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Entrevista

Diretora do Festival do Rio avalia edição 2026: "Voltamos a ser o que a cidade merece"

Ilda Santiago fala ao Omelete sobre os desafios da programação, a parceria com os streamings e mais

Omelete
8 min de leitura
11.10.2026, às 10H30.
Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio (Reprodução)

Créditos da imagem: Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio (Reprodução)

Ilda Santiago acredita que o Festival do Rio 2026 foi a culminação de um processo de reconstrução após a pandemia de covid-19. "Voltamos ao tamanho do festival que a cidade merece, que a cidade tem que ter", comenta ela ao Omelete em entrevista, fazendo um balanço da edição.

A seguir, confira o papo completo, onde Santiago reflete sobre o prcesso de seleção dos títulos exibidos no Festival (entre os desse ano, favoritos ao Oscar 2027 como A Grande Estreia, grandes séries como Cidade de Deus: A Luta Não Para, e muito mais), o seu lugar na agenda cultural brasileira, e a parceria com serviços de streaming como Netflix e Prime Video.

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OMELETE: Como diretora de programação do Festival do Rio, como você avalia o momento que o evento vive? 2026 é uma edição especial para o Festival?

SANTIAGO: Bom, 2026 é um evento especial em muitas e muitas formas. É o nosso 28º,  e é claro que é um festival que vem crescendo; a gente vem reconstruindo, na verdade, desde os tempos da pandemia. Hoje ele está voltando ao tamanho do festival que a cidade merece, que a cidade tem que ter, que é o que nós queremos: apresentar para a cidade um presente de 300 filmes em cada canto do Rio, para que a gente possa oferecer para os diversos públicos muitas obras, muitos encontros e muita vontade de refletir sobre o mundo que a gente está vivendo.

OMELETE: Nesse tempo que está a frente do Festival, a indústria cinematográfica brasileira passou por uma expansão franca. Como você observou isso, e qual é o cenário que você enxerga agora?

SANTIAGO: Obviamente que, em 28 edições — e, na verdade, eu estou no mercado há mais do que isso —, a indústria passou por uma transformação muito profunda. Uma transformação de consumo, de hábitos, e de produção. O que o público quer ver? Eu acho que, cada vez mais, essa é a pergunta principal: o que o público quer ver, quais são os filmes que fazem o público sair dr casa? E, é claro, é muito bom ter muitas opções de consumo, é muito bom que as plataformas possam oferecer uma variedade muito grande, mas o cinema é uma trégua. O cinema são aquelas duas horas em que a gente para, pensa, mergulha numa outra história que muitas vezes é a nossa história e, quando não é a nossa história, é a história de alguém com quem a gente pode se relacionar.

Então, eu acho que mudou muito, mas ao mesmo tempo o que continua valendo é que histórias boas são o que atraem o público, histórias boas são o que a gente tem que fazer. E a indústria brasileira, o cinema brasileiro hoje, tem provado ser um grande instrumento nessa conquista do público. A gente só tem que trabalhar em formação de plateia, tem que ter mais salas. O país ainda tem muito poucas salas pelo tamanho da sua população. Eu acho que tudo o que mudou tem que mudar para melhor, e a gente tem que usar isso a nosso favor: trazer o público brasileiro para as salas para ver filmes brasileiros. E não só, para ver muitos filmes além dos blockbusters, além dos filmes que todo mundo quer ver. Vamos nos aventurar em filmes novos, é isso que vale a pena.

OMELETE: Entre as grandes transformações desse período está o streaming, e hoje vemos produções de Netflix, Globoplay, Prime Video com estreias no Festival. Como é a relação do evento com os players desse mercado? Acredita que precisamos regular o streaming?

SANTIAGO: É claro que a entrada das plataformas, das novas possibilidades de produção, mudam os nossos hábitos, mudam a forma como a gente enxerga o próprio cinema, o próprio audiovisual. Eu costumo dizer que é muito importante que a gente entenda que o mundo mudou, e ele não anda para trás, só anda para frente. Então, ter dentro do festival produções que da Netflix, da Globo, da Amazon, é muito importante. Por quê? Porque lá também está o talento brasileiro. Quando a gente fala de séries brasileiras dentro do Festival do Rio, a gente está dizendo para o público que um festival de cinema reconhece um talento que está em outros lugares, e que está em muitos lugares ao mesmo tempo.

Então, para nós, abrigar hoje produções das várias plataformas, dos vários formatos de produção, é também uma forma de dizer para essas plataformas que o cinema é importante. Eu acho que, quando os streamings nos entregam filmes, eles também estão nos dizendo de muitas formas que o cinema é importante, que o cinema agrega valor, e que esse público que vai ao cinema é um público que reproduz, que impacta exatamente essas produções que depois vão para as plataformas. Nós já vivemos muitas coisas, já passamos por VHS, já passamos por CD, passamos por tudo isso. São formatos de consumo. Em algum momento, os filmes todos têm que ser acessíveis. O primeiro acesso, o mais bonito, o que mais agrega valor é o cinema; acho que todo mundo entende isso, inclusive as plataformas.

Também é importante dizer que, óbvio, regular o streaming é importante. Aliás, regulação é importante para qualquer cinematografia. Eu acho que isso está provado em cada um dos países que produzem. Então, regulamentar o streaming é importante, como é importante regulamentar todo o nosso setor. Os filmes que o público vê, na verdade, são resultados de políticas públicas, de muita regulamentação, muita discussão, e de uma tentativa de equilíbrio que é muito importante para que essas produções aconteçam. Então, regulamento é importante não só para o streaming, mas para que a indústria do audiovisual seja equilibrada e possa oferecer uma diversidade para o público.

OMELETE: A seleção deste ano, como sempre, reuniu vários filmes que serão destaque na temporada de premiações de 2027, mas também produções independentes e de gênero. Como é o processo de alcançar esse equilíbrio, e qual é a importância da diversidade para o Festival?

SANTIAGO: Fazer a seleção de um festival como o Festival do Rio é, obviamente, um trabalho de grande responsabilidade, mas de grande prazer. É um trabalho de um ano inteiro, uma pesquisa muito grande, uma busca em cada um dos grandes festivais sobre os grandes filmes que todos querem ver. Acho que nenhum festival pode abrir mão de passar os títulos que passaram em grandes festivais anteriores, e que todo mundo está esperando. Mas também acho que o grande desafio, e a coisa mais interessante que a gente pode fazer como seleção, é exatamente propor ao nosso público as pérolas, os filmes que talvez escaparam do radar desses outros grandes festivais.

Até porque nós estamos num festival no Sul [global], no Rio de Janeiro, sabemos o gosto do público, ou pelo menos procuramos sintonizar com o gosto do público. A ideia é que a gente possa, cada vez mais, apresentar para esse público não só o que eles esperam, mas aquilo que eles não sabem que esperam, mas que a gente tem certeza que eles vão gostar. É uma seleção de 300 filmes; tem filme brasileiro, filme estrangeiro, filmes para todos os gêneros, não é para um público só. Tem filme de terror, filme para jovem, documentário, animação, é para todo mundo. É pra gente ter uma festa de cinema que abra as possibilidades de um caminho maior ao longo do ano, para que mais filmes sejam lançados.

OMELETE: A agenda cultural brasileira está em constante transformação, mas o papel central do Festival do Rio nela parece não mudar. Qual é o segredo para manter essa relevância, e assumir esse protagonismo no cenário?

SANTIAGO: O Festival do Rio tem 28 edições. 28 edições significam um trabalho de muito tempo desenvolvendo contatos, relacionamentos, obviamente também usando muito o Festival do Rio como uma porta de saída para o cinema brasileiro. Então, acho que esse lugar que hoje o Festival do Rio ocupa é um lugar que é o resultado de trabalho. É o resultado de muitas conexões, de muitos diretores que vieram aqui com seus primeiros filmes e que agora já estão brilhando, voando e que, claro, querem que seus filmes estejam de volta ao Rio.

Mas, mais uma vez, fazer um festival não é alguma coisa que a gente faça um ano, e que o ano seguinte seja o mesmo. É um trabalho de sintonia, de sedução do público, de entender quais são os gostos desse público e, principalmente, de utilizar a cidade do Rio de Janeiro — a gente tem muita sorte de estar no Rio de Janeiro e de poder ter essa cidade como um lugar que recebe, esse ano, mais de 70 convidados relacionados aos filmes, mais de 100 executivos do mundo todo, além de um número absolutamente incalculável de profissionais brasileiros procurando coproduções e novos negócios.

Enfim, eu acho que é menos falar de prestígio e mais falar de trabalho, porque isso é uma coisa que a gente tem que fazer todo ano, transformando a cidade do Rio de Janeiro nesse polo econômico de audiovisual e transformando o cinema brasileiro nessa capacidade de exportação que ele tem e de falar com o mundo todo. As nossas histórias falam com o mundo todo e é sobre isso que a gente quer fazer e é isso que a gente faz no Festival do Rio.

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