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O que fazer com filmes e séries com ideias erradas

Partindo do recente sucesso de 365 Dias, entenda como "ler" as mensagens da ficção e qual é o papel do espectador nessa discussão

Marcelo Hessel
22.06.2020
13h08

O que Breaking Bad, 365 Dias, ...E o Vento Levou, 13 Reasons Why e Scarface têm em comum? São obras em que as polêmicas frequentemente repercutem mais do que a história, como se elas precedessem o próprio filme ou a própria série. Numa época de conscientização aflorada, a forma como "lemos" as mensagens da ficção - que de qualquer forma passa pelas sensibilidades de cada espectador - está no centro da discussão.

Enquanto Breaking Bad esteve no ar, não foram poucas as vezes em que a atriz Anna Gunn deu entrevistas sobre as reações negativas dos fãs em relação à sua personagem, Skyler, a esposa de Walter White. O próprio criador da série, Vince Gilligan, se disse surpreso com o antagonismo. Na interpretação de Gunn e Gilligan, a postura do público tem origem em ideias pré-concebidas de dinâmicas de gênero e em uma visão de mundo francamente sexista, mas em que medida Breaking Bad - ao tratar Skyler como a "vilã" que poda o voo solo do marido - incentivou e validou essa postura? O que um filme como Scarface, com sua mistura de flagelo e romantização do pária trágico, diz sobre a forma como seus fãs enxergam a si mesmos?

As grandes obras sempre vão permitir um sem número de interpretações, na medida em que também mudam com o tempo, além de obviamente mudar de acordo com o olhar, a vivência e os humores de cada pessoa que as assistem. Que a gente possa revisitar filmes e séries na era do streaming com a facilidade de um clique potencializa o olhar distanciado e crítico. Assistir hoje a ...E o Vento Levou, um dos maiores sucessos de bilheteria da história de Hollywood, tem obviamente um efeito muito diverso daquele de 1939. O mesmo vale para um thriller erótico como 365 Dias, que já surge datado no catálogo da Netflix com sua fetichização do rapto. Com o devido peso do olhar histórico, a conscientização pode tornar mais complexas essas obras de ontem e de hoje, que carregam consigo o incomparável poder de influência que é natural ao meio audiovisual.