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Da Frigideira: Extermínio 2

Novo filme da zumbizada honra a melhor tradição da sociometáfora romeriana

Marcelo Hessel
14.05.2007
00h00
Atualizada em
18.12.2016
15h02
Atualizada em 18.12.2016 às 15h02

Da Frigideira é a seção das primeiras impressões, e os dez, quinze minutos que abrem Extermínio 2 (28 Weeks Later) deixam as melhores.

Extermínio havia feito sucesso em 2003 renegando algumas leis então irrevogáveis dos filmes de zumbi, como a velocidade de locomoção dos canibais. Pois a continuação, que teve sua equipe criativa terceirizada - saíram o roteirista Alex Garland e o diretor Danny Boyle e entrou o espanhol Juan Carlos Fresnadillo, em seu primeiro trabalho hollywoodiano -, começa respeitando as raízes, em um cenário romeriano por excelência.

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Estamos dentro de uma casa de madeira. Don (Robert Carlyle) prepara o jantar ao lado de Alice (Catherine McCormack), sua esposa, num insuspeito clima à luz baixa. Não fosse por uma fotografia com o retrato dos dois filhos do casal, que Alice segura nas mãos, aflita, não saberíamos que a família foi separada à força. Não fosse pela comida enlatada com prazo vencido, não imaginaríamos que eles estão isolados do mundo.

Outras pessoas se juntam à mesa: um casal de idosos, um rapaz cínico e uma moça loira, chorando pelo namorado que não voltou ainda. Quando escutam-se batidas na porta, ela fica com esperanças - os outros, com medo. A voz do lado de fora pede socorro. Resolvem abrir. O que invade a casa, antes de mais nada, é uma luz cegante. Aquelas pessoas estão jantando em clima funesto, mas lá fora ainda é dia.

Fresnadillo mostra, sem demora, que sabe filmar. As primeiras tomadas de dentro da casa passam de close em close; como o diretor não abre o enquadramento para mostrar melhor o interior, cria-se um suspense claustrofóbico. Na hora em que a luz entra pela porta - é um garoto loiro que queria abrigo - o diretor corta para o contraplano, uma tomada geral da fachada da casa. Até aquele momento ele não havia mostrado o exterior, e o contraste é atordoante: o sol brilha bonito, o céu está muito azul, o campo, mais verde impossível.

A homenagem a George Romero - o cárcere como refúgio é peça central na Quadrilogia dos Mortos, não importa se o lugar é uma cabana, um shopping, uma base militar ou um condomínio de luxo - dura só até a entrada dos zumbis, correndo alucinadamente como qualquer desmorto jamais sonhou. (Zumbi sonha, aliás?) Os tipos concebidos por Danny Boyle, cujo visual sangue-nos-olhos Fresnadillo reproduz fielmente, estão mais selvagens. O diretor registra o pânico do momento com a adequada câmera na mão. Não dá dois minutos e o único sobrevivente é Don.

A rigor, os selvagens de Extermínio 2 não são zumbis, mas pessoas vivas contagiadas por um vírus que as transforma em animais canibais. Tanto é que, 28 semanas depois do contágio inicial, ocorrido no primeiro filme, os "zumbis" de Londres morreram de fome. O exército dos Estados Unidos pode então entrar para controlar o lugar, evacuando a população sadia e higienizando a cidade. É para lá que Don vai, encontrar os filhos, dizer a eles que a mãe morreu. Depois da introdução formidável, é agora que o filme começa de verdade.

Se os zumbis não são zumbis no sentido romeriano, mortos-vivos, eles continuam servindo de sociometáfora. A analogia é inequívoca: o exército dos EUA entrando para repovoar o lugar, com sua idéia de ordem e disciplina, achando que democracia é mesmo algo que se exporta como uma franquia do Burger King... O Iraque é aqui. Londres está em chamas, e morar perto do rio não ajuda em nada. O filme só aumenta a certeza de que o nosso mundo vai ladeira abaixo na direção da hecatombe - mas isso já é assunto para a crítica do filme, não para o Da Frigideira.