Raphael Montes: Elize Matsunaga “não é vítima nem vilã” em novo filme
Elize: Sombras de uma Mulher estreia na quarta-feira (22) na Netflix
Créditos da imagem: Lorena Comparato em Elize: Sombras de uma Mulher (Reprodução)
A esperança dos roteiristas Raphael Montes e Mariana Torres, quando se trata do filme Elize: Sombras de Uma Mulher, é que ele ajude o público a ter uma visão mais equilibrada de Elize Matsunaga.
"Nós, o público, temos muita tendência de dar respostas fáceis: ou ela é uma grande vilã, ou uma grande vítima", comentou Montes em entrevista ao Omelete, lembrando que Matsunaga passou por diferentes avialiações públicas após confessar o assassinato brutal do marido, Marcos Matsunaga, em 2012.
Revelações sobre o abuso psicológico e violência doméstica que marcava o cotidiano do casal jogaram nova luz sobre o caso ainda durante o julgamento de Elize, que acabou sendo condenada e cumpriu dez anos de pena antes de progredir para liberdade condicional.
"A ficção nos oferece a possibilidade de levantar mais perguntas, em vez de ficar dando as respostas fáceis. Ela é vítima e também é a assassina que esquartejou o marido, que manipulou a família depois", completou o roteirista.
Confira um trecho completo da história!
OMELETE: A gente já viu a história da Elize antes numa série documental, então queria saber: por que vocês escolheram recontar isso na ficção, e o que esse novo formato traz para a história?
TORRES: Eu acho que o que a gente tem de inédito nesse filme vem justamente de ser ficcional. Nós somos ficcionistas, eu e o Raphael, somos dramaturgos e gostamos de fazer ficção. E o público já sabe muito sobre o caso da Elize, é um caso emblemático na nossa sociedade, que se discute até hoje. A gente tem fatos que são públicos, que todo mundo conhece, mas não tem justamente o que é mais interessante, o que nos interessou nesse projeto: o entendimento daquele casal, de como aquelas duas pessoas se juntaram, se relacionaram, e como aquele relacionamento foi sendo construído, no começo como um conto de fadas e depois de maneira trágica. A ficção permite que a gente entre na intimidade desse casal, porque ninguém sabe o que aconteceu ali, entre quatro paredes. Na ficção você pode tentar imaginar, e construir aos poucos, a relação dessas duas pessoas.
MONTES: Complementando a Mari, eu acho que um documentário traz uma perspectiva analítica; ou seja, você tem as pessoas que vivenciaram aquela história contando. A ficção, não; ela te coloca na cena. Você vive com os personagens aqueles momentos dramáticos. Então você está ali na ação enquanto ela acontece, e aí você fica com raiva, arrepiado, tenso, triste, emocionado... você tem as sensações vivas. E, além disso, permite explorar, como a Mari bem disse, a complexidade dessa personagem. Nós, o público, temos muita tendência de dar respostas fáceis: ou ela é uma grande vilã, ou uma grande vítima. A ficção nos oferece a possibilidade de levantar mais perguntas, em vez de ficar dando as respostas fáceis. Ela é vítima e também é a assassina que esquartejou o marido, que manipulou a família depois. Essa espécie de ambiguidade dela só pode ser explorada numa história de ficção.
OMELETE: Outra questão que eu tenho muita curiosidade é a relação de vocês, como roteiristas, com o fato de que a Elize é uma pessoa de verdade, que está aí no mundo, em liberdade condicional. Como é ter essa pessoa vivs enquanto vocês estão escrevendo sobre ela? Isso solicitou talvez um cuidado ainda maior com a história?
MONTES: Eu acho que toda história real exige um cuidado, em vários aspectos. Não é só com a Elize, mas com a família do Marcos Matsunaga, por exemplo. Não podemos esquecer que eles tiveram uma filha, também. Então, sim, a gente tem um cuidado bastante grande de receber material de pesquisa, contar a história baseada no que existe de fatos e de elementos dramáticos. Posso te dar um exemplo: como a Mari bem disse, a gente não estava entre as quatro paredes com esses personagens, então os diálogos entre eles são imaginados. A gente tenta se aproximar do que já sabe dessa relação, mas a gente imagina. Enquanto isso, em vários outros elementos nós temos a informação fática, e nosso trabalho é colocá-la na história de uma maneira dramática. A gente sabe que eles tinham um quarto de armas na casa, uma cobra de estimação — tudo isso é fato. Então, no filme, a gente traz o olhar da tia, que vem do interior para visitar a família e acha aquilo tudo meio estranho. Como eu, quando descobri tudo isso, também achei estranho. De algum modo, eu sou a tia! [Risos] Eu acredito que o público tem que entrar na casa e ter esse olhar de "caramba, que diferente ter um quarto de armas, que diferente ter uma cobra". Então sim, a gente teve muito cuidado com vários personagens, e especialmente com a filha da Elize. Um dos temas do filme é a maternidade também, uma coisa que costura toda a história é o desejo da Elize de construir uma família diferente da que ela teve, e como isso no final se torna impossível a partir do que ela mesma fez.
TORRES: Só para complementar sobre o que você estava falando, Rapha, eu lembrei da coisa do apartamento. A gente usou o apartamento quase como um símbolo daquele casal sufocado, ali, mas aquele lugar existia, representava o sonho dela... e a gente tem aí uma discussão de classe social também. A Elize é uma mulher que veio do interior do Paraná para batalhar a vida dela. Então como a gente podia usar o apartamento, a cobertura, de maneira dramática? Como um símbolo disso, claro. Essa coisa da responsabilidade, que você perguntou, é muito importante, porque você está ali lidando com gente que ainda está processando muitos traumas. Foi um crime muito brutal. Então, é importante estruturar esses eventos reais como narrativa, mas de maneira respeitosa, sem distorcer a verdade. Foi um trabalho de muita tentativa e erro.
MONTES: E é por isso que eu tinha que ter do meu lado uma grande roteirista como a Mari.
*Elize: Sombras de uma Mulher chega em 22 de julho à Netflix.
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