Filmes

Entrevista

Em Nome da Lei | Chico Diaz fala sobre sua experiência no cinema brasileiro e o novo papel como vilão do filme

Ator comenta também sobre a nova novela Velho Chico

Rodrigo Fonseca
29.03.2016, às 11H51
ATUALIZADA EM 03.11.2016, ÀS 23H05
ATUALIZADA EM 03.11.2016, ÀS 23H05

Presença bissexta na TV, Chico Diaz entrou em Velho Chico, na nova novela das 21h da Globo, com a incumbência de ampliar a paleta de cores, sotaques e cicatrizes que espelham a diversidade brasileira no papel do retirante Belmiro. Bastaram apenas duas semanas no ar para que o ator arrebatasse o gosto dos críticos e o carinho do público. Virou alvo de elogios na mídia e no boca a boca popular, potencializando um carisma que será posto à prova também nos cinemas, a partir de abril, em muitas frentes. Em meio à comemoração de 35 anos de serviços prestados à indústria cinematográfica, até dirigir ele vai, levando às telonas o romance A Lua Vem da Ásia, de Campos de Carvalho, já encenado por Diaz durante dois anos nos palcos nacionais. Mas a primeira envolve um potencial blockbuster policial, o thriller Em Nome da Lei, de Sérgio Rezende, que estreia no dia 21 de abril, com fôlego para ser campeão de bilheteria.

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"Entrei num set pela primeira vez em 1981, com o próprio Sérgio Rezende para filmar O Sonho Não Acabou e fiquei encantado com aquele ambiente, com a questão do nomadismo inerente a essa troca de locações exigida por um filme. Ali começou uma história de amor que teve seus altos baixos, mas já me rendeu 70 filmes. Dirigir, nessa altura da minha carreira e da vida, chegando daqui a pouco aos 60 anos, significa para mim uma espécie de graduação", diz Chico Diaz, que entrou no elenco de Em Nome da Lei no papel de Gómez, chefe do tráfico na fronteira do Brasil com o Paraguai, cujo maior inimigo será um juiz idealista, Vítor, interpretado por Matheus Solano.

Seria fácil resumir Gómez aos adjetivos pejorativos inerentes ao arquétipo de vilão se ele fosse interpretado por outro ator. Mas, com Diaz, não é o caso...

"Gómez se vê como um comerciante trabalhador, que tem uma família para sustentar e eu respeitei isso, porque ele, como muitos de nós, é um produto do meio. E o meio, no caso de uma região de fronteira internacional onde a Justiça era negligente, o Estado é ausente, dando aos homens do local carta branca para criarem suas próprias leis. Ele é um homem com esse perfil, forjado pelo suplício, pela tortura. Quis dar a ele alguma humanidade possível, o que não exclui a existência da Maldade e da Perversidade. Existem as trevas. Há nuvens pesadas sobre nós no Brasil, sobretudo num momento em que andam querendo arrancar nossa democracia, anular nossa autoestima e tirar a força de quem é economicamente pequeno. Mas nem por isso alguém como Gómez não pode receber um corte humano", defende Diaz, nascido no México há 57 anos, filho de pai paraguaio e mãe brasileiro.

Seu avô deixou como legado para ele uma espada que Diaz levou para o set de A Guerra do Paraguay, longa de tintas poéticas do diretor Luiz Rosemberg Filho, que fará sua estreia competindo no Cine PE, o festival de Recife, de 2 a 8 de maio. Ali, ele é uma testemunha ferida que sujou a América do Sul de sangue, arrasando uma nação vizinha sem propósito aparente.

"De uma alma muito generosa, Rosemberg me deu espaço para ser autoral, levando elementos meus como essa espada do meu avô, além de toda a minha memória sobre a tradição paraguaia. No fundo, a cada trabalho é uma busca cega para que eu possa me expressar imprimindo um pouco da minha visão de mundo e da minha opinião às ações dos personagens que interpreto. Não tenho noção consciente das ferramentas que uso para isso, mas a procura pela elevação e pela autoria é consciente é necessária para que o ofício tenha graça e sabor. Fazendo o Belmiro agora em Velho Chico, por exemplo, eu estudava cada cena sem a preocupação de decorar com exatidão, pois era uma forma de converter o texto escrito em texto vivido", explica Diaz. "Na hora de gravar com o diretor Luiz Fernando Carvalho, eu procurava dentro de mim os rascunhos do texto e usava a dor da realidade nele representada para construí-lo com vida. Belmiro é um retirante do Nordeste: ele sintetiza uma legião de grandes homens em busca de meios para sobreviver, arrastando consigo os sonhos que ficaram para trás. Ele é a prova de que existe uma divindade dentro de cada homem."

Formado em Arquitetura, em paralelo a seus compromissos teatrais, Diaz tinha 14 anos quando atuou pela primeira vez, fazendo A Megera Domada ao lado de outros alunos de Teatro Tablado. Oito anos depois começaria no cinema. Já em sua formação inicial, foi buscando formar de compor seus personagens valorizando o abismo interno de cada um. Por isso, é possível encontrar inquietação quase existencial mesmo em papéis pequenos que ele faz como o Barão da Carne que interpreta na comédia francesa rodada no Rio Going to Brazil, de Patrick Mille, que estreia na Europa até o segundo semestre. Ali, ele se vê às voltas com um grupo de jovens parisienses que se envolvem em um crime em solo carioca.

"É uma típica comédia francesa, com bons atores de lá", diz o ator, que tem ainda para estrear a ficção científica Deserto Azul, de Eder Santos, e o curta goiano E o Galo Cantou. "2016 vai ser um ano agitado no cinema para mim. É uma pena que ainda exista um desconhecimento muito grande acerca de filmes extraordinários feitos fora do eixo Rio e São Paulo. É desconhecimento que pode atrofiar nosso entendimento do quão potente o nosso parque cinematográfico é."

Agora que sua participação em Velho Chico chega nos momentos finais, numa virada que pode acentuar os conflitos de terra com o coronel Afrânio (Rodrigo Santoro), Diaz já se prepara para cair de cabeça na preparação para A Lua Vem da Ásia, buscando recursos e parceiros para tirar o texto de Campos de Carvalho do papel. A trama é o diário da loucura de Astrogildo, que se vê hospedado no que parece ser um hotel, mas também pode ser um campo de concentração, um manicômio ou apenas uma fatia de sua própria imaginação.

"Talvez eu arrisque mais uma temporada da versão teatral do texto para sentir seus diálogos fluindo de mim. Quero muito ficar próximo da sabedoria desse grande autor e quero projetar sua escrita alucinada na tela", diz Diaz. "Mas quero muito imprimir humor à sua visão trágica, tirando um pouco da dor e fazer uma comédia."

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