Filmes

Entrevista

Francis Ford Coppola fala sobre independência, família e cinema brasileiro

Diretor ganhará mostras especiais no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo

Rodrigo Fonseca
17.06.2015, às 18H35
ATUALIZADA EM 17.06.2015, ÀS 18H56
ATUALIZADA EM 17.06.2015, ÀS 18H56

Nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, o recém-inaugurado Cine Odeon (agora Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro – Odeon) vai projetar, às 21h, com pompa e luxo, Apocalypse Now em sua versão redux, para celebrar a retrospectiva em tributo a Francis Ford Coppola, diretor que redefiniu as bases estéticas do cinema americano nos anos 1970 e 80. São dele obras-primas como a trilogia O Poderoso Chefão (1972,1974, 19990) e O Selvagem da Motocicleta (1983) e Drácula de Bram Stoker (1992). No dia 25, a mostra se estende para o coração político do Brasil, o Distrito Federal (no Cine Brasília e no CCBB-DF), chegando a São Paulo no dia 1º de julho, também pelo Centro Cultural Banco do Brasil e pelo Cine Sesc. Da sabedoria acumulada ao longo de seus 76 anos de vida e quase 55 de batente como realizador, Coppola conversou com o Omelete sobre o passado e o futuro das imagens em tela grande.

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Como o senhor avalia o papel que o senhor ocupa hoje na indústria cinematográfica, como produtor e como diretor de filmes icônicos como O Poderoso Chefão?
FRANCIS FORD COPPOLA: Sou alguém que está explorando as formas mais contemporâneas de storytelling, em especial no cinema, para tentar entender que caminhos podem levar a arte a algum caminho de evolução.

Sua carreira se estende por cerca de cinco décadas, mas o senhor ainda é associado ao grande cinema Americano dos anos 1970, que engajou a produção audiovisual do seu país numa revolução ética e estética, à força de filmes como Apocalypse Now (1979) e A Conversação (1974). O que havia na conjuntura artística e política daqueles anos que permitiram o advento de filmes como O Poderoso Chefão? Essa conjuntura pode ser revivida? 
COPPOLA: Havia independência. Fazíamos filmes de arte, personalíssimos e, por vezes, experimentais. E, na maioria das vezes, historicamente, esse tipo de exercício de linguagem encontrou dificuldade de levantar financiamento e assegurar distribuição. Naquela época, não.  Aqueles filmes ensinaram o cinema a encontrar novas maneiras de expressar humanidade, nas formas mais demasiadas.  

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Nessa fala sobre independência é importante refletir sobre o fato de que o senhor passou por dificuldades financeiras graves ao rodar, por exemplo, O Fundo do Coração (1982), com o máximo de liberdade que poderia ter. Isso fez o senhor se reaproximar dos grandes estúdios sempre que necessário, fazendo produções mais comerciais como Peggy Sue – Seu passado à espera (1987) ou mesmo Jack (1996). O que significa essa luta para ser um cineasta 100% indie num país que tem Hollywood como uma Meca do entretenimento? 
COPPOLA: Como eu sempre sonhei ser um roteirista e diretor capaz de viver de suas próprias ideias, expressando-as com identidade própria, consegui sempre ser um cineasta independente, até pelo fato de que, na prática, fiz pouca coisa dependente de dinheiro de estúdios. Habitualmente, sempre que eu concebia uma ideia, encontrava meios para viabilizá-las economicamente.

É fácil para o senhor definir como se comportam os personagens “coppolianos”, ou seja, as figuras que melhor representam o seu olhar de mundo? Os Corleone, por exemplo, hoje simbolizam o quê?
COPPOLA: Meus personagens são sempre figuras marginalizadas. Fala de pessoas que estão alienadas em relação aos limites do mundo, aos quais reagem com o máximo de paixão. 

O senhor tem um novo projeto à vista, sobre o périplo de três gerações de uma família ítalo-americana nos EUA, em meio à implementação da televisão e ao boom da Informática. É um filme financiado com o dinheiro de sua vinícola e de seus projetos paralelos, não cinematográfico. Essa liberdade, experimentada em seus filmes mais recentes, como Tetro (2009), mostrou o que ao senhor sobre o futuro dos filmes?
COPPOLA: Ele me fez crer que o cinema ainda pode encontrar uma nova forma para si, tanto no que diz respeito de uma política de resultados, no corpo a corpo com a plateia, como na metodologia de filmagem. O cinema tende a ser uma arte a ser feito ao vivo, como um espetáculo em transformação. Foi com esse desejo em mente que realizei Virginia, que comportava pequenas intervenções em sua projeção, com efeitos visuais e sonoros alternativos, em sessões esporádicas, e fiz Distant vision [produção de 52 minutos, com uma trama de tintas autobiográficas, a ser projetado em locais previamente determinados, de modo a ser alterado in loco].

E nessa experimentação, como fica o projeto Megalópolis, que trouxe o senhor ao Brasil, para Curitiba, entre o fim dos anos 1990 e o início dos 2000 a caçar locações para filmar uma trama futurista sobre uma cidade perfeita?
COPPOLA: Ficou na espera de eu ter tempo e meios. Um dia, talvez, eu rode este filme, mas precisaria reescrevê-lo.

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Como o senhor avalia o sucesso de seus filhos, Sofia e Roman, ambos diretores, de quem o senhor, além de pai, é também produtor? O que eles aprenderam com o senhor? O que o senhor aprende com eles, cada vez que produz seus filmes?
COPPOLA: No nosso lar, a arte sempre foi um tópico central das conversas, sobre a arte cinematográfica. E sempre que eu viajava atrás de locações para meus filmes, levava minha prole comigo. Portanto, eles viram os meus filmes nascerem. Eram meus primeiros espectadores. Éramos como uma família circense, na qual os pequenos precisam aprender como se tornarem trapezistas ou palhaços muito cedo. Tenho muito respeito pelos cineastas que eles são.

Durante a produção de Virginia, o senhor fez uma palestra na Comic-Con de San Diego falando sobre a importância do uso de ferramentas digitais, sobretudo o 3D, como forma de transformar a linguagem audiovisual. O que o digital significou para o seu processo criativo? 
COPPOLA: A evolução que essas novas ferramentas estão causando simbolizam um capítulo novo para a história do audiovisual que está sendo escrito agora. Acredito que, nos próximos anos, o cinema pode, pelas vias do digital, galgar alturas antes inimagináveis.

Vem sendo recorrente na indústria do audiovisual a hipótese de que a teledramaturgia americana nunca esteve tão evoluída, vivendo uma Era de Ouro, na qual seria capaz de ofuscar o cinema com produtos como House of Cards. O senhor concorda?
COPPOLA: A Era de Ouro da TV já aconteceu. Ela se passou nos anos 1950, quando muitas obras-primas foram feitas para a televisão, sobretudo pelo diretor John Frankenheimer.

Quem sãos os realizadores contemporâneos que o senhor admira mais?
COPPOLA:  Os diretores do presente seriam Wes Anderson, Paul Thomas Anderson e David O. Russell. O diretor de sempre: Woody Allen. E há os diretores do futuro: Patty Jenkins, Alexander Payne, Spike Jonze, James Gray, Sofia Coppola e muitos e muitos outros. Vivemos um momento rico de talentos em fase de desabrochar.

E de cinema brasileiro, o que o senhor conhece? 
COPPOLA: Eu sou da época do grande cinema brasileiro do passado, da década de 1960, de Glauber Rocha. Não sou alguém tão próximo da cinematografia corrente no Brasil quanto gostaria de ser. Espero voltar ao seu país logo para curtir a alegria brasileira.

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