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Artigo

Entrevista exclusiva: Sean Sam Astin e Andy Gollum Serkis

Conversamos com Samwise Gamgi e Gollum de O Senhor dos Anéis

Marcelo Forlani, de Paris
26.12.2002, às 00H00
ATUALIZADA EM 20.11.2016, ÀS 22H03
ATUALIZADA EM 20.11.2016, ÀS 22H03

Frodo (Elijah Wood) e Sam
(Sean Astin) se aproximam dos
portões negros de Mordor.



Gollum (Andi Serkis) leva o jantar
ao "mestre" Frodo...


... e discute com Sam sobre a
melhor maneira de prepará-lo.


Serkis durante uma sessão de
captura de movimentos em estúdio...


... e durante as filmagens.

O produto final, esquizofrênico
e viciado.

Entram na sala um carinha com um topete que deixaria Johnny Bravo com inveja e um outro com um Apple Powerbook na mão. Se eles não fossem anunciados, eu dificilmente saberia que se tratavam dos atores que interpretam Gollum e Sam Gangi em O Senhor dos Anéis. O primeiro, porque seu rosto e corpo foram totalmente maquiados por pixels, o segundo, porque é mais magro que seu personagem. E o micro, pra que serve? A resposta está lá embaixo.

A missão de Sam é proteger Frodo. Você acha que quando Gollum aparece na história Sam fica com ciúmes?

Sean Astin: Sim. Infelizmente Sam não é perfeito e ele se desestabiliza emocionalmente quando a criatura aparece. E ele se sente meio traído por Frodo e meio confuso, desapontado, enciumado mesmo. Sam não é só um servidor cego, ele também tem sentimentos.

Christopher Lee disse que Sam é o grande herói da história.

SA: Tem realmente algo muito heróico em alguém que resolve dar tudo de si por outro. Mas pela forma como eu via o personagem, ele é totalmente moldado pela sua servidão a Frodo. E eu gostava de chamá-lo de Mestre. Acho que há um respeito mútuo entre os dois que permite que ambos sejam generosos ao mesmo tempo. Frodo não é do tipo que impõe nada.

Sam chega a agir como a consciência de Frodo.

SA: Se você quer dizer que ele é a pessoa que indica o caminho quando não há luz, que mostra o que é certo ou errado na hora da dúvida, eu diria que sim. Mas Frodo sabe discernir bem o que é certo ou não.

Olhando para a sua cara, não daria pra imaginar que você interpretou Gollum. Por que decidiu aceitar o papel?

Andy Serkis: Foi um processo demorado, que começou com o desejo de Peter [Jackson] em ter um ator de verdade controlando psicológica, física e emocionalmente o personagem. Gollum um dia foi um hobbit e tem toda esta necessidade física e emocional, por isso era importante ter alguém dentro de sua mente.

Sobre o visual dele, trabalhei em cima dos desenhos de Alan Lee e John Howe. O jeito como vi o personagem foi totalmente baseado na forma como Tolkien o descreveu. Como andar, como falar, estava tudo ali no livro. E também usei desenhos de artistas que eu mesmo fui atrás, como Leonardo da Vinci e artistas impressionistas alemães. Eu juntei todas estas informações para compor sua forma física. Para chegar nisso, estudei também o lado psicológico do Gollum, que é praticamente um viciado. Ele é esquizofrênico e paranóico, um mentiroso compulsivo, que se sente uma vítima, se odeia. Quando juntei tudo isso criei a voz e os movimentos de Gollum.

O que você acha que fez Peter Jackson te dar este papel?

AS: Acho que Peter viu em mim um cara esquisito e esquizofrênico (risos).

Falando sério, quando eu fiz o teste para o papel, eu não sabia como seria o processo de criação. Meu agente havia me falado que seria um personagem construído por computação gráfica e que eu só iria dublar a voz. Mas quando me encontrei com Peter ele explicou exatamente o que ele queria. Havia um certo medo porque nunca um personagem tão importante tinha sido feito apenas usando computação gráfica. Não tínhamos em quem nos basear.

Mas acho que boa parte do sucesso de Gollum vem justamente do fato dele ser um produto digital. Você escuta a sua dor e entende o que o Um Anel faz em uma pessoa. A CG ajuda a aumentar este sofrimento. Esse foi um dos motivos que me levaram a pesquisar os impressionistas alemães. Você pega uma pintura dessa época e pode ver o que se passa na mente dos personagens, mesmo aquilo não sendo real, nem mesmo fotográfico. É tudo fruto da imaginação e do talento deles.

SA: Ele está fugindo completamente da sua pergunta. (risos) A resposta é que ele é uma das pessoas mais doces com quem já trabalhei. Há muito charme e decência neste cara aqui, principalmente quando você o conhece fora do trabalho e vê a forma como ele trata as pessoas. Mas é sua capacidade de ir até a escuridão e depois voltar e mostrar todo este lado bom que o diferencia.

Você já tinha trabalhado num papel tão forte fisicamente?

AS: Sim, eu interpretei o bobo da corte em Rei Lear (de Shakespeare), fiz dog-boy que é um mendigo na peça Hush que mata seu cachorro e depois invade uma casa em busca de um pouco de carinho. Eu uso muito a parte física nos papéis que eu pego, sempre combinando com a parte psicológica, claro.

É verdade que a New Line enviou seu nome para o Oscar?

AS: Sim, eles estão tentando uma indicação para Melhor Ator Coadjuvante.

SA: Seria o primeiro personagem feito em CG a concorrer ao prêmio!

AS: Não é tão diferente do que John Hurt fez em O Homem-Elefante (The Elephant Man, de David Lynch - 1980). Ele criou os aspectos físicos, a voz, o jeito, enfim, o lado psicológico do personagem. Daí vinham várias pessoas e enchiam a cara dele de maquiagem até ele ficar irreconhecível. A diferença é que desta vez a maquiagem foi feita com pixels.

Se vocês pudessem escolher um outro personag...

SA: Legolas! Fui muito rápido? (risos) Ele é muito legal! Luta com espadas, facas.

AS: Eu escolheria Gollum de novo.

Os atores trabalham muito para se tornarem famosos, terem seus rostos reconhecidos. Não é frustrante interpretar algo que não se parece em nada com você?

AS: Não para mim, porque eu não trabalho para ser reconhecido na rua. Eu não quero que as pessoas me vejam só como Gollum, porque há vários outros personagens interessantes para fazer. Anonimato pode ser uma grande qualidade para um ator.

Mas o desafio desta vez era justamente criar um personagem feito por CG em que as pessoas pudessem acreditar. O que me deixa mais feliz como ator é quando eu mergulho com tudo no personagem.

SA: É difícil as pessoas acreditarem que não é o resultado final o que mais nos interessa.

AS: Exato! É o processo! Peter Jackson provou isso mais do que nunca. Não existia a pressa habitual de criar um roteiro, pegar o dinheiro, fazer o filme e colocar em cartaz. Houve um comprometimento de sete anos das vidas de muitas pessoas neste filme.

SA: Outra palavra que acho que resume o espírito de todas as pessoas envolvidas é inovação. Tem um ar de descobrimento na Nova Zelândia. Eu imagino que os anos dourados de Hollywood tiveram aquele espírito, com pessoas tentando fazer o que ninguém tinha feito até então. Os neo-zelandeses têm essa energia. Peter Jackson é do tipo de cara que fala ninguém fez isso ainda? Então vamos tentar!

Você tem mais lembranças de Os Goonies ou O Senhor dos Anéis?

SA: Em termos de quantidade, tenho de dizer OSdA, porque foram três filmes em vez de um, foi um processo muito mais longo e é algo que está mais fresco em minha mente. Mas eu tenho ótimas lembranças de Goonies.

É verdade que estão pensando num Goonies 2?

SA: É verdade que Spielberg quer fazer, mas não sei se vai ser feito ou não. Sei que ele gostaria de fazer o segundo filme desde que o primeiro fez sucesso. Ele me falou no Globo de Ouro no ano passado que há um roteiro com o qual ele está quase feliz.

O seu novo filme está aí no micro?

SA: Sim, estou trabalhando nele o tempo todo.

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