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Entrevista exclusiva: Peter Jackson, diretor de <i>O Senhor dos Anéis</i>

O Hobbit fala ao Omelete

Marcelo Forlani, de Paris
24.12.2002
00h00
Atualizada em
12.12.2016
03h17
Atualizada em 12.12.2016 às 03h17

Peter Jackson

Gollum, o melhor personagem,
segundo os atores


Frodo e Sam

Arwen, ressaltando a importância

dos elfos no filme

Faramir - Maior complexidade
ao personagem


As ruínas de Osgiliath - a viagem
inédita de Frodo e Sam


Saruman, a Revolução Industrial

O diretor de O Senhor dos Anéis é uma figura! Ele chega no quarto do mais luxuoso hotel parisiense vestindo bermuda, camisa polo e... descalço! Philippa Boyens, que escreveu o roteiro junto com ele, estava melhor vestida e ficou na sua. Abriu a boca poucas vezes, como você vai poder conferir na estrevista a seguir. Os dois falaram das mudanças que tiveram que fazer no roteiro, da história de mudar o título As Duas Torres após os atentados de 11 de setembro e do lançamento do DVD quádruplo no Brasil. Se arrume na cadeira e divirta-se!

Você está sempre de bermuda e descalço, por quê?

Peter Jackson: Quando eu saí da Nova Zelândia, uns dias atrás, era verão! (risos) É apenas porque eu me sinto mais à vontade deste jeito. É muito bom estar descalço, especialmente andando no carpete.

Depois do primeiro filme, você foi comparado a um hobbit. Depois do segundo, podemos te comparar com um mago? Qual personagem você preferiria?

PJ: Eu adoro o Bilbo Bolseiro. Ele é com certeza meu personagem preferido, mesmo ele quase não aparecendo em OSdA. Bilbo é o hobbit que começou tudo, por isso tenho este carinho especial por ele.

A maioria dos atores que passou por aqui hoje se referiu ao Gollum como o melhor...

Gollum é maravilhoso! Ele acabou se tornando mais amargurado do que eu tinha imaginado. A tecnologia se desenvolveu tão rapidamente que foi tornando o filme melhor enquanto o fazíamos. Quando nós filmamos, entre 1999 e 2000, eu nunca imaginaria que Gollum ficaria tão bom. Quando estávamos no set, pensávamos de acordo com a tecnologia daquela época. Três anos depois, muita coisa melhorou, evoluiu e o personagem evoluiu junto.

O que deixou você confiante em adaptar O Senhor dos Anéis, depois das fracassadas tentativas anteriores?

PJ: Se há um segredo no que nós fizemos em relação ao que foi feito antes, é que nós estávamos fazendo três filmes, com um total de 9 horas, e não compilando tudo em duas horas e pouco. Isso fez toda a diferença.

O tema do primeiro filme era o descobrimento e crescimento dos personagens diante dos perigos. Qual o tema deste segundo filme?

PJ: Os temas de Tolkien são muito complexos, mas não acho que haja mudança de tema a cada filme, ou livro. O Senhor dos Anéis tem, na verdade, vários temas diferentes.

O Professor Tolkien escreveu esta história entre 1937 e 1949, doze anos em que o mundo mudou muito. Uma das coisas que ele mais temia era ver a humanidade perder o seu mundo livre. Frodo aceita sua missão porque entende que, se ele ficar no Condado, ele e os outros hobbits vão ser capturados e transformados em escravos por Sauron.

Mesmo os temas ambientais do livro são dirigidos pelo seu medo de aprisionamento. Tolkien odiava pensar que as pequenas cidades do interior da Inglaterra estavam sendo engolidas pelas fábricas que surgiam com a Revolução industrial. Ele via isso como uma forma de escravidão.

Quais as liberdades que vocês tomaram na hora de adaptar o livro para o cinema?

PJ: Nós procuramos manter os personagens principais e a linha de desenvolvimento da história. A maioria das coisas que você leu no livro estão no filme. As mudanças que fizemos tiveram suas razões. Ou foram para simplificar a complexidade do livro, o que nós tivemos que fazer bastante, ou para dar mais profundidade aos personagens, o que Tolkien não fazia muito.

Por exemplo?

PJ: A relação entre Frodo e Sam, por exemplo. Tem uma cena no filme em que eles discutem. Isso não existe no livro. A verdade é que todas as coisas que usamos na trilogia estão diferentes no livro. Não há uma única cena em que começamos a filmar e seguimos linha a linha exatamente como foi escrito por Tolkien.

É o caso também do que estava acontecendo com os diferentes membros da Comitiva depois que ela foi separada.

PJ: Exato! Nós tínhamos que fazer os acontecimentos do livro correrem paralelamente, para que as pessoas entendessem que as três histórias estavam acontecendo ao mesmo tempo, com tudo chegando ao clímax na mesma hora. Não daria para fazer cada história separadamente, terminar e depois voltar e fazer a outra, como acontece no livro. Não ficaria bom.

Uma coisa que nunca acontece no livro é a viagem de Frodo até Gondor. Por que vocês fizeram desta forma?

PJ: Nós só queríamos dar mais complexidade ao Faramir e sua relação com Frodo. No livro, Frodo não é capturado por Faramir e seus soldados. Não há dramaticidade. Faramir logo entende que Frodo deve seguir o seu caminho. Nem que o encontrasse [o Um Anel] na estrada, o tomaria, diz ele. No livro, ele é muito puro. Mas no filme, naquele momento, estávamos mostrando todo o poder que o Um Anel tem e o quão perigoso ele é.

Todos os atores que passaram por aqui hoje falaram de como eles ficaram maravilhados pelo trabalho que foi feito antes deles chegarem ao set. Quanto tempo vocês gastaram na pré-producao?

PJ: Desde que começamos o trabalho no roteiro até o primeiro dia de filmagem foram três anos.

Quando vocês estavam filmando, você isolou o elenco e a si mesmo dos rumores que rolavam no mundo?

PJ: Não isolamos ninguém. Todos tinham acesso a Internet. Nós estávamos interessados no que as pessoas estavam falando e tentando adivinhar o que fazíamos ali. Mas não nos deixamos influenciar pelo mundo exterior, porque nós tínhamos nossos planos, nosso roteiro.

Qual foi o rumor mais bizarro que vocês receberam?

PJ: Uma pessoa estava especulando que nós íamos transformar Sam em um personagem feminino.

Philippa Boyens: Ou que eles fossem um casal gay (risos)

PJ: Pois é, eles falavam que não havia muitos personagens femininos em O Senhor dos Anéis e que nós íamos fazer isso com Sam.

PB: Samantha Gamgi (risos)

Vocês chegaram a cogitar o fato de mudar o título As duas torres após os atentandos de 11 de setembro?

PJ: Não. Alguém na internet fez uma brincadeira, que eu achei brilhante, e começou um abaixo-assinado indagando como nós ousaríamos usar o título As duas torres depois do que tinha acontecido em Nova York. Falaram que eu estava tentando ganhar dinheiro em cima desta terrível tragédia. O cara só tava brincando, mas a mídia encarou isso como algo real.

Nós nunca nem levamos isso em consideração, nunca discutimos isso com o estúdio. Afinal, o livro é uma das obras mais lidas desde seu lançamento, 50 anos atrás, e não parecia a coisa certa mudar o título.

E as diferentes interpretações do livro e seus significados?

PJ: Pessoas por volta de seus 60 anos podem dizer coisas como o anel significa a bomba atômica. Na época do lançamento, as pessoas tentavam adivinhar o significado das coisas e incluir crenças políticas. Tolkien sempre negou tudo isso. Mas ao mesmo tempo, o livro é um produto do que Tolkien viveu. Ele foi à Primeira Guerra Mundial, dois de seus melhores amigos morreram no front e ele, logicamente, sofreu muito com isso. Vários trechos do livro foram escritos para alguém que queira entender o que é estar no meio de uma guerra.

Vocês lêem histórias em quadrinhos? Pensam em fazer algum filme baseado em HQs, depois do sucesso de Homem-Aranha, X-Men, etc?

PJ: Nunca li HQs, pra falar a verdade.

PB: Nem eu.

PJ: Eu li Tio Patinhas e Mickey quando era pequeno, nos anos 60. Mas foi a última vez que eu me lembro.

PB: E nós não vamos fazer nenhum filme sobre o Mickey Mouse! (risos)

PJ: Mesmo adorando as fantasias, os efeitos especiais e este tipo de filme, eu nunca fui muito fã de quadrinhos. E não sei o porquê. Provavelmente eu ia adorar!

PB: Eu adorei Homem-Aranha! Mas acho que as pessoas têm de ter paixão na hora de fazer um projeto destes. É este tipo de pessoa que faz a diferença na hora de filmar.

Que é o caso de vocês com OsdA.

PB: Exatamente.

Vocês filmaram tudo de uma vez só, mas estão lançando um filme por ano. Após o lançamento de A Sociedade do Anel, vocês fizeram alguma mudança em As duas torres, baseado nas críticas e reações dos espectadores?

PJ: Acho que não. E eu digo acho que não porque é difícil dizer quanto os fatores exteriores te influenciam. O fato é que nós tínhamos pouca coisa que poderíamos mudar, pois nós já tínhamos filmado tudo. Nós editamos As duas torres este ano, usando a mesma sensibilidade de A Sociedade do anel. Você olha para tudo o que filmou e tenta retirar dali o melhor resultado possível.

Você sabia que o box especial com 4 discos não foi lançado no Brasil?

PJ: Não?!

Não. Você poderia fazer alguma coisa para mudar isso?

PJ: Sim, eu posso tentar. Mas vai ser lançado? Não está só atrasado?

Até onde eu sei, não será lançado. Outros países da América Latina têm o produto.

PJ: É uma surpresa para mim. Vou ver o que está acontecendo.

O que vocês preparam para este novo DVD?

PJ: Nós já estamos trabalhando no DVD de As duas torres. Antes de vir pra cá, estava justamente fazendo isso. A versão expandida, que está quase terminada, terá 35 minutos a mais do que a versão do cinema. E devem haver mais umas 6h ou 7h de documentários e novas atrações, pois tínhamos alguém com uma câmera o tempo todo no set.

No começo de cada episódio de Star Wars, há um resumo que situa o espectador no que aconteceu antes daquele momento. Você fez um pouco disso em A Sociedade do Anel, mas em As duas torres, não há nada disso. Por que você resolveu pular direto pro filme?

PJ: Eu só usei o que achei que era o certo. Eu acredito que as pessoas que vão ao cinema ver As duas torres assistiram à Sociedado do Anel. Por que uma pessoa veria a segunda parte de uma história se não viu a primeira? Por isso não queria que os primeiros cinco minutos de As duas torres fossem baseadas nessa meia dúzia de pessoas. Sempre pensei nos que já sabem o que aconteceu porque leram o livro, ou viram A Sociedade do Anel. Imagino que nós tivemos apenas um intervalo para sair da sala, pegar um novo pacote de pipoca e continuar a nossa história.

Mas se alguém não viu no cinema a primeira, mas quer ver a segunda parte, ela pode comprar o DVD, ou pegar emprestado de um amigo que tenha e não gastar nada.

Os filmes têm finais diferentes do que acontece nos livros, porque você dicidiu fazer estas mudanças?

PJ: O fim do primeiro filme é bem parecido com o livro. Sei que a morte de Boromir foi tirada do início do segundo livro, mas lá ela é contada num flashback. O rompimento da Sociedade é o fim do primeiro livro. As duas torres realmente é bem diferente. Nós empurramos o encontro com a aranha gigante para o último filme.

Nós fizemos isso por uma série de motivos. A principal delas foi colocar tudo numa linha temporal mais compreensível. Colocando nessa ordem, Frodo, Sam e Gollum estão escalando a toca da Laracna ao mesmo tempo em que Minas Tirith está sofrendo ataque. Como este é um evento de O retorno do Rei, nós tivemos que alinhar os fatos.

Por que vocês decidiram incluir os elfos no abismo de Helm?

A batalha do Abismo de Helm

PB: Foi uma escolha interessante. Aquela cena foi criada para fazer o público se identificar com os elfos, principalmente pela importância de Arwen na história. Mas por outro lado, há a parte em que Elrond envia seu filho para Aragorn. Nós nunca poderíamos fazer isso, porque teríamos que introduzir pelo menos dois novos personagens e isso seria muito difícil naquele momento. Então, nós mostramos os elfos chegando e lutando ao lado dos homens. Esta foi uma das invenções de Pete e quando ele tem estas idéias, você só deve acreditar nela também, por mais que você fique pensando onde ele quer chegar fazendo isso?

E vendo a reação da platéia, ele estava certo mais uma vez. Todo mundo vibrava ao ver os elfos chegando para ajudar os homens naquela hora em que tudo caminhava para um fim terrível. Mesmo sabendo que nada disso está no livro, era a coisa certa a ser feita.

E o terceiro filme, já está pronto?

PJ: Eu ainda tenho que editá-lo e este é um momento muito importante, porque dependendo das escolhas, você pode dar ou tirar o ritmo do filme no fim. O Retorno do Rei é o meu preferido. Ele é mais emocionante, obviamente porque é o clímax de toda a história, mas também porque ele é um espetáculo maior do que os anteriores.

Tolkien nos fez um enorme favor ao construir algo crescente. Como um cineasta, é exatamente o que qualquer um gostaria de filmar. Há algo bíblico neste livro, um desfecho cataclísmico, eu diria.

PB: Eu adoro este livro porque tudo vai ficar cada vez maior e o caminho de Frodo e Sam vai se tornando cada vez menor.

Qual a próxima história em que vocês estão trabalhando?

PJ: Não temos nenhum trabalho em mente para depois de O Retorno do Rei. Tenho uns sete projetos em mente, uns pequenos, outros enormes, mas não dá para pensar nisso agora. Temos que nos dedicar 100% ao terceiro filme ainda.

Daí vai tirar umas férias?

Sim, preciso de uns dias de folga, mas não agora. O Retorno do Rei vai ser lançado mundialmente em 17 de dezembro de 2003 e eu pude comprovar que você pode sempre melhorar o seu trabalho se você continua trabalhando nele sem parar. Não importa se é um roteiro, a filmagem, edição ou computação gráfica, o que você está vendo no final é sempre o melhor resultado do que você poderia entregar naquele momento. Se você tivesse mais tempo, obviamente faria melhor. Por isso não quero tirar nenhum dia de folga enquanto O Retorno do Rei não estiver pronto.

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