vem por aí e é assim que eu gosto. Não dá pra planejar, minha carreira não foi planejada, simplesmente aconteceu. Um projeto pode mudar sua vida por completo, é o que eu penso. Eu não tenho mais grandes ambições além de trabalhar e fazer coisas incríveis. Estou curtindo tudo em minha vida, mas é o elemento da surpresa que me faz realmente amar meu trabalho. Um dia você está sentado ao lado do telefone, esperando uma ligação, no outro você tem a melhor oportunidade de sua vida. Essas pequenas ligações não são tão frequentes, mas quando elas chegam, é fantástico. Em 1990, se você me dissesse que, em 1993 eu estaria escrevendo uma música sobre um javali, eu teria dito que você estava louca. Em 1990, se você tivesse dito que eu faria um filme sobre gnomos de jardim, eu teria dito que você estava louca. Isso que é o legal em ser uma pessoa criativa, as coisas que vem até você podem te surpreender imensamente, e você normalmente nunca teria nem sonhado sobre aquilo.

Quem você gostaria que interpretasse você no filme?

Bem, James [McAvoy] poderia me interpretar. Ele já se ofereceu.