Filmes

Notícia

Feliz Natal

Selton Mello estréia como diretor em filme de performances

Marcelo Hessel
20.11.2008, às 14H00
ATUALIZADA EM 14.11.2016, ÀS 00H00
ATUALIZADA EM 14.11.2016, ÀS 00H00

Em sua estréia como roteirista e diretor de longas-metragens, Selton Mello conta uma história de inadequação. Tateia terreno estranho, mas entra com convicção.

feliz natal

None

feliz natal

None

feliz natal

None

Feliz Natal (2008) acompanha Caio (Leonardo Medeiros), sujeito cercado de ferrugens e corrosões. Ele deixa seu ferro-velho no interior para visitar outra ruína: sua família, na capital. É feriado de fim de ano, seu sobrinho é receptivo, a cunhada demonstra saudade, assim como a mãe. O irmão de Caio o recebe com desconfiança, o pai não lhe dirige palavra.

Há algo no passado de Caio que o impediu de voltar à sua casa por anos. Algo que agora o impede de ser recebido com naturalidade. O texto não deixa isso apenas sugerido. A cunhada, vivida por Graziella Moretto, já diz logo de cara quem é Caio: mulherengo, canalha, etc. A certa altura o trauma que o fez partir será reconstituído em detalhe.

São duas coisas emblemáticas do filme: os personagens não perdem tempo na hora de fazer juízo de Caio, mas o motivo só conhecemos depois. Até lá, a câmera do diretor de fotografia Lula Carvalho avança sobre o elenco, acusatória, em zooms rápidos e hiper-closes, em sintonia com a indisposição dos coadjuvantes e com o mal-estar proposto pelo roteiro.

Há visivelmente ali um cinema pensado. Em entrevista à revista SET, Selton Mello relembra que o filho de Walter Carvalho sugeriu filmar em CinemaScope (o formato de tela mais horizontalizado) para, mesmo nos closes, manter espaços vazios ao lado dos atores - mais do que claustrofobia, impor um sentido de isolamento. Há uma consciência estética, enfim, mas ela se justifica?

Porque, ao longo de Feliz Natal, fica a impressão de que a dramaturgia do subtexto e a agressividade visual não estão casando. É um cinema de observação - as cenas do sobrinho com os presentes, da sinuca, dos parentes ao redor da árvore são visivelmente improvisadas - mas ao mesmo tempo é um cinema que, ao filtrar essa realidade com pessimismo, só enxerga o mal. E o que há de puro uma hora paga o preço por ser puro.

Que fique claro que Selton Mello se revela um exímio diretor de elenco (a desconstrução da imagem de Lúcio Mauro no papel do pai é assombrosa) e que Feliz Natal é um grande filme de performance. Mas o implícito, essa arte sofisticada de discurso, não é de fácil manejo. Mello tenta arrancar dos personagens mais do que eles conseguem - pela própria construção desses personagens - oferecer ao diretor.

No fim, o estreante que cita John Cassavetes e Lucrecia Martel (a primeira cena da piscina é O Pântano escarrado) periga se aproximar mais de um Sérgio Bianchi da vida. Não por acaso a segunda fatalidade de Feliz Natal se avizinha muito antes do fim do filme... Selton Mello tem olho apurado para o que está diante dele, mas ver essa realidade pelo viés do cronicamente inviável pode ser bastante limitador.

Conteúdo Patrocinado

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.