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Entrevista

Enterrado Vivo | Omelete entrevista Rodrigo Cortés

Cineasta espanhol conta como conseguiu Ryan Reynolds, as dificuldades da filmagem e ligações telefônicas

Marcelo Forlani
10.12.2010, às 00H44
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H12
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H12

Rodrigo Cortés é um desconhecido do grande público. Ou ao menos era. Com a estreia de Enterrado Vivo (Buried), ele ganhou notoriedade suficiente para garantir Robert De Niro, Sigourney Weaver e Cillian Murphy para fazer seu próximo projeto, Red Lights. Mas não pense que foi fácil. Diretamente de Madri, o cineasta contou por telefone ao Omelete como conseguiu Ryan Reynolds para ser seu único personagem em Enterrado Vivo, as dificuldades da filmagem e os problemas com as ligações telefônicas, que são um aspecto importantíssimo na trama do filme. Veja como foi:

É o Rodrigo?

Enterrado Vivo

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Enterrado Vivo

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Enterrado Vivo

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Enterrado Vivo

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Enterrado Vivo

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Sim, é o Rodrigo.

Como vai, tudo bem por aí?

Vou bem e você?

Tudo bem também. Só para saber, onde você está agora?

Estou na Espanha, em Madri. Acabei de chegar de Zurique.

Legal. Madri é uma cidade linda.

É mesmo.

Você não acha irônico nós fazermos esta entrevista pelo telefone?

Você está perguntando isso por causa do filme? Me desculpe, mas a conexão está ruim, assim como no filme. E realmente é irônico. [risos]

Qual foi o maior desafio técnico que você teve neste filme? Foi a luz, foi o som?

Me dá vontade de dizer que tudo foi muito difícil. Eu queria fazer este filme sem restrições, sem limites. Então, a primeira coisa que fiz foi não pensar muito no caixão. Porque se você fizer isso, você está se restringindo e pensando nas coisas que não podem ser feitas. Eu planejei este filme como se ele fosse feito nas ruas de Nova York, sem renunciar a nada. Tínhamos gruas e tudo mais, e para ajudar nós construímos sete caixões diferentes. Um deles não tinha as paredes, então podíamos fazer a volta completa ao redor do caixão, outra era bastante longa, para dar a perspectiva, tínhamos câmeras em cima dos trilhos...

E a iluminação não foi nada fácil. Nós queríamos que fosse forte, uma experiência física. A ideia era fazer um filme para ser experimentado não só com seus olhos, mas também com seus culhões, seus músculos, sua carne. Tudo tinha que ser sensorial para termos esse sentimento de realidade. Por isso começamos com a luz e, claro, a escuridão. Você não pode ter medo de usar o escuro. 70% do nosso filme foi feito usando a iluminação dos próprios elementos de cena, o isqueiro Zippo, a lanterna, o glow stick e o próprio celular.

E a continuidade e a edição? Você poderia montar o filme de várias maneiras. Você sentiu mais liberdade pelo que o próprio filme é ou foi justamente o contrário?

Você está certo. O grande pesadelo de fazer um filme como este é a continuidade. O difícil não é fazer o filme dentro de um caixão, mas sim fazê-lo em tempo real porque os cortes são feitos do Ryan para o Ryan, do Ryan para o Ryan e do Ryan para o Ryan de novo. Não existe um outro ator para mostrar. Se você tem um problema com uma posição, você não tem como esconder isso mostrando o outro ator e depois voltar quando ele estiver na posição certa novamente. Tudo tem que se encaixar perfeitamente. Tem que haver uma coreografia perfeita. Nós rodamos o filme em ordem cronológica e íamos editando enquanto filmávamos, o que ajudou porque sempre sabíamos o que havia acabado de acontecer e para aonde iríamos. Essa era a única forma de fazer o filme funcionar.

E qual foi a dificuldade de vendê-lo aos estúdios?

Para ser sincero, não posso falar das dificuldades, mas posso te dizer que foi rápido. Não sei se foi fácil. Nós decidimos fazer sozinhos toda a produção, controlando tudo desde o começo, porque nós queríamos ter o controle criativo. Se você pretende fazer um filme como este, é melhor você ter o controle porque se não for assim, você não consegue começar com três minutos completamente no escuro, ou cortar para o escuro de tempos em tempos, nem fazer o filme inteiro no caixão, ou terminá-lo como nós terminamos.

Daí nós fomos para o Festival de Sundance, que nós achamos que era o lugar certo para apresentar o filme para o mundo. E lá nós vimos filas de seis horas na neve e pessoas revendendo os ingressos por até 10 vezes o valor original. E quando o filme foi mostrado, começou um leilão entre estúdios e no dia seguinte, menos de 24 horas depois da exibição, já sabíamos que a Lionsgate tinha levado. Foi rápido demais. Acho até que que não conseguimos aprender muita coisa com isso, de tão rápido que foi.

E como você conseguiu Ryan Reynolds para estrelar o filme?

Eu queria trabalhar com ele desde que eu vi Número 9 (The Nines), três anos atrás. Naquele filme, eu vi que ele podia fazer não só comédia, mas também mostrar as mais profundas emoções até em pequenas cenas. Ele tem um timing impressionante. Coisa de outro planeta. Então eu mandei o roteiro para ele, que leu muito rapidamente e disse que era um dos roteiros mais atrativos que ele tinha lido e me desejou boa sorte dizendo que não ia fazer simplesmente porque era impossível de ser filmado. Ele me disse que daria para fazer um ótimo livro, mas nunca um filme. Daí ele me pediu para ver meu primeiro longa-metragem, chamado The Contestant, e eu mandei para ele. E alguma coisa ali o atraiu, porque assim que ele terminou de ver, me ligou dizendo que queria saber mais sobre o projeto. Daí mandei para ele um plano de filmagem de 15 páginas que detalhava como eu pretendia filmar o infilmável. Dois dias depois nós nos encontramos em Los Angeles e 40 minutos depois estávamos batendo o martelo. Também não diria que foi fácil, mas foi rápido.

E como foi para você saber que ele tinha sido escalado para ser o Lanterna Verde? É algo que com certeza chama atenção para o seu filme, né?

Sim, é verdade. Quando nós começamos a filmar, nós já sabíamos que ele ia ser o Lanterna Verde. Mas isso não mudou nada. O único problema que tivemos foi que a agenda de filmagens teve de ser acelerada e nós filmamos tudo em 17 dias porque ele tinha que ir fazer Lanterna Verde. E isso foi um pesadelo porque em vez de filmarmos de 8 a 10 cenas por dia, acabamos fazendo entre 30 e 35. Em um dia, fizemos 52! Mas todo esse sofrimento, inclusive do Ryan, nos ajudou a criar um comprometimento ainda maior com o projeto.

O filme tem ligações que acabam perdidas em secretárias eletrônicas e telemarketing. Você teve problemas com eles?

Quem não teve? Todo mundo passa por isso todos os dias. Se você quer mudar de operadora de celular, se quer cancelar sua internet ou qualquer outro serviço, é impossível. Eu vejo este filme como se Kafka fosse escrever uma comédia. E é claro que uma comédia escrita por Kafka nunca vai ser engraçada. Acho que é por aí.

No filme você tem o lado humano, mas tem também questões políticas. Como foi colocar isso no roteiro sem pesar muito para um lado ou para o outro?

Eu acho que o aspecto humano é tudo. Ele inclui a política, o aspecto social e tudo mais. O mais importante era que as pessoas pudessem se relacionar com o personagem, criar uma empatia com ele. Tinha de ser bem escrito para que todos entendessem suas emoções em cada momento da história. O lado político e o comentário social funcionam como uma metáfora do ocidente, dos nossos dias, da mediocridade humana com que convivemos, de como é fácil algum órgão conseguir algo de você, mas é impossível você conseguir algo deles. Tínhamos de falar disso porque assim criamos emoções com que as pessoas podem se relacionar e assim se conectar com Paul [o personagem de Reynolds].

Além do seu filme, recentemente tivemos [REC], que saiu da Espanha e foi exibido aqui no Brasil, nos Estados Unidos e tal. Dá para chamar isso de uma onda de thrillers vindos da Espanha? Ou são casos isolados?

Acho que não consigo falar sobre isso. Deixemos isso para os historiadores ou jornalistas, que podem desenhar duas linhas no chão e dizer se há uma geração de novos cineastas, ou algo do tipo. Cada um de nós vive num lugar diferente, não comemos juntos, não compartilhamos nada. Apenas fazemos nossos trabalhos. Aqui na Espanha não há uma indústria cinematográfica. Nós sempre nos sentimos como franco-atiradores: nós vamos lá, fazemos um serviço e rezamos para que consigamos fazer de novo. O que não é nem um pouco fácil. O que nós passamos aqui é bem diferente da forma como as pessoas nos veem do lado de fora.

E você pode sugerir outros filmes espanhóis recentes que nós devemos ver?

Pode começar pelo próprio [REC]. Daí temos também The Birthday, de Eugenio Mira, que é sensacional. E muitos outros, mas estes são os dois que me vêm à cabeça agora.

Para encerrar, o que você pode falar sobre Red Lights, seu próximo filme?

Vai ser um thriller paranormal ou um thriller psicológico com fundo paranormal e uma pegada científica. Vai ser uma disputa entre os cientistas racionais céticos e aqueles que acreditam nas coisas. Vamos explorar como o nosso cérebro não é uma ferramenta em que podemos acreditar para entender a realidade, porque ele mente. O cérebro humano é uma ferramenta imperfeita.

Muito obrigado.

De nada. Obrigado por ligar.

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