Filmes

Artigo

Festival do Rio | Banhado em sangue, O Animal Cordial vira o filme mais polêmico do evento

Murilo Benício protagoniza longa que dividiu opiniões

Rodrigo Fonseca
11.10.2017
11h58
Atualizada em
11.10.2017
13h01
Atualizada em 11.10.2017 às 13h01

Um efeito similar ao causado pelo Mãe!, thriller metafísico de horror que divide opiniões num “ame-o” ou “deixe-o” radical, aconteceu na noite de terça-feira (10) na competição de longas-metragens do Festival do Rio com uma produção brasileira tão violenta (e turbulenta) quanto o longa-metragem de Darren Aronofsky: O Animal Cordial, da baiana Gabriela Amaral Almeida. Ao longo de banhos de sangue e de uma cena visceral (e sensualíssima) de sexo no qual Murilo Benício desconstrói (e reconstrói magistralmente) sua persona de astro de TV, o público se desconsertava na poltrona do Cinépolis Lagoon, entre convulsivas torções – de incômodo para alguns e de júbilo para outros.

A divisão foi violenta: uns praguejando contra o espetáculo de brutalidade ambientado em um restaurante – transformado por seu dono (Benício) num espaço de tortura contra os ladrões que tentaram assaltá-lo e contra alguns clientes de pouca elegância -; outros celebrando suas ousadias (a moral, a narrativa claustrofóbica e a plástica, pela fotografia quase tenebrista de Bárbara Alvarez). As únicas unanimidades: 1) neste ano coalhado de grandes atuações femininas na Première Brasil (as atrizes estão tinindo, inclusive Luciana Paes, que integra esta produção dirigida por Almeida), nenhum ator teve um desempenho igual ao de Benício; 2) trata-se da experiência mais inquietante de todo evento até agora. Sua passagem pelo Rio foi precedida por uma projeção no Canadá – cercada de elogios – no Fantasia Film Festival.        

“Eu não sei se é terror, não sei se é suspense, sei que achei o roteiro doido e gostei muito dos curtas da Gabriela, que são filmes malucos”, disse Benício, que lança no dia 20, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo seu primeiro trabalho como diretor: Beijo no Asfalto. “Dirigi meu longa mais ou menos na mesma época em que fiz esse filme da Gabriela. Era importante ter uma experiência com um filme assim como é o dela, doido, diferente”.  

Na trama de O Animal Cordial – cujo clima bizarro conversa com o do cult nacional Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra, e com vários filmes de David Cronenberg, em especial Enraivecida: A Fúria do Sexo -, Benício vive Inácio, um empresário cujo restaurante tem uma clientela nada polida. Camila Morgado é uma das frequentadoras e não esconde seu desdém para com o jeito contido, mais humilde, de uma das funcionárias, Sara (Luciana Paes, devastadora). Na cozinha, há também embates dos trabalhadores com Inácio: o chef Djair (Irandhir Santos) é quem mais se incomoda com o patrão. A maneira como todos são tratados dá o tom da crítica social do qual a diretora parte para construir um ensaio sobre a barbárie nossa de cada dia: quando dois ladrões entram no local, Inácio, armado, reage. E sua reação abre deixa para um sangrento ritual de descarrego e de afirmação de forças.

Com um elenco monumental de coadjuvantes (como Humberto Carrão, Ernani Moraes), o filme é capaz de evocar ainda a tradição italiana do terror, o giallo, sobretudo Tenebre (1982), de Dario Argento. Benício dá diferentes gradações à figura de Inácio, fazendo dele um tipo controverso, ora frágil, ora diabólico. E ele e Luciana protagonizam a cena de sexo mais caudalosa do nosso cinema em anos. Goste-se ou não do filme, sua potência é ímpar. Até agora, é o único filme com vigor para peitar As Boas Maneiras, longa de lobisomem do já citado Marco Dutra e de Juliana Rojas.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.