Distopia, swing religioso e nacionalismo: Gabriel Mascaro fala sobre Divino Amor

Créditos da imagem: Divino Amor/Vitrine Filmes/Reprodução

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Distopia, swing religioso e nacionalismo: Gabriel Mascaro fala sobre Divino Amor

Filme está em cartaz nos cinemas

Mariana Canhisares
04.07.2019
14h36

Esqueça o carnaval. No Brasil de Divino Amor celebra-se a festa do Amor Supremo, uma espécie de rave para aguardar a grande volta do Messias. Em 2027, ano em que o novo longa do diretor Gabriel Mascaro (Boi Neon) é ambientado, dogmas religiosos como esse estão em toda a parte. O casamento é mais do que nunca uma instituição sagrada e uma gravidez é motivo claro de alegria - afinal, se está diante de um milagre de Deus. Esses valores são tão fortes que existem até mesmo scanners na porta de cada estabelecimento, revelando o estado civil do cliente e se há ou não um feto no seu ventre.

Neste futuro tão próximo, em que o Cristianismo e o Estado brasileiro são indissociáveis, conhecemos a protagonista Joana (Dira Paes). A escrivã não apenas apoia essa relação próxima entre política e religião, como acredita que deveria ser ainda mais intensa. Para ela, não se trata de uma distopia. “A personagem de Dira Paes vive em uma utopia. Ela acredita nesse mundo”, afirmou Mascaro em entrevista ao Omelete. “Ela não está lutando contra. Na verdade, ela acredita na força desse Estado para fazer o bem a favor da vida”.

A fé de Joana é realmente inabalável, mesmo nas situações mais adversas. Enquanto o público se surpreende com o quão devoto é este novo - e ironicamente atual - Brasil, com seus drive-thrus de oração e a popularidade do tecnogospel, a protagonista segue tentando salvar casamentos frustrados para assim, quem sabe, ser recompensada com uma criança. Seu corpo é uma oferenda a Deus e, por isso, ela e seu marido Danilo (Júlio Machado) estão dispostos a recorrer a tecnologias mirabolantes e a terapias de casal avançadas para cumprir esse objetivo.

O CORPO A SERVIÇO DO DIVINO

"Quem ama não trai. Quem ama divide", diz a pastora nos encontros do grupo Divino Amor, onde Joana e Danilo procuram aconselhamento religioso, assim como outros casais que também sonham em ter filhos. Mas, em 2027, os exercícios não se limitam a leituras da Bíblia e orações. Lá, maridos e esposas se valem de outras técnicas, como o swing. Nos cultos, os protagonistas transam com outros parceiros, mas no ápice retornam aos seus amados para o chamado “gozo divino”. Há prazer e erotismo, mas é tudo para completar uma missão divina.

“O corpo sempre esteve a serviço dos rituais”, explicou Mascaro sobre a função do erótico na sua narrativa religiosa, inspirada na pornochanchada. “Então, atualizei um pouco esse imaginário dentro do dicionário de multiplicar, dividir e partilhar e trouxe para o Divino Amor essa ideia elevada da experiência do corpo e do matrimônio, da manutenção da família sagrada e da vida”.

Para as cenas de sexo, o diretor fez questão de tomar algumas medidas para garantir o conforto dos atores. Se em um dia comum as filmagens teriam cerca de 50 pessoas, para estes momentos mais íntimos seriam, no máximo, cinco. “Pensamos em fazer algo menor para não ter nenhum constrangimento e ter a energia que a gente precisava e que o filme pedia. Foi muito especial contar com a generosidade do elenco, que se entregou de corpo e alma”.

SÍMBOLOS NACIONAIS

Se o sexo é um dos eixos do filme, o cartório é o outro. Símbolo da burocracia do país, o ambiente de trabalho de Joana é também onde ela enxerga que pode fazer a diferença no mundo. Para ela, princípios bíblicos, como todos são iguais perante a Deus, são válidos também no contexto do Estado. Por isso, ela aproveita cada formulário, cada requerimento de documentação, para convencer casais que querem se divorciar a mudarem de ideia. Ela usa sua posição de poder para, mais uma vez, servir ao que acredita ser o desejo divino.

Mas este não é o único elemento tipicamente brasileiro que pode ser encontrado em Divino Amor. Neste futuro, predomina no país um sentimento nacionalista e, portanto, a bandeira verde e amarela está frequentemente visível.

Embora o tripé política-religião-nacionalismo seja a plataforma de governo do presidente Jair Bolsonaro, Mascaro afirma que o filme foi concebido antes da eleição, há quatro anos. A aproximação destas três vertentes retratada no filme foi, na realidade, uma construção que ele percebeu ao longo dos anos. Ainda assim, ele percebe que a produção muda conforme a implementação das medidas políticas do executivo. “É um filme muito vivo. A cada sessão é uma experiência única, porque o país vai mudando também. Esse é o poder da arte: fazer perguntas e não dar respostas. Que bom que o filme é um tipo de pergunta sobre o nosso presente”.

Divino Amor está em cartaz nos cinemas.