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Dúvida

Filme indicado a cinco Oscar tem quatro delas para seu elenco principal e coadjuvante

Marcelo Hessel
05.02.2009, às 17:30
Atualizada em 21.09.2014, às 13:44
Atualizada em 21.09.2014, às 13:44

A atriz Viola Davis não tem mais do que dez minutos em cena em Dúvida (Doubt, 2008), e a Academia do Oscar fez questão de indicá-la a melhor atriz coadjuvante. Com ela concorre Amy Adams. Juntando Philip Seymour Hoffman (melhor coadjuvante) e Meryl Streep (melhor atriz), são quatro os indicados por Dúvida - todos merecidos, sem dúvida.

Mas é óbvio que o Oscar age meio por inércia, meio por osmose. Filmes chegam à premiação com uma etiqueta, e na de Dúvida, graças ao roteiro de diálogos "inteligentes" e à direção de John Patrick Shanley que induz ao overacting, está escrito "elenco de Oscar". Por uma boa meia hora, no início do filme, o que fazemos é ver Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, sempre soberbos, mas temos dificuldade em enxergar personagens.

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O filme melhora progressivamente à medida que os personagens ganham complexidade. Em 1964, sopram os ventos da mudança. Sopram literalmente, porque o roteiro de Shanley adere às alegorias pouco sutis. Na escola católica St. Nicholas, no Bronx novaiorquino, a diretora Irmã Aloysius Beauvier (Streep), que conduz a rotina com mão de ferro, bate de frente com o padre da diocese, Brendan Flynn (Hoffman), progressista adepto de um tratamento mais afetuoso com os alunos. Apoiada numa suspeita da esforçada Irmã James (Amy Adams), a intransigente diretora suspeita que Flynn tenha abusado de um dos meninos.

Se Shanley é adepto dos subtextos, então suas menções ao New Deal, a Roosevelt, à "paixão pela História", casadas com o tema do vento que traz mudanças, levam a lembrar da atual condição política dos EUA, com o Estado (a Igreja?) atuando para controlar a crise. É sobre um fato histórico mais pontual, porém, que o roteiro avança, os casos de pedofilia por parte de padres católicos no país. A questão é: Brendan Flynn é um deles? A dúvida do título tem mais de uma interpretação, e essa é uma.

Sendo Dúvida um filme com "elenco de Oscar", o atrativo principal evidentemente é o "duelo de interpretações" entre o padre e a diretora. Ele é superior hierarquicamente, mas Shanley filma o início do conflito de forma invertida: o padre diminuído (filmado de cima para baixo) e a diretora opressiva (filmada de baixo para cima). Até o embate final vêm outras alegorias - a lâmpada, as flores secas, o açúcar, as penas do travesseiro no ar - e algumas causalidades óbvias, como o garoto sofrer quando o padre vira as costas. Como Shanley tinha no currículo de diretor apenas Joe contra o Vulcão (Joe Versus the Volcano, 1990), sua insegurança leva a redundâncias, como fazer Meryl Streep repetir duas vezes que "é preciso um gato para caçar um rato".

Ao final, que dá um desfecho ambivalente a essa trama que se previa plana, Dúvida se beneficia mais do texto de Shanley (baseado em uma peça de sua própria autoria) do que da sua direção. Curiosamente, é uma alegoria, de novo, um dos pontos altos do final, quando a irmã quase cega monta o presépio de Natal. Remete ao começo do filme. Num sermão na igreja, Padre Flynn dizia que a dúvida pode unir as pessas e ser tão forte quanto a certeza, e Irmã Beauvier ao longo do filme se mostra adepta ferrenha da certeza. Pois seguir os dogmas cegamente pode ser tão discutível quanto infringi-los.

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