Charli XCX entrou em Erupcja antes do brat: “Achei que ela ia abandonar o filme”
Pete Ohs e Jeremy O. Harris falam ao Omelete sobre o processo colaborativo por trás do longa
Créditos da imagem: Charli XCX em Erupcja (Reprodução)
Mais uma investida de Charli XCX na atuação está chegando ao Brasil - e, desta vez, se trata de um projeto no qual ela embarcou antes mesmo da explosão do brat summer. O Omelete entrevistou o diretor Pete Ohs e o ator Jeremy O. Harris sobre o filme Erupcja, e descobriu que os dois recrutaram Charli para o longa muito antes do "mundo inteiro ficar verde", nas palavras do cineasta.
Em Erupcja, Charli e a estrela polonesa Lena Gora interpretam duas velhas amigas que se reencontram em Varsóvia, para onde a personagem da popstar viajou ao lado do namorado, vivido por Will Madden. A química explosiva entre as duas logo entra no caminho do relacionamento da protagonista, e a chegada de um artista boêmio (personagem de Harris) à cena só acelera esse processo.
A seguir, confira o que a dupla de colaboradores - Ohs e Harris também fizeram The True Beauty of Being Bitten by a Tick - disse sobre o processo criativo único de Erupcja, sobre a participação de Charli no filme, e muito mais!
OMELETE: Olá, pessoal, e parabéns pelo filme!
OHS: Olá, Caio! Obrigado.
HARRIS: Olá!
OMELETE: Bom, eu sei que Erupcja foi feito de uma maneira muito colaborativa – como muitos de seus outros filmes, Pete. Vocês poderiam me dizer como era um dia típico no set, e como funcionou esse processo criativo?
OHS: Todo dia era muito comunitário. Os dias costumavam começar no meu apartamento, onde fazíamos café, comíamos alguns doces, sentávamos e começávamos a aquecer nossos cérebros. E, então, começávamos a falar sobre o que faríamos naquele dia. Nós sempre fazemos três cenas por dia, então costumo apresentar um rascunho das cenas para os atores que estão nela, e começamos a conversar juntos sobre os detalhes.
O filme inteiro existe dentro do aplicativo de notas de meu celular. Eu envio cada cena como uma nota para o chat do grupo, então eles têm a cena no telefone deles, e atualizamos o rascunho ao vivo. Estamos todos editando o roteiro juntos, o tempo inteiro. Geralmente, ao final do café da manhã, já sabemos como será nossa primeira cena, e vamos filmá-la. Eu descrevo esse filme como uma viagem de carro com amigos, porque realmente é sobre todos nós fluindo juntos, decidindo para onde vamos, quando é hora de parar e quando voltar para a estrada.
OMELETE: Com todos sendo co-autores da história, tenho certeza de que os atores ficaram muito apegados aos seus personagens. Jeremy, como você descreveria sua relação com o Claude, e qual foi a melhor parte de fazer esse filme para você?
HARRIS: Minha relação com o Claude vem desde a concepção deste filme. Pete e eu estávamos conversando sobre um filme muito diferente, que queríamos fazer juntos, antes da Charli entrar em nossas vidas de uma forma louca. No minuto em que a Charli entrou no projeto, no momento em que a história se tornou sobre duas garotas com uma conexão profunda e metafísica, e havia um namorado envolvido, eu imediatamente pensei que não precisava mais estar no filme. Eu ia ser o produtor, mas se encontrássemos um motivo para eu aparecer como figurante, algo assim, ótimo. O filme parecia muito certo sem mim.
Acontece que estávamos filmando há quatro dias, e as coisas começaram a ficar pesadas na trama. Então Pete disse que precisávamos de um momento para rir, e que para isso deveríamos ter um novo personagem, interpretado por mim. Tínhamos falado sobre eu possivelmente ser um artista morando em Varsóvia, e comecei a observar as pessoas negras que via na cidade. Muitos eram expatriados, pessoas dinâmicas e legais que construíram uma vida na Europa Oriental. No momento em que ele disse que era hora de eu entrar no filme, eu já sabia como ser Claude. Eu sabia qual era a minha função: trazer uma energia inteiramente nova, mudar a narrativa. Eu era como o asteroide que colide com o planeta da trama, reformula a narrativa, colocando-a em uma nova órbita.
OMELETE: Meu momento favorito no filme é quando o Claude diz para a Nell e a Bethany: "Por que vocês estão rindo? Vulcões matam pessoas". Eu amei esse diálogo. Podem falar um pouco sobre essa cena, e como ela surgiu no set?
OHS: Eu me lembro bem. Sabíamos a cena que estávamos filmando, que era as moças indo até a casa do Claude para ter algum tipo de conversa. Fomos para a nossa locação, e pensamos em filmar na varanda, mas começou a chover. Então decidimos que seria dentro de casa, mas todas essas circunstâncias foram condensando o tempo que tínhamos para filmar. Sentamos todos em um círculo e eu comecei a escrever a cena, apenas o começo. Eu escrevia uma fala e olhava para o ator para que ele me desse a resposta do seu personagem, então a anotava. Houve esse momento em que as moças descrevem a conexão que possuem, e como os vulcões explodem toda vez que elas se aproximam, e que essa era uma piada interna delas. Eu olhei para o Jeremy e perguntei o que o Claude diria, e ele apenas olhou para mim e disse: "Qual é a piada? Vulcões matam pessoas". [Risos] Eu concordei, e digitei isso no roteiro. Pareceu perfeito.
OMELETE: Bom, claro que quero falar um pouco sobre a escalação da Charli neste filme. Pete, por que você quis trazê-la para um projeto tão colaborativo? E vocês dois poderiam falar sobre como foi o processo com ela?
OHS: Este é o quinto longa que faço usando esse processo colaborativo, e o segundo que o Jeremy e eu fazemos juntos. Parte da jornada é que você não pode buscar nada. Nós não fazemos testes para esses atores. É sobre estar presente e, quando as oportunidades se apresentam e parece intuitivamente certo, você segue em frente.
Nessa nota, nós conhecemos a Charli aleatoriamente em um bar no bairro do Jeremy, às três da manhã. Eu queria ir para casa dormir, e o Jeremy disse para ficarmos. [Risos] Ao conhecê-la, começamos a falar sobre cinema e ficou claro que ela era uma pessoa interessada em fazer coisas, interessada em cinema, atuação e colaboração. Ela foi uma parceira natural para criarmos algo juntos. Eu estava morando em Varsóvia e perguntei se ela queria ir para lá filmar algo. Ela pareceu aberta à ideia, e essa abertura que sempre buscamos em colaboradores – pessoas que ficam animadas em caminhar em direção ao desconhecido.
Mas isso foi em maio de 2024, antes de todo o fenômeno brat. Ao mesmo tempo, ela é uma artista que está na estrada há uma década, entende sua prática e como colaborar. O fato de o mundo inteiro ter ficado verde e obcecado por ela me fez pensar que o filme não aconteceria, porque ela estava sendo puxada em todas as direções, mas ela ainda quis vir para Varsóvia por duas semanas durante o verão mais movimentado da sua vida. Isso mostra onde estão as prioridades dela, e que ela está nisso pelas razões certas.
HARRIS: Em “Rock Music”, ela diz "eu e minhas amigas/nós saímos/tiramos fotos e fazemos coisas juntos". Essa ideia, de que ela gosta de fazer coisas com os amigos, estava no cerne dela ter vindo para Varsóvia e dito sim para o projeto. O que é mais louco para mim é que ela não estava apenas prestes a sair em turnê e lançar clipes, mas também estava fazendo o álbum de remixes todos os dias depois de sair do set. Ela ia para o quarto de hotel e trabalhava no álbum. O hotel Nobu Varsóvia foi o estúdio dela para terminar aquele álbum, o que é muito f*da.
OMELETE: Bom, Varsóvia é um cenário fantástico para esta história, quase um personagem no filme. Pete, você disse que estava morando lá – como a cidade te inspirou a criar esta história, e o que você acha que ela acrescenta ao filme?
OHS: Todos os filmes que fiz com esse processo colaborativo começaram com uma locação, e este definitivamente começou com Varsóvia. Eu estava morando lá por razões românticas; tive o impulso de tentar me tornar europeu. [Risos] Mudei-me para a Polônia e de repente me deparei com a realidade de quão desafiador é morar tão longe da vida que eu levava, em um país onde não falo a língua. Essa coisa da idealização versus realidade era algo que eu sentia que precisava processar e entender, e tudo isso foi infundido subconscientemente neste filme.
O que é incrível é que eu me inspiro em uma locação, mas a próxima coisa que preciso pensar é: quem estará na frente da câmera? Bom, dois anos antes, eu tinha conhecido a atriz Lena Gora em um festival de cinema na Polônia. Ela tinha feito o inverso do que eu estava prestes a fazer: foi para os Estados Unidos, com uma equipe polonesa, e fez um filme em inglês. Então, a ideia de fazer o inverso no país dela, e tê-la como uma das colaboradoras, fez com que essa oportunidade se desenrolasse à minha frente. Eu faria um filme nesta cidade que estava me inspirando, com colaboradores que me dariam um ponto de acesso muito específico ao mundo que eu estaria criando.
OMELETE: Perfeito, Pete. Muito obrigado, queridos, e parabéns pelo filme mais uma vez!
OHS: Obrigado, Caio!
HARRIS: Tchau tchau, obrigado!
*Erupcja já está em cartaz nos cinemas brasileiros!
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