Filmes

Notícia

Falsa Loura

Um retrato do brasileiro como ele realmente é: brega e sonhador

Marcelo Hessel
17.04.2008
18h00
Atualizada em
21.09.2014
13h35
Atualizada em 21.09.2014 às 13h35

O fato de Carlos Reichenbach ser reconhecido tanto como cineasta quanto como cinéfilo, daqueles com coração de cineclubista que adora descobrir e divulgar raridades do cinema mundial, faz com que seus filmes sejam interpretados como uma espécie de esponja, tomando forma a partir da filtragem de influências. É uma interpretação justa - em Falsa Loura mais uma vez temos uma mistura à italiana do melodrama e da comédia - mas é uma interpretação que limita.

Reichenbach pode ser o maior fã de Valerio Zurlini da face da Terra, mas isso não impede Falsa Loura de ser um filme brasileiríssimo. Só aqui poderíamos ter uma protagonista como Silmara (Rosane Mulholland), síntese da brasileira vaidosa que pega no batente sem estragar o esmalte. Operária numa fábrica onde trabalha para sustentar a casa que divide com o pai, a partir do momento em que tira o macacão Silmara se transforma. A auto-imagem sensual que ela faz de si mesma se externa sem pudor ou meio-termo. Em outras palavras, ela é cafona, com orgulho.

falsa loura

None

falsa loura

None

falsa loura

None

Quem se acostumou a ver em filmes nacionais edificantes o brasileiro traduzido como o sertanejo humilde e passivo pode se surpreender com o retrato que Reichenbach faz da classe média baixa e do proletariado de modo geral e do brega em particular. Ele não mantém distância dos personagens nem evita temas. Pelo contrário, coloca em cena expressões díspares do corpo para justamente provocar o choque dos nossos pré-julgamentos: Léo Áquila, Tiazinha e Mamma Bruschetta passeiam pela tela sem a aura de "vergonha alheia" que inspiram na televisão. Em Falsa Loura eles são o que são: pessoas que escolheram para si uma persona, por mais espalhafatosa que seja, e que acreditam nessa persona.

Silmara acredita na sua: a persona da loira gostosa, que sonha com o vocalista da banda de rock (Cauã Reymond) e com o cantor romântico (Maurício Mattar), que canta suas músicas preferidas com a convicção de que as letras não são só ficção. Silmara crê na sua irresistível "loirice", enfim, mas sabemos, pelo próprio título do filme, que há nisso uma artificialidade. É a comédia e é o drama: Falsa Loura nos seduz com suas luas cheias que brilham de computação gráfica, e em seguida nos joga na cara a ilusão que é ousar sonhar com uma lua cheia que brilha.

Falsa Loura é o típico pesadelo dos que advogam em nome do naturalismo - diálogos são literais demais, fachadas de casas têm cores inverossímeis que parecem technicolor. Quem se prender nos defeitos pode não perceber as virtudes, particularmente a forma como o cineasta observa e se aproxima dos corpos. E isso desde o início: durante os créditos iniciais, duas moças bailam uma dança de salão de um lado do enquadramento, e do outro listam-se os nomes da equipe ténica e do elenco. Já começa com a provocação, portanto. Você vai olhar a bunda da dançarina ou ler o letreiro?

Aos naturalistas, então: dos melhores filmes de Reichenbach, Falsa Loura talvez seja o que mais se encaixa na definição truffautiana de "grande filme doente" - aqueles cuja execução defeituosa é compensada pela crueza e pela transparência de intenções. E o fato é que as imperfeições do filme combinam com o tema. Falsa Loura abraça o brega naquilo que o brega tem de essencial: a forma desmedida, até mesmo acrítica, de se fazer ver e ouvir. E o cinema de Reichenbach não é de meias palavras.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.