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Entrevista

Fúria de Titãs: Omelete Entrevista o diretor Louis Leterrier

Cineasta defende o 3-D convertido e conta o que James Cameron preferiu esconder sobre Avatar

Érico Borgo
17.05.2010
00h00
Atualizada em
02.11.2016
22h06
Atualizada em 02.11.2016 às 22h06

O Omelete esteve em Londres para conversar com o elenco e equipe de Fúria de Titãs (Clash of the Titans), a refilmagem do clássico homônimo de 1981 produzido pelo mestre da stop-motion Ray Harryhausen. A primeira dessas entrevistas foi com o diretor Louis Leterrier, cineasta conhecido dos nossos leitores pela série Carga Explosiva e O Incrível Hulk.

Durante a conversa, Leterrier defendeu o 3-D convertido, falou sobre o que o atraiu ao projeto, explicou algumas restrições das filmagens em 3-D, relembrou como foi assistir no cinema ao Fúria de Titãs original e mencionou como o filme de 1981 é importante para a história da Sétima Arte. Confira!

Fúria de Titãs

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Leterrier orienta Worthington e Liam Neeson

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Fúria de Titãs

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Sam Worthington e Louis Leterrier no set

Você usou uma câmera muito dinâmica neste filme, porque obviamente você filmou em 2-D e depois descobriu que o estúdio queria converter o filme para 3-D. Você teria filmado de maneira diferente, se soubesse disso?

Louis Leterrier: Eu não sei. Sempre filmei de maneira dinâmica, sempre usei a profundidade de campo e quis colocar a plateia no banco do passageiro, sabe? Então quando alguém morre, ele morre do seu lado... e aí fica bem interessante. Não teria mudado meu jeito de dirigir as cenas de ação ou a câmera. Só na edição é que eu mudaria um pouco, porque como o olho precisa de 22 quadros por segundo para enxergar o movimento, você precisa de algum tempo extra entre os cortes para se acostumar com a diferença de profundidade. O problema é que as cenas de ação sempre exigem cortes rápidos, e você precisa fazê-las assim porque são atores de verdade lutando. Com sequências mais longas, com mais golpes, obviamente filmar fica muito perigoso.

Mas você pode ir contra isso. Como vai filmar em 3-D, pode pedir que as coreografias de luta sejam mais longas, então ao invés de movimentos em um-dois-três-quatro tempos, eles iriam até oito tempos. E isso te dá tempo suficiente para mover a câmera e acostumar o olhar do espectador. Então acho que essa seria a única coisa que eu mudaria por causa do 3-D. Mas nós conseguimos adaptar isso em Fúria de Titãs. De qualquer maneira, eu não gosto de fazer cenas curtas e prefiro mesmo filmar cenas mais longas no geral. E agora com a tecnologia 3-D, poderei filmar cenas ainda mais longas, e fazê-las legais de assistir.

James Cameron disse que não concorda com a conversão de filmes atuais de 2-D para 3-D. O que você acha disso?

O que James Cameron não está te contando é que a mesma empresa que converteu Fúria de Titãs, converteu 10% do filme dele para 3-D. Avatar não é 100% filmado em 3-D porque a tecnologia é complicada. Cameron é um gênio - pode falar isso para ele, diga que eu disse, porque ele é mesmo - porque escreve e dirige seus filmes e inventa as câmeras. Mas é uma tecnologia totalmente nova e algo assim sempre traz seus desafios. Uma coisa que descobriram na prática é que quando você faz um plano aberto com essa câmera de duas lentes, fica tudo muito bom. Mas quando você faz um close-up com essas câmeras ela deixa o ator vesgo! O olho é como suas mãos. Se você é destro, tem a mão direita e a mão esquerda, que não é muito boa, você não faz nada direito com ela. É a mesma coisa com os olhos. Você tem um olho bom, que dirige o olhar. Então quando você filma com a câmera de duas lentes, a câmera 3-D, ela deixa a pessoa vesga por essa incompatibilidade entre o registro mecânico e a percepção humana da imagem gravada com alternância de lentes.

Então, essas cenas em Avatar, de planos em detalhe nos olhos, eles tiveram que pegar apenas uma das lentes e convertê-la para 3-D. E isso foi feito pela Time Focus, a mesma empresa que fez Fúria de Titãs, usando o mesmo sistema que empregaram em Avatar. Então, é engraçado... já temos esses esnobes do 3-D, que nem perceberão a diferença mas ficarão dizendo que a conversão é horrível. Mas se mostrar o filme e perguntar se é convertido ou filmado, eles não saberão dizer a diferença. Na verdade, eu adoraria testar essas câmeras 3-D de Cameron, porque elas são incríveis, mas não as usamos porque elas simplesmente não estavam disponíveis ainda. Só existem três e ele [Cameron] estava usando todas as três, sabe? Mas é fantástico, o cara é um gênio.

A conversão de Fúria de Titãs é efeito direto do sucesso de Avatar?

Sim, obviamente foi pelo encantamento criado por Avatar. Mas, também, porque é divertido! As pessoas realmente redescobriram o cinema, pessoas que não iam ver um filme há anos foram assistir Avatar. Foram pelo espetáculo, pela direção, pela ação e também pelo 3-D. Isso é uma experiência que não podemos ter em casa. Nem estou falando da pirataria na internet e tudo isso, que é algo completamente diferente. Avatar participou de um momento de em que as pessoas diziam, "Crianças, vamos assistir uma coisa, é divertido, vamos experimentar um mundo totalmente novo". Então Avatar foi esse mundo inteiramente novo, ou melhor, um velho mundo que não estamos mais acostumados a ver no cinema.

O 3-D é uma coisa que vai deixar as pessoas animadas, tipo "Vamos lá crianças, vamos ver o filme de monstros daquele francês idiota", sabe? É divertido. Eu adoro ir ao cinema com a minha família, e quando assisti o Fúria de Titãs original, foi um momento desses, sabe. Eu tinha tipo 8 anos e adorei. Estava com minha mãe, meu pai, minhas irmãs e estávamos todos vivendo aquela experiência juntos. Mesma coisa com Star Wars, mesma coisa com esse filme.

O que te atraiu mais no filme original, como diretor?

O universo. Simplesmente todo o escopo do filme, o imaginário. Como diretor, poder criar um mundo é algo muito empolgante. Ao menos para mim. Alguns diretores, como Paul Greengrass, querem filmar a realidade. Mas eu quero filmar tudo, menos a realidade.

Você conversou com Ray Harryhausen?

Sim, conversei com ele duas vezes.

Sério? Como foi?

Foi ótimo, fiquei muito tímido. O cara é fantástico. Sou muito fã dele. Eu estava com medo que ele fosse dizer "Não faça uma refilmagem! As criaturas eram lindas! Não as estrague com computação gráfica!". Ele realmente entendeu porque estávamos fazendo um remake. Ele é fã de Peter Jackson e adorou a refilamgem de King Kong. Ele também estava preocupado que eu iria estragar o filme colocando atores desconhecidos no elenco ou então que tornaria o filme mais sexual. Afinal, quando começamos a fazer este filme, 300 era a referência - também era um filme da Warner Bros., também era mitologia grega - e as pessoas achavam que também íamos filmar em tela verde, porque o orçamento não era muito alto.

Ray ainda não tinha assistido 300, então perguntou para um amigo dele como era o filme, e esse amigo disse que era muito violento e muito sensual. Então, quando eu liguei, ele me disse "por favor, não coloque o Kama Sutra em Fúria de Titãs!". Ele estava com muito medo disso e eu prometi que seria um filme adequado para crianças.

Qual é para você a maior contribuição deste Fúria de Titãs?

Foi muito importante para mim mostrar essa história para a geração atual. E não apenas apresentar Fúria de Titãs, mas todo o universo do Harryhausen. É engraçado, mas por mais que eu gostasse do original, quando eles me ligaram perguntando se eu queria dirigir o remake de Fúria de Titãs, eu disse "Não, não posso!". Mas aí pensei que seria ótimo e lembrei daqueles esqueletos que eram incríveis em Fúria de Titãs. Só que já na minha memória já misturou tudo. Os esqueletos são de Jasão e os Argonautas! Quando estava lendo o roteiro de Fúria de Titãs ficava pensando "cadê os esqueletos?". Isso é prova do quando Harryhausen é importante. Ele não criou apenas filmes, criou um universo todo, algo muito raro... ele deixou uma marca no inconsciente coletivo, no olhar humano. Você assiste a dois frames de um filme e já sabe que é de Ray Harryhausen pelo design e pelo jeito que é filmado.

É por isso que Fúria foi um sucesso em 1981, mas visualmente parecia um filme dos anos 60. Era a técnica dele, ele dizia "Não que usar computadores. Essa é a minha tecnologia, eu tenho meus bonecos e é isso que eu faço". Era isso que deixava os filmes dele tão charmosos. E o nosso filme tem essa porcaria de computação gráfica - brincadeira! Foi muito importante prestar homenagem a ele, e o provocamos um pouquinho com a cena da corujinha. A coruja era uma das coisas que Ray menos gostava no filme original e foi imposta pelo estúdio. Mal posso esperar que ele assista à refilmagem.

Na mesma entrevista, Leterrier falou brevemente sobre suas ideias para a continuação (leia aqui) e discutiu sua vontade de dirigir o filme Os Vingadores para a Marvel. Os dois trechos já foram adiantados aqui no Omelete e você poder reler esses comentários clicando nos links.

Fúria de Titãs estreia em 2-D e 3-D no Brasil em 21 de maio.

Acesse o Especial Fúria de Titãs do Omelete, que será atualizado até o lançamento com entrevistas, críticas e galerias.

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