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George Lucas - O caminho até a Força

George Lucas - O caminho até a Força

Ederli Fortunato
16.05.2005
00h00
Atualizada em
18.11.2016
15h05
Atualizada em 18.11.2016 às 15h05

George Lucas em Modesto, Califórnia.

Look of Life, 1965

Electronic Labyrinth:
THX-1138 4EB
, 1970

THX-1138, 1971

American Graffiti, 1971

American Graffiti, 1971

Com Alec Guiness no set
de Star Wars, 1976


Star Wars, 1977

Entre as maquetes de
O retorno de jedi, 1983


Com Bill Moyers e Joseph
Campbell, final da década de 1980


Com Steven Spielberg e
Harrison Ford


Com Ian McDiarmid no set
de Episódio III, 2004

Para os fãs de Star Wars, tudo se deve a um Fiat.

Era esse o carro que o jovem George Walton Lucas Jr. dirigia quando - com a cabeça tomada por motores, carros e corridas - quase morreu num acidente em uma pequena estrada de sua cidade natal, Modesto, na Califórnia.

O longo período de recuperação, além do sinal claro de que a morte ronda quem se diverte envenenando o próprio carro e correndo com ele em provas contra o relógio, mudou as coisas para o rapaz.

Ao sair do hospital, ficou dois anos no Modesto Junior College e descobriu que a faculdade poderia ser diferente do colégio, onde suas notas não eram nada "estelares". Assim, foi aceito na San Francisco State para o curso de inglês, já que seu novo sonho era tornar-se um escritor. O desejo vinha dos cursos de redação e de antropologia, onde foram estudados os contos folclóricos e o livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Um amigo de infância, no entanto, deu-lhe a idéia de tentar a escola de cinema da University of Southern California, onde ele poderia combinar seu desejo de escrever com seu interesse pela fotografia.

No verão de 1964, o garoto do norte da Califórnia, uma região onde vivem pessoas que não se entendem muito bem com o pessoal do sul do mesmo estado, mudou-se para Los Angeles. Na universidade, rival da UCLA onde Francis Ford Coppola estava alguns anos à frente, o instrutor Herb Kossower deu aos alunos um minuto de filme com a tarefa de que deveriam explorar o funcionamento da câmera. O filme de Lucas, Look at Life, foi inscrito pelo professor em vários festivais e ganhou um prêmio em cada um deles. “Descobri que havia me encontrado. Eu adorava trabalhar com filme e era muito bom nisso”. (George Lucas – The Creative Impulse).

Finada a vida de estudante, Lucas entrou para o mercado de trabalho aceitando postos como câmera de segunda unidade, editor ou grip, os homens que carregam coisas nas filmagens. Também começou a lecionar como professor assistente na escola de cinema para um grupo de alunos, no mínimo, estranho: câmeras da Marinha e dos Fuzileiros Navais. A idéia era mostrar aos experientes militares que, em filmagem, havia espaço para agir fora das regras. Lucas dividiu a sala em dois grupos para que cada um produzisse um filme, um exercício no uso da luz. Os homens do grupo diretamente ligado ao professor filmaram o curta Electronic Labyrinth THX 1138 4EB, um projeto no qual George Lucas já trabalhava há algum tempo.

Depois da curta carreira de professor, uma profissão que ele até hoje descreve como “os verdadeiros heróis do nosso mundo”, Lucas decidiu permanecer na USC. Lá, produziu um documentário, The Emperor, sobre um DJ que se intitulava The Emperor Hudson, alguns curtas, e fez a edição e som de uma sátira aos filmes de Michelangelo Antonioni chamada Marcello, I’m Bored, de John Milius (segundo trabalho do futuro diretor de Conan).

No final de 1967, com vários prêmios do National Student Film Festival no bolso, incluindo um na UCLA, onde um estudante chamado Steven Spielberg o cumprimentou pela vitória, George Lucas ganhou uma bolsa para um estágio na Warner Brothers. Jack Warner havia acabado de vender o estúdio, por isso, apenas um filme estava sendo produzido por lá. Finian’s Rainbow, estrelado por Fred Astaire e dirigido por Francis Ford Coppola, o homem que se diz responsável por Lucas ter tanto cuidado com dinheiro.

Foi também Coppola, na época em constante discussão com os contadores do estúdio, quem convenceu a Warner a assinar um contrato para que o estagiário transformasse THX em um longa metragem. O contrato permitiu que Lucas fizesse parte da equipe de doze pessoas com a qual Coppola filmou The Rain People, com James Caan. Durante as filmagens, Lucas acordava às quatro da manhã para escrever THX até as sete, hora de pegar no batente como assistente de som, de câmera, ou seja lá o que fosse preciso. Apesar de odiar falar em público, Lucas chegou até a ir a uma convenção em São Francisco no lugar de Coppola.

Nessa convenção conheceu um produtor independente chamado John Korty, que lhe contou como era seu estúdio: um celeiro alugado por cem dólares ao norte da cidade. Animado, Lucas chamou Coppola e os dois visitaram as instalações de Korty em 4 de julho de 1969. “Se você pode fazer isso, eu também posso”, comentou Coppola, que na época incentivava Lucas a escrever seus próprios roteiros.

O desejo de ter um local para trabalhar longe dos executivos de Hollywood aliado a uma seqüência de empréstimos feitos pelo financeiramente bagunçado Coppola fez nascer o American Zoetrope. A empresa reuniu vários colegas de escola, incluindo John Milius, que trabalhava com Lucas no roteiro do que seria Apocalypse Now. Enquanto isso, a produção de THX 1138 começou e o filme, juntamente com outros roteiros nos quais a Zoetrope estava trabalhando, foi levado à Warner por Coppola. O estúdio detestou tudo e exigiu que o dinheiro investido nos filmes fosse devolvido. Assim, THX 1138 foi lançado com cinco minutos cortados pelo estúdio e foi um fracasso de bilherias. No entanto, foi aceito no festival Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes. Empolgado, Lucas decidiu torrar todos os 2 mil dólares que tinha no banco para ir ao Festival com sua esposa Márcia, a futura montadora de Star Wars e a mulher que o trocou por um homem mais jovem.

Nesse ponto, os amigos se separaram. Coppola foi tentar reverter suas finanças com um filme de gângster, enquanto Lucas entrava num projeto de 700 mil dólares e 28 dias de filmagem com a Universal. Coppola tornou-se o diretor de O Poderoso Chefão e Lucas deu à Universal um filme que gerou milhões, American Graffiti.

Mas as entrevistas e viagens exigidas pelo sucesso de American Graffiti atrasaram o trabalho de Lucas em Star Wars, um roteiro que ele descrevia como "algo na linha de Flash Gordon e Buck Rogers". Esse filme só entraria em pré-produção em 1975, depois que Lucas recusou a direção de Apocalypse Now.

Com 8 milhões de dólares em mãos, Lucas começou o hercúleo trabalho de inventar o que não tinha condições de ser inventado. Com a crise dos filmes de ficção científica, todos os estúdios de efeitos especiais tinham falido e os departamentos das grandes empresas haviam sido fechados. Sem ter para quem apelar, o cineasta reuniu um time de talentos e criou seu próprio estúdio: a ILM - Industrial Light And Magic. O desenrolar desse período é comentado em detalhes aqui.

Dois anos depois, George Lucas deixou a sala onde supervisionava a mixagem de som de uma das versões em língua estrangeira de Star Wars e foi com sua mulher até um restaurante no Hollywood Boulevard. No caminho, a polícia organizava a multidão que tentava entrar no Chinese Theater e o diretor olhou para a marquise para ver o motivo da confusão. Surpresa! Star Wars tornou-se o sucesso do ano e uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

Visionário, Lucas havia negociado com a Fox os direitos de merchandising do filme, algo totalmente impensável para a época, já que produtos ligados aos longas não tinham qualquer importância estratégica até então. Com a renda, o cineasta pagou bônus aos técnicos e aos atores e tornou-se o mais bem-sucedido produtor independente do mundo, mudando totalmente a maneira como os filmes eram pensados em termos de marketing e retorno financeiro.

Nos próximos anos, dedicou-se a levar os demais capítulos da saga de Star Wars às telas, apresentou ao mundo um certo arqueólogo aventureiro e revolucionou o mundo dos efeitos especiais ao ampliar a ILM. Também foi produtor de filmes de arte e experimentais como Kagemusha e Powaqqatsi.

Hoje, bilhões de dólares depois, é um verdadeiro ícone, possui uma legião de admiradores e seu nome é sinônimo de cultura pop. Algo que talvez não tivesse acontecido não fosse aquela violenta trombada em Modesto...