Em Pedaços | "A pior guerra do mundo contemporâneo é a paranoia", diz diretor Fatih Akin

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Entrevista

Em Pedaços | "A pior guerra do mundo contemporâneo é a paranoia", diz diretor Fatih Akin

O premiado cineasta teuto-turco fala sobre o drama com Diane Kruger sobre fantasmas do neonazismo

Rodrigo Fonseca
13.03.2018
19h14
Atualizada em
15.03.2018
01h01
Atualizada em 15.03.2018 às 01h01

Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, laureado antes em Cannes com o prêmio de Melhor Atriz, Em Pedaços (In The Fade em inglês), drama político alemão com Diane Kruger afogada em luto pela perda do marido e do filho, estreia nesta quinta-feira (15) no Brasil na esteira da consagração mundial de seu diretor, Fatih Akin.

Embora tenha nascido em Hamburgo, há 44 anos, o cineasta abraçou sua descendência turca como uma bandeira ética e estética, mesmo quando filma em solo germânico. Conflitos multiculturais e xenofobia são os temas centrais de sua obra, revelada em 2004 com um Urso de Ouro por seu trabalho na direção de Contra a Parede - para muitos, sua obra-prima. No esforço para transpor o canteiro do circuito autoral e dialogar com plateias maiores, das salas de exibição comerciais, ele foi buscar o apelo do carisma de Diane e de um assunto mais inflamado: a existência de células neonazistas na Alemanha.

Neste novo longa-metragem, Akin flagra o preconceito contra imigrantes ao sugerir as causas da explosão que mata o marido de sua protagonista, Katja (Diane). Ele vinha da Turquia e cometeu um crime em seu passado. Mas mudou de vida... ao lado dela. A morte dele e do filho do casal espelha a tensão com o povo turco em terras germânicas e sublinha a onda de intolerância europeia. Nesta entrevista dado ao Omelete na França, o diretor faz um balanço da trama e do continente onde ela se passa. 

Omelete: Há quem defina Em Pedaços como história de vingança. Que revanchismo há nele?

Fatih Akin: Existe algo mais significativo do que a vingança neste filme: é o sentimento de se reconhecer pertencente a algo, de fazer parte de um grupo. Katja vem de um passado de loucuras mas aceita o amor como um caminho de transcendência. O amor é um marido apaixonado e um filho carinhoso. Buscar os resquícios desses dois e honrar o que eles foram é o norte dela após uma tragédia que a devasta. Não quero que este filme seja entendido como um manifesto do ódio e sim como uma triagem dos desafios que o ódio nos traz.
 
Omelete: O que gera o ódio no mundo em que o senhor vive, parte alemão, parte turco?  
Fatih Akin: O medo. É ele que nos deixa em estado de sítio, em vigília. A pior guerra do mundo contemporâneo não é aquela em que helicópteros atiram bombas em inocentes, é, sim, a guerra da paranoia, da desconfiança, do descrédito no próximo.   
 
Omelete: O que Diane deu à figura de Katja? 
Fatih Akin: Diane é muito mais do que uma estrela internacional: ela é uma das mais consistentes atrizes de nosso tempo. É alguém que pensa sobre o mundo à nossa volta e se deixa contagiar pela realidade ao nosso redor. E é essa reflexão global que ela faz o que dá mais profundidade à figura de Katja. Diane permitiu que eu construísse um arquétipo de mãe capaz de tudo para honrar a memória do filho.
 
Omelete: Há onze anos, ao receber o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes por Do Outro Lado (2007), o senhor comentou que a realidade do povo turco estava ameaçada. Chegou a dizer: "Unidos ficamos de pé; separados, caímos". O que mudou?
Fatih Akin: Ainda existem conflitos internos na Turquia, mas o caos maior e mais grave está na diáspora de povos como o meu pelo mundo... um mundo xenófobo, que não tolera diferenças culturais. O maior obstáculo da paz é a intolerância. E, politicamente, o terror acabou sendo institucionalizado como desculpa para conflitos que poderiam ser resolvidos na diplomacia, na união. 
 
Omelete: O quanto o sucesso de Em Pedaços, com 11 prêmios internacionais e uma bilheteria de U$ 4 milhões só em solo europeu, colabora para o êxito do cinema alemão? 
Fatih AkinA cultura audiovisual tem muitas formas, muitas vitrines e muitas tendências, dentro de uma só nação. O importante é fazer com que elas convivam com harmonia. Somos uma só família no cinema, na TV, nas plataformas de VOD. O que eu busco no contexto atual do cinema alemão é explorar o multiculturalismo.
 
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